30 de janeiro de 2006

Vila Flor, a eterna Aldeia de Gramació

Construída em 1743, a “Casa de Câmara e Cadeia” é um importante exemplar arquitetônico e histórico do Rio Grande do Norte.

Texto e foto: Alexandro Gurgel

“Abandonada e semi-deserta, Vila Flor resistiu como um fantas, teimando em residir nas ruínas da casa em que vivera. Criaram uma escola em 1882. Em novembro de 1890 foi distrito de Canguaretama. Ao derredor, a vida continuava, plantando, colhendo, sonhando... Cento e cinco anos depois, ressuscitou... Em abril de 1940, passou a denominar-se “Flor”, inexpressivo, banal, anti-histórico, felizmente anulado pela lei restauradora do município, restituindo-lhe o antigo nome de Vila Flor”. (Câmara Cascudo, in Nomes da Terra. Editora Sebo Vermelho).

Um dos primeiros núcleos colonizados por portugueses no Estado do Rio Grande do Norte foi a Aldeia Gramació. Segundo o historiador Câmara Cascudo, no livro “Nomes da Terra” (Sebo Vermelho Edições), depois do alvará em forma de lei, em setembro de 1700, os indígenas receberam uma légua quadrada e foram aldeados sob administração de missionários jesuítas. Situada à margem esquerda e acima uma légua da Barra de Cunhaú, instalou-se a Aldeia Gramació, com caboclos, índios tupis e colonizadores portugueses.
Ainda de acordo com o Mestre, o nome Vila Flor surgiu em obediência as instruções que impunham designações de localidades portuguesas às novas Vilas, como Estremoz, Arez e Portalegre. “Vila Flor é conselho do distrito de Bragança em Trás-os-Montes”, escreveu Cascudo.
Vila Flor tinha crescimento amplo na industria açucareira, aproveitando as terras úmidas da região. Nessa localidade viveu a família Albuquerque Maranhão, uma oligarquia centenária. Conforme Cascudo, André de Albuquerque Maranhão, primo e cunhado do homônimo, chefe da Revolução de 1817, foi Capitão-Mor de Ordenança de Vila Flor e Arez, embora residisse em Estivas.
Nos idos de 1743, foi construída a “Casa de Câmara e Cadeia”, importante exemplar arquitetônico e em 1745, foi edificada a histórica Igreja de Nossa Senhora do Desterro, construída pelo frei jesuíta André do Sacramento.
A aldeia Gramació foi elevada a vila com o nome de Vila Flor, em obediência à Carta Régia de 3 de maio de 1755, que transformava em vilas os antigos aldeamentos indígenas. O nome foi uma homenagem feita à um distrito de Bragança, em Portugal.
A instalação da nova vila foi feita apenas em 1769 pelo Dr. Miguel Carlos Caldeiras Castelo Branco. Nessa época, Vila Flor já experimentava um bom nível de desenvolvimento econômico, motivado por sua força na agricultura, com destaque para a produção de cana-de-açúcar.
No ano de 1858 ocorreu a expulsão dos missionários jesuítas e a transferência da sede da localidade para o povoado de Uruá, que foi elevado a categoria de vila, vindo a se tornar município de Canguaretama.
Em 1940, o povoado passou a se chamar Flor e, em dezembro de 1963, por força de Lei, desmembrou-se de Canguaretama, tornando-se um novo município do Rio Grande do Norte, recebendo seu antigo nome: Vila Flor.
Vila Flor está localizada na Região Agreste do Estado, distante 83 quilômetros de Natal, onde vive uma população de aproximadamente três mil pessoas. A economia do município é baseada na pecuária e no plantio de cana-de-açúcar. Os trabalhos de confecção de cestas de esteiras, utilizando a fibra-de-coco e a palha de carnaúba, são os destaques do artesanato local.
Vila Flor ainda oferece ao visitante a história potiguar estampada na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, no prédio da antiga Casa de Câmara e Cadeia e na Fortificação dos Sete Buracos. No município é visível o crescimento do eco-turismo no Rio Catú, na Mata Atlântica, no Sítio Arqueológico e no Mirante Cabo do Bacopari.
O folclore de Vila Flor está representado com manifestações de Fandango e da Nau Catarineta, danças portuguesas, e são apresentadas durante as comemorações na festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Desterro, no dia 06 de fevereiro.

29 de janeiro de 2006

Elino Julião, uma lenda viva do forró potiguar

Elino Julião


Por Alexandro Gurgel – jornalista

Elino é compositor
De marchinhas e forró
Xote, merengue, bolero
De brega e carimbó
E é o filho mais querido
Das terras do Seridó.
(versos de cordel de Chico Gomes em homenagem a Elino Julião)

Assim como Dona Militana está para o Romanceio Popular, Chico Daniel para o Mamulengo, Manoel Marinheiro para o Boi-de-Reis, Mestre Cornélio para o Araruna e Câmara Cascudo para as letras potiguares, Elino Julião é uma lenda viva do legítimo forró pé-de-serra, representante autêntico da música norte-rio-grandense.
Elino Julião sempre foi um menino danado. Logo cedo, se destacou entre os treze irmãos pela sua esperteza, fazendo versos e batendo em latas, enquanto carregava os galões d’água do açude para casa. Filho de tocador de cavaquinho, Elino tinha o dom musical, apresentando seu talento nos bailes da Festa de Sant’Ana, em Caicó, onde fazia muito sucesso entre a juventude dourada daquela época.
Nasceu no ano da graça de 1936, aprendendo as primeiras letras com a senhora Lutgard Guerra (irmã do escritor Otto de Brito Guerra), proprietária da fazenda Tôco, município de Timbaúba dos Batistas, sertão do Seridó, de onde saiu na boleia do caminhão de seu Artur Dias, ainda adolescente, para tentar melhorar de vida em Natal.
Já rapazote, pelos idos dos anos 50, morando no bairro das Quintas, na casa de uma tia, Elino começou a participar de programas de auditórios, fazendo shows ao vivo, sendo transmitido pela Rádio Poti para todo o Rio Grande do Norte, sob o comando do radialista e animador Genar Wanderlei. “Jackson do Pandeiro me viu cantar para o pessoal do auditório e me convidou para eu ir ao Rio de Janeiro cantar com ele. Depois que servi o Exército, fui morar com ele na Glória, na Rua Cândido Mendes e fazer parte do conjunto dele”, disse Elino Julião.
No início da década de setenta, Luiz Gonzaga estreou um programa na TV Cultura chamado “Chapéu de Couro” e convidou Elino para trabalhar como ritmista, permanecendo ao lado do Rei do Baião por mais de três anos. Durante esse período, Elino morou na casa de Luiz Gonzaga e de seu irmão, Zé Gonzaga, conhecidos como os “Príncipes do Forró”. Essa turma formava o Trio Nordestino e foi na Polygram que Elino gravou suas primeiras canções, “Rela Bucho”, “Puxando Fogo” e “Xodó do Motorista”, que logo se transformaram em verdadeiros sucessos.
Em reconhecimento ao seu talento, durante a comemoração dos 250 anos da Festa de Santana, em Caicó, alguns fãs de Elino fizeram uma homenagem inusitada. Um grupo lançou o fã-clube "Rabo do Jumento", numa alusão ao grande sucesso que sempre embalou as farras no mercado, alegrando os bares e também fazendo parte da programação de rádio da cidade. “O rabo do Jumento” foi lançado no meio da “Feirinha de Caicó” com grande repercussão na cidade, dando direito à carteirinha para sócio.
Atualmente, Elino Julião é um cantor e compositor famoso, reconhecido no Brasil inteiro, principalmente no Nordeste. Sua música também ecoa nas rádios internacionais em países como Portugal, Itália, Bélgica, Uruguai, Argentina e outros tantos. No seu vasto repertório, Elino compõe com maestria xotes, marchinhas juninas, boleros, cocos, baião, forró, carimbó, merengue e outros ritmos.
Em reconhecimento ao seu grande talento e importância para nossa cultura, em 2004, o povo de Natal concedeu ao forrozeiro o título de “Cidadão Natalense”, num grande evento na Câmara Municipal. Outra homenagem justa é a gravação do CD “O Canto do Seridó”, dentro do projeto Nação Potiguar, com o patrocínio da Fiern/Sesi e realizado pela Fundação Hélio Galvão.
“O CD ‘O Canto do Seridó’ chega a ser um disco didático para quem acha que forró é uma coisa só. Aqui tem xote, baião, galope, rojão, e algo fundamental que os atuais compositores do gênero vêm perdendo: a capacidade de abordar temas simples, dentro do formato que foi sucesso popular tanto de Elino Julião, quanto de Jackson do Pandeiro ou Genival Lacerda”, escreveu o jornalista José Teles para o Jornal do Comércio, de Recife.
Nesse CD, Elino Julião consegue reunir importantes artistas brasileiros como Dominguinhos, Fagner, Elba Ramalho, Lenine, Xangai, Marines e Tetê Espíndola, além da participação dos músicos potiguares Galvão Filho e Isaque Galvão. Ultimamente, sua musicalidade tem sido revisada e gravada por baluartes da música nordestina como Fagner, Zeca Baleiro, Antônio Nóbrega e Mestre Ambrósio, só para citar alguns.
Elino já produziu mais de 700 músicas em 40 discos de vinil e seis CD’s. Depois que veio morar na Cidade Satélite, em Natal, Elino Julião gravou três CD’s, “O Canto do Seridó 1 e 2” e outro chamado “A Mulher é quem Manda”, em parceria com a compositora Veneranda Araújo, sua companheira há 30 anos e fã declarada.
Compositor de forró afinado, cantador competente, Elino Julião carrega nas entranhas d’alma um grande apego a sua terra e as tradições do seu povo. Sua poesia expressa todos os aspectos da vida sofrida do sertanejo, seus costumes simples e suas festas populares. Sua música conta histórias de um Seridó encantado, das lembranças encravas no peito, onde a sua vivência de menino traquino é relatada com irreverência, usando o palavreio do mais puro e sutil humor nordestino.

Duas palavrinhas com Elino Julião:

Quais as lembranças do seu tempo de menino no sertão do Seridó?
Lembro de Timbaúba dos Batistas, onde vivi minha infância, foi onde eu nasci. Minha vida de menino, botando água em jumento lá no Açude Velho, correndo atrás de gado... Aquilo nunca saiu da minha lembrança e do meu coração. Eu vou sempre a Timbaúba e quando chego, a gente faz festa, reúne o pessoal pra fazer cantoria e relembrar os velhos tempos.

Você ficou nacionalmente conhecido com a música “Rabo do Jumento”, qual foi a fórmula do sucesso? Como nasceu a música?
Eu trabalhava com Jackson do Pandeiro quando gravei o forró “Rela Bucho” que repercutiu bastante no Brasil inteiro e as portas começaram a se abrir. Pra fazer esse forró, eu me lembrei de um fato ocorrido quando eu era garoto no sítio onde nasci, chamado Tôco, em Timbaúba dos Batistas. E me lembrei que por lá, apareceu um cabra bem alto, vindo do Piauí, dos olhos azuis, com uma peixeira de um lado e uma foice nas costas, chapéu de couro e sem camisa. Chegou montado num jumento, disse: “Quem é o dono daqui?” e eu respondi: “É seu Ermogênes”. Era um tal de Nascimento que vivia pelo mundo e pediu morada para seu Ermogênes. E Nascimento ficou, ficou e foi ficando... E um dia, eu estou botando água no meu jumentinho – era tempo de inverno, todo muito contente e muito alegre – e eu botei o jumento na manga do açude e fui tomar banho, deixando o bicho por lá. Nascimento tinha plantado uma rocinha na vazante do açude e já estava tudo bonito. Muito jerimum, muita batata, muito milho, feijão ramando... Aquela coisa linda. Eu descuidei e o jumento pulou a cerca e foi comer a lavoura de Nascimento (risos)... Rapaz, Nascimento virou uma fera. “Como é que se faz uma coisa dessas? Vou fazer a mesma coisa com você”, disse Nascimento. Ele deu uma peixeirada e cortou o rabo do jumento. Eu fiquei só espiando pra ele calado, com um medo danado. Foi nesse momento que ele disse: “Olhe, se você falar pra alguém que fui eu que cortei o rabo do jumento, eu faço a mesma coisa com você”. Então, eu fiquei pensando: “Eu não tenho rabo para Nascimento cortar”. Quando eu me lembro disso me dá um dó danado do jumento. Depois, ficou o burburinho na fazenda... Uns diziam: “Ah, se eu pego esse cabra que fez isso com o coitado do jumento eu degolo”, outros diziam: “Eu enfio a faca todinha no bucho dele”. E ele ficava escutando aquilo tudo bem quetinho, já cismado. Eu ficava bem caladinho e os cabras vinham me perguntar: “Você não viu nada?” e eu dizia: “Não vi nada não senhor”. E nada de dizer que tinha sido Nascimento. Eu ia dizer? Nascimento tinha jurado cortar o meu rabo também... (risos). Depois, Nascimento se arrependeu e quis pagar o rabo do jumento. Então eu fiz os versos: “Eu não quero pagamento Nascimento, eu só quero é outro rabo no jumento”.

Curso de fotografia profissional

Alunas em ação numa aula prática

Texto e foto: Alexandro Gurgel

A Associação Potiguar de Fotografia e o Practical Cursos fazem parceria para ministrar um curso completo de fotografia profissional para iniciantes.

As máquinas fotográficas digitais foram as campeãs de vendas no último natal. Nunca se consumiu uma quantidade tão grande de câmeras fotográficas compactas como agora. Com a facilidade de ver a foto na hora, as máquinas digitais são atrativas para pessoas que curtem fotografar.
Além de registrar momentos entre familiares, viagens, eventos importantes e grandes acontecimentos, o mundo da fotografia exige cada vez mais pessoas qualificadas para o mercado de trabalho. A fotografia está presente no cinema, em comerciais, out doors, jornais, revistas, book de modelos, internet, turismo e uma infinidade de lugares.
Pensando em qualificar o mercado de trabalho, estão abertas as inscrições para um curso de fotografia profissional, destinado àquelas pessoas que são apaixonadas por fotografia, mais ainda não aprenderam as técnicas corretas para tirar uma boa foto. Em parceria com a APOFOTO (Associação Potiguar de Fotografia), O Practical Cursos & Comunicações lançou uma curso de fotografia para iniciantes tendo como objetivo à qualificação profissional.
O curso será ministrado durante seis meses, sendo dividido em dois módulos para cada trimestre. De acordo com o professor e fotógrafo Adrovando Claro, o curso é aberto para qualquer pessoa interessada em fotografia e que tenha vontade em aprender a usar todos os recursos da sua máquina.
No primeiro módulo, o aluno vai aprender como funciona o universo de uma máquina fotografia, seja digital ou analógica, entendendo a manipular os recursos que ela oferece. O aluno também vai aprender a dominar a luz direta e indireta para garantir a luminosidade da foto e vai estudar muito sobre técnicas de composição, dando uma leitura agradável ao resultado final da fotografia.
Para aperfeiçoar os conhecimentos, o segundo módulo é necessário para reforçar e aprofundar as técnicas em diversas situações, dando ênfase a temas como: paisagens, arquitetura, pôr-do-sol, fotos de gente, bichos, fotos noturnas, macro fotografia, entre outros.
O professor ressalta que para participar das aulas não importa a máquina fotográfica que o aluno tenha em casa, ele vai aprender a manipular qualquer câmera que estiver em suas mãos. “O mais importante é a pessoa ser interessada nas aulas e disciplinada no aprendizado. Com o tempo, ela mesma vai se surpreender com a qualidade das fotos tiradas”, disse Adrovando.
As aulas estão previstas para começar em março. Serão duas horas e meia de aula por semana, sendo ministras aos sábados. As aulas práticas serão na rua, com o foco voltado para o resgate do Centro Histórico de Natal e suas personagens humanas, além das paisagens litorâneas do Rio Grande do Norte.

Serviço
Curso de Fotografia
Dia: Sábado
Inicio: Março
Tel: 3211-5436

27 de janeiro de 2006

NOTAS - Voz do Grande Ponto

Artista plástico Fábio Di Ojuara
Barrados no Salão de Arte
A premiação do IX Salão de Artes Visuais do Natal, ocorrido na Capitania das Artes e promovido pela Prefeitura de Natal, não agradou alguns artistas que se sentiram rejeitados pela Funcarte. Artistas potiguares renomados foram desclassificados sumariamente, entre eles estão Assis Marinho, Iaperi Araújo, Valderedo Nunes, Franklin Serrão e Fábio Di Ojuara. De acordo com um grupo de artistas “excluídos”, tudo leva a crer que houve uma “panelinha” para a escolha de participação na mostra. Conforme o artista e escritor Fabio Di Ojuara (foto), também há indícios de favorecimento quanto à indicação para a Menção Honrosa de vários artistas, entre os quais é citada a artista plástica Andréa Galvão, irmã do presidente da Fundação Capitania das Artes, Dárcio Galvão. A configuração do “nepotismo cultural” no órgão oficial de cultura natalense é observada pelos artistas que prometeram boicotar o evento no próximo ano. “O Salão de Artes objetiva projetar o que há de melhor nas artes visuais do Estado, mas está sendo usado para premiar parente. É por essa razão que há um desgaste muito grande na arte potiguar. Agora, toda merda é arte”, desabafou Fábio Di Ojuara. O artista plástico Franklin Serrão e o poeta Plínio Sanderson estão organizando a “I Exposição dos Excluídos no São de Artes Visuais de Natal”, a ser a realizado no dia 8 de maio, dia do artista plástico, com a participação de mais de 200 artistas. Inclusive com alguns artistas internacionais que foram convidados. Até agora, os organizadores não confirmaram o local, mas deverá acontecer no Solar Bela Vista, em frente a Capitania das Artes. Em tempo: Os vencedores do IX Salão de Artes Visuais de Natal, que receberam prêmios no valor de R$ 4 mil, foram Flávio Freitas, Marcelo Gandhi e Roberto Bezerra. Na categoria talento, o vencedor foi Wendell Gabriel, que recebeu mil reais.

Curso de Fotografia
Estão abertas as matrículas para aqueles que querem aprender a fotografar profissionalmente com qualidade, de uma maneira eficiente e rápida. O Practical Cursos avisa que abrirá uma turma para ensinar fotografia para iniciantes, com máquinas digitais e convencionais. Durante o curso, com duração de 06 meses, o aluno vai dominar técnicas de composição, domínio da luz natural, uso do flash, fotografia de paisagens, book, arquitetura, entre outros temas. Mais informações através do telefone 84 3211-5436.

2006 Cheio de Arte
O empresário Junior, da gráfica Offset, teve uma ótima idéia quando decidiu produzir calendários promocionais com obras de artes dos artistas natalenses Marcelo Fernandes e Fábio Eduardo. No calendário de parede, os cones abstracionistas de Marcelo, feito em giz de cera sobre cartão, ilustram os meses do ano. No calendário para mesa, em forma de pirâmide, os traços expressionistas de Fábio enchem de arte os meses de 2006.

O Graal de Osório Almeida
O jornalista, poeta, escritor e ativista político, sendo o último comunista de esquerda vivo na Terra de Cascudo, vai lançar um livro no começo de fevereiro, onde pretende desvendar o mistério do Santo Graal, o cálice que Jesus usou na última Ceia, com seus apóstolos. Com o título “De Volta ao Castelo do Graal”, a obra é fruto de um estudo cientifico do autor onde ele afirma que fez uma descoberta importante, com um final intrigante e verossímil, baseado no livro “A Lenda do Graal”, de Chrétien de Troyes. Em formato de bolso, o livro é o primeiro lançamento da Editora Sebo Vermelho em 2006 e tem uma tiragem limitada de 300 exemplares.

As Pelejas de Ojuara
Em um rápido encontro em Natal com autoridades do governo do Estado e da prefeitura, o produtor cultural Carlos Barreto fechou acordos para iniciar as filmagens, baseado no livro “As Pelejas de Ojuara – a verdadeira história do homem que virou bicho”, do escritor potiguar Nei Leandro de Castro. Tudo indica que as filmagens começarão em abril tendo como protagonista o ator Marcos Palmeira. A atriz Cláudia Raia foi convidada para interpretar a personagem Mãe de Pantanha. Nei Leandro torce para que a escritora Clotilde Tavares seja devidamente convocada para atuar como Clotilde Alicate, personagem inspirado na própria escritora. O romance será dirigido pelo diretor Moacy Góes e começará explorando os cenários seridoenses.

Rodoviária agonizando
A maioria dos turistas que visitam Natal não deve conhecer de perto a Rodoviária da Cidade da Esperança que vive em total abandono, numa fase de decadência gritante. Inaugurada em 1982 e desprezada ao longo do tempo, a rodoviária está sem água há mais de duas semanas, tendo como conseqüência a sujeira que invadiu os banheiros, exalando um cheiro horrível e comprometendo todos os serviços do local, inclusive aqueles oferecidos pelas lanchonetes. Sendo um dos principais destinos turístico do Nordeste, a cidade de Natal parece que não dá importância para aqueles visitantes que chegam de ônibus.

Senado Concorrido
Faltando menos de nove meses para as eleições deste ano, vários são os candidatos a senador nas próximas eleições. Já estão confirmadas as candidaturas do presidente estadual do PSDB, Geraldo Melo; o atual senador Fernando Bezerra; o presidente da OAB, Joanilson de Paula Rego, o presidente do PMN e da Assembléia Legislativa, deputado Robinson Faria e o deputado federal do PFL, Ney Lopes. Vendo a fila de gente para entrar no senado, o ex-candidato a prefeito de Natal, Miguel Mossoró, afirmou que será candidato a deputado estadual, mas não perdeu a oportunidade de dar uma mãozada no seu adversário nas últimas eleições: “Eu tô doido para que Ney Lopes seja candidato ao senado. Se ele for para a disputa, eu também serei candidato a senador só pra dar uma nova surra de votos nele”.

Vereadores Amordaçados
Eleitores atentos não entendem o porquê dos vereadores “oposicionistas” permanecerem calados diante do impasse entre a Prefeitura de Natal e a classe médica, enquanto a população pobre morre a míngua, sem assistência médica nos hospitais públicos e privados, credenciados pelo SUS. O vereador peemedebista Geraldo Neto faz boca de flashecler, não falando sobre o assunto e nem muito menos apoiou o vereador Hermano Morais, líder do PMDB, que entrou na Justiça Comum com uma Ação Judicial contra a Prefeitura. Os verdes sem cargos, Aquino Neto e Sargento Siqueira, também ficaram omissos, mesmo com o combate intenso do vereador ecológico Gilson Moura contra as atitudes do prefeito. Agora, o que causa mais estranhamento é o comportamento do sempre valente petista, vereador Fernando Lucena, que esqueceu o assunto completamente.

Arrogância Pública
“Quando eu quero ferrar alguém, eu ferro olhando nos olhos da pessoa”, disse o titular da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, Glauberto Bezerra, ao ex Corregedor Geral da Polícia do Estado, Oswaldo Monte, quando o exonerava. O ex Corregedor chamou o estatuto da Polícia Militar de arcaico e disse que o modelo de segurança adota nacionalmente não abre mais espaço para o que ele chamou de “organização ultrapassada”. “A PM concentra todos os poderes na mão de um comandante que faz o que bem entende”, ressaltou. Oswaldo Monte denuncia que o comandante da Polícia Militar, coronel Marcondes Pinheiro, vem tentando evitar que processos administrativos sejam abertos contra oficiais e que apenas pequenos servidores estão sendo punidos. “Existe 140 requisições esperando bela boa vontade do comandante em abrir os processos. Isso representa 163 militares impunes”, disse. O ex Corregedor ainda afirmou não temer represálias contra sua integridade, mas jogou a responsabilidade de qualquer incidente sob o secretário Glauberto Bezerra e o coronel Marcondes Pinheiro.

Tabatinga for Gringos
Recebo e-mail de Cíntia Gushiken, totalmente indignada por causa da construção de um enorme hotel-resort na praia de Tabatinga. “Se pelo menos fosse uma pousada ecológica... Como se tudo fosse sinal de progresso, vejo que muitos concedem licença sem pensar no amanhã! Imagine o grande prejuízo visual que aquela região tão linda sofrerá!” escreveu Cíntia. E se não bastasse isso, não é justo que teremos que ver um litoral tão lindo como é Tabatinga ter a sua vista tampada por um paredão de concreto, ficando somente a mercê de quem poderá pagar em dólar ou em euro. “Deixo aqui meu protesto para quem concedeu licença para o estrago que esse grupo fará na Praia de Tabatinga”, completou. É isso, nem os pulos dos golfinhos vão salvar tamanho estrago!

Carnaval em Mossoró
“Com a capacidade do povo mossoroense em fazer grandes espetáculos, se a cidade de Mossoró inventasse de fazer carnaval, acabaria o carnaval em Natal. Eu admiro o bairrismo do povo de lá. Se me convidassem, eu levaria ‘Os Antigos Carnavais’ para lá”, disse o folclorista Gutenberg Costa, organziador da troça carnavalesca Antigos Carnavais.

24 de janeiro de 2006

Campanha na rua

Candidato a presidente da Samba, jornalista Alexandro Gurgel

ELEIÇÕES NO BECO: A CHAPA LIDERADA PELO JORNALISTA ALEXANDRO GURGEL COMEÇA A APRESENTAR SUAS PROPOSTAS PUBLICAMENTE.

A chapa SEMPRE SAMBA realizará no próximo dia 28 de janeiro (sábado), à partir das 11 horas, o "PRIMEIRO ENCONTRO SEMPRE SAMBA", no Bar de Mainha. O objetivo, segundo o candidato a Diretor Executivo, Alex Gurgel, é o de divulgar as muitas propostas que a diretoria traçou para a revitalização do Centro Histórico e Cultural de Natal, de forma democrática, sem perder a característica festiva que tradicionalmente move as ações becodalamenses.

Por unanimidade, a escolha de realizar o primeiro encontro no Bar de Mainha foi uma forma da chapa homenagear a grande vencedora do Festival Gastronômico promovido pela SAMBA no ano passado e que movimentou toda a cidade. "Por outro lado", - enfatiza Alex Gurgel - pretendemos ouvir as sugestões de todos os frequentadores do Centro Histórico para que possamos, brevemente, e de forma absolutamente democrática, montarmos um calendário que se volte para ações efetivas em torno da revitalização dessa região da cidade, amada pelos intelectuais e por quem tem interesse em preservar a história da cidade".

Para o poeta Antoniel Campos, membro da chapa que sai na frente em termos de apresentação de propostas, "os encontros que realizaremos daqui para frente têm o objetivo, também, de movimentar artisticamente as ações da chapa". Para Antoniel, "não basta apresentar propostas, mostrar a cara na campanha, apenas". Para ele, "o importante é que todas as ações sejam poéticas, por amor a região que a chapa pretende defender".

Léo Sodré

QUEM É DO BECO,
SEMPRE SAMBA

23 de janeiro de 2006

Galo da Bica ou do Caminho?

Nós, que fazemos a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências, levamos para a Capitania das Artes e Fundação José Augusto um projeto que tem por objetivo principal resgatar o carnaval urbano de Natal. Esse é um sonho de muitos natalenses, que, há mais de duas décadas, vê o nosso carnaval se espalhar pelas praias de veraneio, deixando a cidade vazia de qualquer folia.
É um projeto ousado, porém relativamente barato, em torno de 150 mil reais. Um investimento que, com certeza, em curto prazo, terá retorno incalculável para a cultura e, principalmente, para o turismo de Natal.
A idéia é levar o carnaval para o centro histórico, resgatando nossa paisagem de origem.
Para mexer com imaginário popular, duas bandas serão criadas: a Galo da Bica e a Galo do Caminho. Na verdade, Banda do Galo da Santa Cruz da Bica e Banda do Galo da Rua do Caminho de Beber Água. Três ícones de nossa história e dois galos a se rivalizarem, como os antigos xarias e ganguleiros. Não que eles saiam às esporadas. Só alternativas que se misturarão a uma folia maior, pensada, planejada para fazer renascer o melhor da época momesca: a espontaneidade da folia satírica, bem humorada, colorida.
E para colorir e trazer alegria e público para um carnaval que não mais existe numa cidade vazia, mais provocações ao imaginário popular, com disputas entre grupos folclóricos, grupos de papangus, bonecos e troças carnavalescas. A idéia é atribuir-se prêmios para que as fantasias surjam, os bonecos apareçam e tomem as ruas do Centro Histórico. Prêmio Câmara Cascudo para o melhor grupo folclórico, o folclore abrindo as programações do carnaval nosso de todos os dias, desde a sexta-feira gorda, em passeios pelas ruas Santo Antônio, Praça André de Albuquerque, Rua da Conceição e; muitos outros prêmios.
Na Praça André de Albuquerque, uma praça de alimentação e uma Feira da Fantasia. Entre a praça e o Palácio da Justiça, com frente para a Assembléia Legislativa, o palco principal do evento, para shows que entrarão noite adentro, com artistas nossos, cantando as músicas do carnaval brasileiro. Para crianças e velhas gerações, na Praça da Poesia, no pátio interno do Palácio da Cultura, quatro bailes, dois para os Galinhos do Centro Histórico e dois para os saudosos do Gango do Tetéu, dos anos 50 do século passado.
Ainda existem na cidade os blocos de carros alegóricos? Vamos levá-los, então, ao Centro Histórico. Vamos criar prêmios para atrair fantasias, viver sonhos. Criar condições para uma Maratona Fotográfica tendo como tema o evento e; realizar uma oficina de artes plásticas onde os nossos pintores materializarão em risco e tinta o carnaval e seus encantos.
O prefeito quer a festa. Dácio Galvão, presidente da Capitania das Artes, e Amélia Freire, diretora de promoções culturais da Fundação José Augusto, gostaram do projeto. Há dificuldades orçamentárias, mas boa vontade para tentar superá-las. Agora, é trabalhar para tudo dar certo. E esperar que o povo de Natal entre em beco e saia de beco acompanhando as bandas que levarão alegria e animação aonde antes só existia o vazio.
Você, que gosta de carnaval, prepare o espírito: adquira na Feira da Fantasia a máscara ou adereços que o fará folião e; para brincar, escolha o Galo de sua preferência ou os dois, porque eles se somarão a uma tradição que será criada e se fará história na cidade do Natal.
Quem viver, verá.

Eduardo Alexandre
Diretor Executivo da SAMBA - Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências



Hino do Galo do Caminho
Eduardo Alexandre

Da tradição do Alto surgiu
Galo formoso
Fogoso
No caminho da água de beber

Sobradinho
Palácio
Tesouro
É ouro
o Galo da Conceição!

É ouro! É ouro! É ouro!
O Galo da Apresentação!



Hino do Galo da Bica
Eduardo Alexandre

O Galo da Cruz da Bica
Do povo do Baldo
Rio Tuiuru
E as lavadeiras
As louceiras
Da feira famosa

Formosa, você morena
Me entenda
O Galo lá da Igreja
É nosso Galo
Querido,
O mais querido
Querido, querido
De coração!



Festa do Bem na Apurn de Pirangi

A construção da Casa do Bem - Dr. Fernando Rezende, em Mãe Luiza, vai ter um reforço cultural com a realização da Festa do Bem, que visa arrecadar fundos para o início das obras do projeto social a ser implantado no bairro. A Festa do Bem vai ser no próximo dia 28, um sábado, a partir das 22h, na Apurn de Pirangi, com a banda Anos 60sendo a atração da noite. As mesas estão sendo vendidas na própria Apurn e na Atlântico Operadora de Turismo, no shopping Sea Way, pelo preço de R$ 60,00 para quem não é sócio e de R$ 50,00 para os sócios da Apurn. - Mais informações com o presidente da Casa do Bem - Dr. Fernando Rezende, jornalista Flávio Rezende 8839-8428 ou na Atlântico Operadora de Turismo, fone 3642-1578.
A Casa do Bem - Dr. Fernando Rezende é um projeto sócio-cultural, que vai funcionar na rua Papa João XXIII, em Mãe Luiza, com a proposta de oferecer qualificação profissional, lazer, entretenimento, cultura e assistência em diversos níveis, para cidadãos que precisem dos serviços oferecidos, tudo gratuitamente e com muito amor. Diversas outras ações estão sendo planejadas para a obtenção de recursos com a finalidade de construir a Casa do Bem, já tendo a ong posto a venda o livro "Letras e Imagens do Bem - Vol. I", como também o planejamento de um segundo evento para depois do verão, com a banda Los Manos e uma feijoada beneficente com apoio da maçonaria.
Flávio Rezende
Pres. Casa do Bem - Dr. Fernando Rezende

22 de janeiro de 2006

O traço expressionista de Franklin Serrão

Franlin Serrão e o quadro: Aldeia Pau Seco, em Cobaoba. Aldeia potiguar distante uma légua do Forte dos Reis Magos.


Foto e Texto: Alexandro Gurgel – jornalista

Pintor, ilustrador, professor, editor, cronista e boêmio, Franklin Serrão é um jovem talento que vem chamando a atenção de críticos de arte, despontando como uma das grandes promessas nas artes plásticas potiguar. Dono de um traço único, Serrão retrata em suas telas cenários expressionistas, acentuando com cores tropicais os ambientes figurados, explorando as sombras e luzes de uma forma homogenia.
Nasceu no Bairro Nordeste, onde fez fama de menino traquinas nos anos setenta. Filho do paraibano de Santa Rita, Fernando Serrão e dona Zuleide Serrão, seridoense de Jardim de Piranhas, Franklin já se destacava na escola com um forte traço para o desenho. Como todo pintor figurativista, começou desenhando e a pintura veio como uma evolução do desenho.
Aos 34 anos de idade, já experimentou vários segmentos na sua carreira polivalente. Trabalhou em gráfica, copiadora, ensinou geografia no Ensino Médio e Fundamental de escolas públicas, produziu eventos culturais, editou livros, ilustrou peças publicitárias e capas de livros. Durante algum tempo, foi colaborador assíduo do jornal VOZ DE NATAL como chargista. Era nos momentos em que estava desempregado que podia se dedicar intensamente à pintura. “Antes, era um estudo muito lento em cima da pintura, dividindo meu tempo com o trabalho”, ressaltou.
Conforme o artista, seu trabalho está se direcionando para o expressionismo figurativo, uma espécie de pintura tropical, usando tinta acrílica sobre telas feitas pelo próprio artista. “No expressionismo alemão as cores são muito nebulosas e as figuras são muito deformadas, o que não acontece no meu trabalho. Procuro fugir dessa caracterização”, afirmou.
Buscando aprimoramento para sua arte, Serrão tem estudado alguns artistas consagrados e confessa uma preferência pelos pintores: o mexicano Diego Rivera e os brasileiros Portinari e Di Cavalcanti. Em terras cascudianas, sua pintura recebeu leve influencia de Newton Navarro e Assis Marinho. Hoje, adquiriu um estilo próprio, sendo sua arte reconhecida por sua maneira singular de pintar. Sua técnica expressionista alia-se a traços coloridos e livres, esculpem volume, luz e sombras aos ambientes.
Franklin Serrão participou de várias exposições coletivas de arte, entre elas a “III Mostra de Arte Prata da Casa”, realizada na Base Aérea de Recife, onde conquistou o 1º lugar na categoria ‘pintura’ com a obra “Auto retrato”. Em maio último, realizou sua primeira exposição individual “Expressionismo”, na galeria de artes do Bardallos, em Natal.
Atualmente, Serrão tem trabalhado numa série de quadros, cujo tema é o cotidiano dos botequins da Cidade Alta, surgido da sua participação na confraria do Beco da Lama, de onde veio a inspiração. “É lá que vamos encontrar os artistas verdadeiros. Uma coisa é você ver a teoria, outra é ir ou Beco e ver as coisas acontecerem na prática”, frisou.
Segundo o artista, a dificuldade de todo pintor é a escolha do tema. Às vezes, o tema vem por encomenda do cliente, mas, na maioria dos casos, pela observação do artista. Dom Quixote, Lampião, São Franciso, Santa Ceia, cangaço, retirantes e sertanejo, são temas apreciados e os mais procurados. “Um caboclo tangendo o boi, gado no pasto, jagunços e vaqueiros, cenas bucólicas do sertão são mais procuradas do que nossas praias enfadonhas e festas populares produzidas, que não são autenticas do anseio popular”, disse.
A veia de escritor Serrão despertou quando os editores do jornal cultural “O Potiguar”, João Gothardo Emericiano e Moura Neto abriram espaço para seus textos, o incentivando a escrever. Atualmente, seus artigos e crônicas têm espaço no Jornal de Hoje, Tribuna do Norte e Diário de Natal. Aliando artes plásticas ao texto, o artista/escritor trabalha no projeto do livro “Memórias de Botequim”, narrando e retratando os acontecimentos dos últimos dez anos que testemunhou, vividos na boêmia natalense.
Segundo Serrão, não há condições de viver trabalhando com artes plásticas em Natal. Em sua opinião, o artista tem que ser eclético, produzindo muito e sobreviver com outra função, transcendendo a pintura, como ilustrar livros, trabalhos publicitários e editar material livresco.
Recentemente, o artista ilustrou o livro de cordel do poeta Manoel Azevedo, “Cordel da Cachaça”. Serrão e o poeta mantêm uma editora chamada “Serrote Preto”, e vai lançar outro livro, um cordel histórico do século passado, “O ABC dos Canelas”, do poeta Preto Salvador, narrando o massacre em Santana dos Matos.
Em novembro, Franklin Serrão vai fazer uma exposição individual na Feira de Sebos de Natal, na praça André de Albuquerque. O tema da exposição será “Dom Quixote De La Mancha”, em homenagem aos 400 anos desse clássico da literatura espanhola, escrito durante o cárcere por Miguel de Cevantes.

21 de janeiro de 2006

DOIS Poemas de Licurgo Carvalho

Receita Poética

Pegue uma dose de metáfora
Junte duas colheres de letrinhas
Adicione meio grama de rimas
Encontre um pedaço de alegoria
Use assonância até chegar ao ponto
Sirva o poema bem gelado

Para acompanhar a sextilha
Encontre frases usadas
Faça um caldo de assimetria
Mexa até virar um soneto
Tempere com loas parnasianas
Coma os versos de uma só vez

Relaxe ao som de pontos e virgulas
Navegue em baladas de antítese
Perceba a musicalidade em texto
Deixe que o vernáculo dance solto
Escute os gemidos dos signos
Aumente o volume da função poética

Espere a palavra vir excitada
Apalpe vagarosamente cada estrofe
Use o código da língua nas entranhas
Friccione com desejo a lírica moderna
Introduza páginas nas volúpias métricas
Goze como um poeta na metalinguagem

______________
Licurgo Carvalho
Currais Novos RN
Setembro de 2004


Amanhecença

Os primeiros raios castigavam a serra,
espreguiçando-se num céu sertanejo,
indo beijar as brancas nuvenzinhas
que corriam ao seu encontro.
O sol nascia para o dia.

Somente a luz branda e suave da manhã
clareava a terra e mansamente surpreendia
o galo-de-campina indolente que dormia
sob a copa de um juazeiro arredio.
Amanhecia o dia.

Manhã de um parnasiano travesso,
correndo sob a relva ainda úmida,
colhendo as lágrimas da noite
que tremiam como brilhantes
nas folhas das juremas.
Era um novo dia.

O sítio Quixabeira acordava em festa,
o galo-capão anunciava a labuta,
os brutos roçavam na beira do açude,
as lavadeiras iam para encantar o rio
e o menino traz água no lombo p’ru pote.
O Seridó vivia outro dia.

______________
Licurgo Carvalho
Currais Novos RN,
novembro de 2004.

20 de janeiro de 2006

Do teatro de bonecos ao mundo da arte fantástica de Fábio Eduardo

O artista contempla sua obra, retratando o descanso do vaqueiro no aconchego do seu lar, despontando uma moda de viola com seu currupião de estimação.


Texto e foto: Alexandro Gurgel – jornalista

Em cenas bucólicas, podemos ver um carro de boi carregado da cana-de-açúcar, um pasto florido da última invernada e um vaqueiro em primeiro plano, mostrando os detalhes do gibão pelas costuras no couro; a indumentária do Boi de Reis em movimento, refletindo nuanças pelos espelhos que explode luz nas tiras de sedas dos galantes; meninos soltando pipa na beira de uma praia distante e o colorido dos papeis de seda, estampado nas pipas; o azul do mar, a vila de pescadores... Todas essas imagens, impregnadas de lirismo, são frutos da arte fantástica que está representada nos quadros do artista plástico natalense Fábio Eduardo.
Quem vê a qualidade das pinturas de Fábio Eduardo, não imagina que o artista começou ainda no jardim de infância do Padre Thiago, no bairro de Igapó, onde despertou sua veia artística quando coloria as capas das provas e trabalhos escolares. Durante as primeiras letras, as professoras perceberam o talento do jovem Fábio e começaram a incentivar o talento com cadernos de desenho, material para colorir e outros mimos.
Hoje, aos 35 anos, Fábio Eduardo lembra como começou sua carreira artística, quando aos nove anos, fazendo o primário, recebeu um convite para participar de um concurso “Mural Cidade da Criança”, em 1979. Na escola estadual Ary Parreiras, no Alecrim, através da disciplina “Educação para o trabalho”, aprendeu a fazer talha em madeira, pintura em vidro, em azulejo, em tecido, entre outras atividades artísticas. Vendo um caminho lucrativo com sua arte, começou a fazer pinturas em camisas e vender na escola. Observando o talento de Fábio, um amigo o chamou para trabalhar numa serigrafia, fazendo arte final para estampas de camisetas com motivos marinhos: praia, sol, surf, garotas, ondas...
Na sua adolescência, entre o intervalo intelectual na escola Augusto Severo, o jovem artista-surfista gostava de deslizar nas ondas da Praia dos Artistas com sua prancha parafinada. Na Rua Campos Sales, descobriu o “Atelier Central” que viria a mudar sua vida. Fábio começou a estudar arte e desenvolver seu talento tendo como primeiros mestres João Natal, Jayr Peny, Alcides Sales, Luís Élson e Jomar Jackson. De acordo com Eduardo, a identidade maior pela pintura foi despertada quando passou a freqüentar o atelier pessoal do artista Jayr Penyr, em Mirassol, onde aprendeu as primeiras pinceladas profissionais.
A partir de 1987, participou de salões de arte e concursos como uma forma de mostrar seu trabalho para a crítica especializada. Montou um atelier no bairro Passo da Pátria, formando um grupo de arte chamado “Passo a passo”, onde também participavam o artista plástico Luiz Anísio, o fotógrafo Adrovando Claro, o artista plástico Jaelson Júlio, o poeta João Andrade e o poeta Alexandre Tavares. Entre outros trabalhos, o grupo fez uma série de exposições coletivas itinerantes, cujo título era “Papel e Tela”, onde havia a junção de artes plásticas e literatura. O grupo chegou a fazer uma exposição no Museu Assis Chateaubriant, em Campina Grande. Em Natal, o Passo a Passo mostrou seus trabalhos na Galeria Criare, Galeria Newton Navarro, Fundação Hélio Galvão, entre outros locais.
No inicio dos anos 90, na procura de novas perspectivas, Fábio Eduardo encontrou acolhimento para sua carreira “solo” na “Oficina Viva”, do designer e artista plástico Venâncio Pinheiro, onde teve incentivo para fazer sua primeira exposição individual intitulada “Corpo e Movimento”, na galeria de arte da Biblioteca Câmara Cascudo. Apresentando as obras de Fábio Eduardo entre as pessoas de sua influência, Venâncio Pinheiro abriu portas para o mercado das belas artes natalenses, através de Chico Miséria, na Gleria Hombre.
Naquela época, Fábio conheceu o marchand Isaac, na “Taba Galeria de Arte”, passando a vender obras na própria galeria e participar de exposições promovidas pelo marchand. Seu trabalho despertou também a atenção de outros conhecidos empresários especializados em obras de artes. Entre eles, Antônio Marques, que dispõe de uma ampla galeria no Centro de Turismo, onde coleciona um acervo contendo os principais artistas plásticos potiguares.

Arte Fantástica

Em 2003, Fábio Eduardo fez sua segunda exposição individual chamada “Aquarelas”, na Sparta Book & Store, produzida por Dorian Lima. Durante essa fase de maturidade artística, Fábio encantou o modernista, poeta, escritor e pintor, Dorian Gray Caldas, um dos papas do cenário literário e artístico norte-riograndense, que escreveu: “Uma arte tonal desenhada, plana, de belas figuras idealizadas sem o estorvo das pompas artísticas ou o excesso de conteúdo histórico. Fábio pinta quadros para serem vistos, contemplados na intenção descritiva”.
Atualmente, no trabalho de Fábio Eduardo há traços cubistas e futuristas, com uma temática figurativa, sobretudo regional, baseada no folclore e na literatura de escritores como José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos e Ariano Suassuna. Suas telas exploram o universo dos teatros de bonecos, dando aos personagens uma estampa cibernética num misto de homens e andróides.
Nos quadros de Fábio Eduardo, as personagens tradicionais são compostas dentro da visão de um futuro lúdico, trazendo influências da Escola Fantástica em telas a óleo ou aquarelas. Usando uma linguagem figurativa, o artista busca humanizar a fantasia, de uma maneira simples e ao mesmo tempo sofisticada, capaz de evocar a fusão da arte contemporânea com lampejos estéticos de vanguarda.
Hoje em dia, sua obra já está espalhada pelas galerias de artes brasileiras e européias. Em Natal, Fábio Eduardo trabalha no projeto “Danças Folclóricas”, com uma série de 15 painéis em óleo sobre tela, esperando ser aprovado pelas Leis de Cultura. Recentemente, um dos maiores artistas da taba dos Igapós recebeu um convite, através de uma curadora gaúcha, para fazer uma exposição da sua obra em São Paulo. Conforme Fábio Eduardo, ainda não há data marcada, mas os entendimentos já estão sendo feitos.
O homem do campo no seu dia a dia, as brincadeiras de crianças, as danças folclóricas, as festas populares, os santos padroeiros, os heróis, os bandidos, os cangaceiros e toda a fauna do repertório popular nordestino estão presentes no imaginário de Fábio Eduardo, um natalense que desperta reconhecimento no cenário das artes pela identidade universalista impressa nos seus quadros. Apreciando a arte de Fábio, temos a certeza que estamos diante de um artista fantástico.

19 de janeiro de 2006

NOTAS - Voz do Grande Ponto

CONCURSOS LITERÁRIOS TÊM INSCRIÇÕES PRORROGADAS
O prazo de inscrições para os concursos literários Othoniel Menezes (poesia) e Câmara Cascudo (prosa) foi prorrogado para o dia 27 de janeiro. As inscrições podem ser feitas na Biblioteca Municipal Esmeraldo Siqueira, localizada na sede da Fundação Cultural Capitania das Artes. Os concursos, que são promovidos pela Prefeitura do Natal, por meio da Fundação Capitania das Artes, têm como objetivo de estimular a produção literária e o surgimento e o desenvolvimento de novos escritores potiguares. Os trabalhos concorrentes devem ser inéditos e ter, no mínimo, 40 (quarenta) páginas. Podem participar do concurso os escritores potiguares ou os que comprovadamente se dediquem a atividades literárias no Rio Grande do Norte, estando impedidos aqueles que nos dois últimos anos tenham sido premiados nesses concursos. Ao vencedor de cada concurso, será conferido um prêmio no valor de R$ 3.000,00 (três mil reais). O prêmio será entregue em ato solene na Fundação Cultural Capitania das Artes, no dia 14 de março, data em que se comemora o Dia Nacional da Poesia. As inscrições podem ser feitas entre 9h e 13h. O regulamento dos concursos está disponível na Biblioteca Esmeraldo Siqueira.

BORBOLETA TEIMOSA
Conselho do prefeito Carlos Eduardo: “Micarla deveria repetir para o espelho, diariamente, ao acordar: eu sou vice, sou vice, sou vice”. O jornalista da TV Tropical, Jânio Vidal, observando o conselho do prefeito natalense, disse que Micarla de Souza está muito parecida com o boneco chamado João Teimoso, que insiste em ficar de pé, mesmo levando porradas do prefeito. “O símbolo da vice-prefeita devia mudar de borboleta para João Teimoso”, alfinetou o jornalista.

SINUCA DE BICO
Há rumores que a secretária municipal de saúde de Natal, Aparecida França, está mais forte do que nunca, apesar da crise que se estendeu na saúde natalense. No aconchego do seu lar, o prefeito Carlos Eduardo teve uma conversa, politicamente íntima, com a primeira dama e presidente, Andréa Ramalho, tentando explicar para a esposa que a situação de Aparecida estava insustentável e teria que exonerá-la. Atentamente, a primeira dama, madrinha política da secretária, ouviu os argumentos do esposo e disse: “Se você exonerar Aparecida, eu entrego minha carta de demissão”. Conforme um jornalista encarnado, acostumado aos corredores palacianos, o prefeito ficou numa verdadeira sinuca de bico.

CINEMAS NO MIDWAY
A maior operadora de cinema no Brasil, a rede Cinemax, promete inaugurar sete salas de cinema no Midway, logo após o carnaval. Ocupando uma área de 3500 metros, as salas terão formato stadium (arquibancadas) com 1900 lugares.

10 PROBLEMAS DO VERÃO EM NATAL
1) Um final de ano com afogamento de turistas alemães. 2) Boicote dos bugueiros às dunas de Genipabu destrói o destino e o passeio com emoção. 3) A falta de sinalização e informação desorienta o turista, principalmente o estrangeiro. 4) A reestruturação da Via Costeira, com a ampliação das pistas, ficou só na promessa. 5) Descaso com a orla de Ponta Negra, onde há uma proliferação do tráfico de drogas e prostituição. 6) Uma chegada desagradável espera o turista rodoviário. 7) As línguas negras de esgotos estão espalhadas nas praias urbanas e no litoral de Pirangy. 8) Entre cargas de melões e camarões, os turistas são espremidos nas estradas do Estado. 9) Preços exorbitantes cobrados por restaurantes, bares e demais serviços ao turista. Mas, quem paga caro mesmo é o cidadão natalense. 10) O natal precisa ser mais Natal em Natal.

17 de janeiro de 2006

O Encanto da Casa Câmara Cascudo

Casa Cãmara Cascudo está aberta para visitação.


Texto e foto: Alexandro Gurgel

Quem sobe a ladeira da Ribeira, em direção à Cidade Alta, se depara com um belo casario erguido nos idos de 1900, imponente e bem conservado, construído em forma de chalé, onde morava o escritor e historiador Câmara Cascudo. Por muito tempo o “Solar dos Cascudos” ficou fechado, escondendo relíquias culturais sobre a vida do escritor. Já há algum tempo, a neta do mestre, Daliana Cascudo, vem abrindo as portas do ninho cascudiano para visitação pública, sem cobrança de taxa para o visitante.
É uma oportunidade ímpar para aqueles que querem desvendar os mistérios do lugar onde o gênio morou e escreveu a maioria dos seus livros. Envolvidos pela atmosfera do ambiente, o casario nos faz voltar ao tempo em que o Mestre produzia sua obra entre aquelas paredes, enquanto Daliana nos mostra em detalhes a Casa Câmara Cascudo.
Na entrada da Casa, uma placa em bronze avisa: “Aqui, Luis da Câmara Cascudo serviu ao Rio Grande do Norte pelo trabalho intelectual mais nobre e mais constante que o Estado já conheceu”, uma homenagem do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, ressaltando a importância de Câmara Cascudo.
A biblioteca foi o cômodo da casa onde o historiador passou a maior parte do seu tempo. Nas paredes, recados escritos por intelectuais nacionalmente conhecidos e pessoas famosas que o visitava em casa, deixando uma mensagem assinada, como: Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Assis Chateaubriant, Juscelino Kubitschek, Carlos Drummond de Andrade, Dorival Caymmi, Djalma Maranhão, Sylvio Pedrosa e muitos outros. Foi naquela parede que Ary Barroso escreveu um compasso de Aquarela do Brasil, seguido de uma dedicatória: “Ao gênio e amigo”.
Dentro da biblioteca encontram-se, além de móveis coloniais, coleções de arte indígena, arte popular, arte estrangeira, etnografia africana e uma coleção de arte sacra. Santos de tamanho natural continuam sobre a escrivaninha que o mestre usava, inclusive, um São Sebastião de barro, com flechas encravadas ao corpo e amarrado ao pé um xique-xique caatingueiro.
De acordo com Daliana, quando Câmara Cascudo estava produzindo em sua biblioteca, Dona Dáhlia evitava que qualquer problema corriqueiro chegasse perto daquele lugar encantado. “Todo esse cuidado era para que vovô pudesse escrever em paz,” lembra Daliana. Objetos pessoais e todo o acervo livresco de Câmara Cascudo podem ser apreciados no Memorial Câmara Cascudo, ao lado da Matriz Santa Terezinha, na Cidade Alta.
A cama e a rede, onde cascudo repousava, ainda estão no mesmo lugar. Retratos de família na parede, uma bacia d’água de ágata na cabeceira da cama, um armário e uma cômoda, completam a singeleza do quarto do casal Cascudo.
Conforme Daliana, a cozinha era o lugar que Câmara Cascudo mais gostava. “Era aqui que ele recebia os amigos”, disse Daliana, lembrando que qualquer pessoa que se aproximasse da janela lateral, Cascudo se levantava da mesa onde almoçava, para atender as pessoas. “Ele atendia de pescador, mendigo à deputado ou governador”, ressaltou Daliana.
A parede da cozinha é forrada de quadros, uma galeria de artes raras – parte de um acervo riquíssimo. No canto, uma petisqueira guarda dezenas de medalhas, comendas, títulos, placas, honrarias conquistadas no Brasil e no mundo, em reconhecimento ao seu trabalho intelectual. A cadeira de balanço, que Cascudo usava para fazer a cesta e fumar um charuto, é um convite para sentar e se emocionar.
“O Estado e o próprio país possuem uma imensa dívida com esse homem que dedicou sua vida a engrandecer e valorizar esta terra. Tudo que se faça para saldar esta dívida ainda é pouco se comparado com o legado deixado por ele, que se auto-intitulava ‘um provinciano incurável’ e cujo maior orgulho era a cidade de onde nunca arredou o pé”, desabafa Daliana, em um texto informativo, distribuído às pessoas que visitam a Casa.
Ao descer as escadarias, o visitante tem a ligeira sensação que deixou de observar algo que se perdeu no tempo. Mas, leva fragmentos da vida do Mestre, estampada em cada canto da Casa Câmara Cascudo, cujas paredes estão impregnadas de histórias cascudianas, memórias de uma vida dedicada ao conhecimento e a cultura do nosso Estado.

Casa Câmara Cascudo
Avenida Câmara Cascudo, 377, Ribeira.
Telefone: 0xx84 3222-3293

As horas mortas do Grande Ponto

Por Alexandro Gurgel

Foi pelas mãos do meu avô Arnaldo, homem forte de pele avermelhada, sertanejo de Caraúbas do Apodi, que conheci a rua Laranjeiras, na Cidade Alta, e que tanto me encantou no início dos anos setenta. Vivi boa parte da minha vida naquela casa de número quatorze, ouvindo o galo cantar no alto da torre da igreja Santo Antônio, anunciando as horas do Grande Ponto.
Sempre pensei que o Grande Ponto era toda a área da Cidade Alta. Mas, muita gente tem certeza em afirmar que o Grande Ponto é o trecho que implica o cruzamento da Rua João Pessoa com a Rua Princesa Isabel, estendendo-se, culturalmente, da calçada do Café São Luiz ao Sebo Vermelho, e ainda com seus tentáculos alcançando o Beco da Lama, reduto etílico do Grande Ponto.
Na verdade, não há maneira de medir onde começa e onde termina o Grande Ponto. A Cidade Alta é o próprio Grande Ponto, onde artista popular pode fazer sua performance e é lá, que os poetas devem declamar seus versos. É o espaço perfeito para cantigas de cordel, onde os repentistas se enfrentam em desafios de viola e a multidão forma uma grande roda, todos ansiosos pela peleja da música sertaneja.
A avenida Rio Branco é via preferida por todo aquele que quer exprimir seu descontentamento com o governo. Seja estudante ou grevista, ele faz seu protesto em pleno Grande Ponto e a repercussão é sentida por toda a cidade. O calçadão da Rua João Pessoa sempre foi uma arena ao ar livre, um termômetro vivo, medindo todo tipo de manifestações que há no centro.
Quando eu freqüentava o catecismo na Igreja Matriz de Santa Terezinha, o point era o Grande Ponto. Quando não havia shoppings e o Alecrim – muito além da feira aos sábados – era um comércio alternativo, a Cidade Alta se convertia em uma espécie de “estacional jovem”.
Nas tardes de domingo, as meninas usavam roupas do tipo “cocotas” e os rapazes vestiam calças “boca-de-sino”. Toda aquela juventude era embalada pela banda Impacto Cinco nos salões da ASSEN, dançando de rosto colado ao som de Love Hurts. John Travolta e Olívia Newton John, nos tempos da brilhantina, encantavam a galera nas telas do Cine Rio Grande.
As noites natalinas, na Avenida Rio Branco, eram cheias de glamour, a paquera rolava solta. A loja Quatro Quatrocentos era a grande atração, com sua escada rolante – a única na cidade – entupida de gente para as compras de final de ano.
Os encontros mais descabidos sempre foram marcados nas cercanias do Grande Ponto. A calçada atrás da Lobrás (antiga Lojas Brasileiras), na Rua Princesa Isabel, era o “pedaço” mais festejado. De lá, ao entardecer, as pessoas buscavam o pôr-do-sol na Pedra do Rosário, para contemplar a beleza daquele momento, vendo o sol cair mansamente, escondendo-se nas dunas da Redinha, do outro lado do rio Potengi. O vinho Jurubeba, de mão em mão, era bebido na boca da garrafa, embriagando aquelas testemunhas do crepúsculo aos pés da Santa.
Ao lado da Pedra do Rosário, no Largo da Misericórdia, as quadrilhas improvisadas de São João sempre foram tradicionais na Cidade Alta. Atraíam toda a vizinhança dos outros bairros – reunia mais gente do que na procissão de Nossa Senhora da Apresentação, em novembro.
Das Rocas até as Quintas, todos esperava o ano inteiro por duas semanas de festejos juninos, uma espécie de confraternização entre xarias e canguleiros. A festança seguia dia e noite com muita pamonha, canjica, milho assado e forró de pé-de-serra.
Hoje em dia, com o crescimento natural da cidade, os valores se transformam, nascem, em cada esquina, outros pontos de agitação juvenil. A Cidade Alta continua se adaptando a uma nova realidade, vivida por comerciantes e moradores que permitem a transição constante do Grande Ponto. Já não há mais as festas juninas no Largo. Os namorados preferem as praias e lugares mais longínquos. A moçada jovem, do novo milênio, quer sair pulando atrás do trio elétrico no Carnatal, esquecendo os blocos carnavalescos e tribos de índios que desfilavam na Avenida Deodoro da Fonseca. O centro resiste, camelôs e lojistas dividem glórias e amarguras na disputa pelo freguês habitual. O badalar do sino da Igreja do Galo continua preciso e atento às mudanças da Cidade Alta.
O centro de Natal, apesar dos shoppings centers, ainda é o coração financeiro da cidade. Os grandes bancos, lojas de roupas, magazines, sapatarias e lojas de eletrodomésticos, estão reunidos nas adjacências do Grande Ponto, formando um setor comercial importante para Natal. Durante a noite, quando a cidade adormece, o Grande Ponto abriga todos os problemas de uma cidade em crescimento.
Os “sem-teto”, que, na sua maioria são imigrantes do sertão, procuram as marquises das lojas para se protegerem da chuva e do vento frio que vem do mar. Os notívagos, em busca de aventuras e prazeres desordenados, encontram nas meninas de vida fácil companhia momentânea para preencher a alma. Vigias circulam entre os prédios com seus apitos, guardando as vitrines para mais um sábado. Ao amanhecer, somente os vendedores de cachorro-quente podem lhe salvar da fome e da sede, testemunhando juntos a vida no Grande Ponto, que nunca dorme.
A cultura natalense é mais expressiva no centro da cidade, de onde surge o encontro de intelectuais e artistas, os quais perambulam, entre livrarias e sebos, em busca de inspiração e conhecimento. A calçada do Café São Luiz sempre foi o lugar preferido do meu avô Arnaldo, aonde as principais “resenhas” dos acontecimentos da cidade chegavam primeiro.
Atualmente, o Sebo Vermelho reúne, em dias de sol forte, os homens mais relevantes da nossa cultura. Entre goles de café e a busca pelo bom livro, enquanto discutem idéias, eles escrevem a história viva do Grande Ponto.

16 de janeiro de 2006

Banquetes Literários das Almas do Beco

Becodalamenses em dia de festa no Beco da Lama.

Por Alexandro Gurgel – jornalista

Nas primeiras décadas do século XX, os iniciados modernistas, capitaneados por Oswald de Andrade, tinham um reduto de encontros etílicos e culturais na Rua Líbero Badaró, no centro da capital paulista, o qual os vanguardistas denominavam “A Garçonière”, onde aconteceram os registros das primeiras discussões modernistas que antecederam à Semana de 22.
Nessa confraria, os modernistas escreveram um diário coletivo, culminando no livro “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”, com duzentas páginas, expondo a intimidade daquelas pessoas com cartas, recados, recortes, colagens, cores, tintas, desenhos, poesias, prosa e um pouco do pensamento pré-modernista do grupo, que, mais tarde, explodiriam com a Semana de Arte Moderna.
Este “Diário d’A Garçonière” é um embrião do livro “Miramar e Serafim”, em cujo tema Oswald de Andrade buscou registrar o espírito modernista num mundo em transformação, cabendo esperanças para uma nova forma de fazer poesia. “Muito de arte entrará nestes temperos, arte e paradoxo, que, fraternalmente, se misturam para formar, no ambiente colorido e musical desse retiro, o cardápio perfeito para o banquete da vida”, escreveu Oswald sobre aqueles encontros modernistas.
Resguardando as devidas proporções, o Beco da Lama, no centro da capital potiguar, tem sido a veia nevrálgica da vanguarda cultural do Estado. Para o leitor ter uma idéia da importância da confraria becodalamense, quando em São Paulo os modernistas proclamavam o novo estilo literário vigente com o “Manifesto Antropófago”, o poeta Jorge Fernandes fazia versos modernos como “O banho da Cabocla”, “Tetéu” e outros, no Beco da Lama.
Vale ressaltar que o poeta Jorge Fernandes morava na Rua Vigário Bartolomeu, rua paralela ao Beco, portanto um freqüentador assíduo da boemia natalense. Alguns professores de literatura da UFRN costumam dizer que Jorge Fernandes fez poesia modernista na própria "fase heróica" e, na época que Jorge Fernandes lançou seu “Livro de Poemas”, a idéia de modernismo ainda era muito frágil no Brasil, sobretudo no Rio Grande do Norte.
De acordo com os estudiosos da literatura local, Jorge Fernandes foi recomendado por Manoel Bandeira tardiamente, quando soube da poesia jorgiana, escrevendo em carta a Veríssimo de Melo: “Precisamos urgentemente da poesia do poeta Jorge Fernandes. Urgentemente!” O poeta Jorge Fernandes teve seus textos veiculados nas principais revistas modernistas paulistas, no glamour do modernismo.
Quando Oswald de Andrade se formou em Direito pela Universidade de São Francisco, seu pai, percebendo o talento jornalístico do filho, patrocinou a abertura do periódico “O Pirralho” para que Oswald pudesse escrever e expressar seu pensamento. Na mesma época, em Natal, o pai de Câmara Cascudo recuperou o jornal “A República”, logo depois que o Príncipe do Tirol se formou em Direito, pela Universidade de Recife.
Cascudo era freqüentador costumeiro do Beco da Lama. Era sempre visto entre amigos pelas ruelas adjacentes ao Beco ao cair da tarde, buscando inspiração para mais uma “Acta Diurna” que seria veiculada nas páginas d’A República no dia seguinte. Segundo a historiografia da literatura local, Luís da Câmara Cascudo é considerado "a ponte" entre Jorge Fernandes e Mário de Andrade.
Cascudo foi quem introduziu as idéias sobre modernismo no Estado, afirmando na sua obra que Natal havia nascido no século vinte, tendo "dormido literalmente" nos séculos anteriores. Para o escritor e crítico literário Moacy Cirne – morando no Rio de Janeiro, e um freqüentador esporádico do Beco –, só há dois momentos importantes na Literatura Potiguar: o primeiro com o modernismo de Jorge Fernandes, em 1927 e; o outro, com o advento do “poema processo”, em 1967.
Nas paredes d’A Garçonière oswaldiana haviam quadros de Di Cavalcante, Tarcila do Amaral, Anita Malfatti, entre outros artistas modernistas. Entre os freqüentadores daquela confraria paulista, havia as musas que freqüentavam as tertúlias literárias e uma delas era a normalista Maria de Lourdes Douzani Castro, que os modernistas chamavam de Daisy (ou Miss Ciclone), símbolo da mulher moderna, independente, jovem, bonita e talentosa.
Ao longo do tempo, o Beco da Lama tem sido palco para as mais diferentes beldades que vêm inspirando poetas, prosadores e recheando os textos de alguns contadores de sonhos. Gardênia Lúcia foi, durante muitos carnavais, a sereia dos mares metafóricos dos poetas bequianos.
Nas artes plásticas, a primeira exposição norte-riograndense, assumidamente modernista, foi realizada pelo artista plástico Newton Navarro, em 1948, numa sorveteria no centro da cidade, adjacências do Beco da Lama. Na contemporaneidade becodalamense, quadros de artistas plásticos potiguares do quilate talentoso de Valderedo Nunes, Assis Marinho, Franklin Serrão, Marcelus Bob, Léo Sodré, Gilson Nascimento, Fábio Eduardo, Marcelo Fernandes e outros, retratam, nas paredes do bar de Nazaré, o cotidiano do Grande Ponto, expressando as marcas da vanguarda cultural dos freqüentadores do Beco da Lama.
Enquanto os fragmentos literários produzidos durante o tempo d’A Garçonière pelos modernistas viraram um diário coletivo, anotações poéticas que se transformaram num livro, registrando a inquietação daqueles intelectuais, a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências – Samba – mantém uma lista de discussão na internet aonde recortes e colagens antropofágicas vão registrando a ebulição cultural vivida nesse recanto da Cidade Alta.
O pensamento dos freqüentadores da “Garçonière becodalamense” está estampado nas páginas de um blog na internet, “Alma do Beco”, cujas idéias são as mais profundas tentativas de revisão crítica e de reconstrução da cultura potiguar, que demandou a pesquisa e a abordagem poética de fontes do passado.
O blog Alma do Beco é a junção dos recortes literários, produzidos através dos sonetos de Antoniel Campos, das glosas fesceninas de Laélio Ferreira, dos pés-quebrados de Chagas Lourenço, das imagens translúcidas de Hugo Macedo, Das performances poéticas de Jakson Garrido, dos poemas de Eduardo Alexandre, Luiz Carlos Guimarães, Nei Leandro de Castro, Yasmine Lemos, Barbinha dos Santos, Ferreira Itajubá, Newton Navarro, Cristina Tinoco, Meire Gomes, Élder Heronildes, Lívio Oliveira e tanto outros que passam pelo Beco. Neste mundo virtual, também há espaço para as crônicas, ensaios, pesquisas, história do Estado, fotos de quase todos os confrades e confreiras dessa Garçonière natalense.
Uma das mais interessantes descrições sobre o Beco da Lama é a epígrafe do blog na internet: “Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo”.
O blog Alma do Beco é um elemento difusor de idéias sem fim, onde os confrades ganham voz para registrar os fartos banquetes literários das almas virtuais deste mundo becodalamense. Um instrumento capaz de abrir o verbo e gritar a essência da vanguarda do Beco da Lama: Poti or not Poti, that’s Potengi!

Visite Alma do Beco: http://www.almadobeco2.blogspot.com/