25 de fevereiro de 2006

Cartinha de J. Helmut

Natal, 26-2-2006

Alex,

Este rincão que cruza a Vigário Bartolomeu, chamado Bar de Nazaret, muito conhecido nosso e por você também, data calculadamente em uns 5 anos, congregando gente de várias procedências e de todas as profissões, gente de padrão médio, brancos, tecendo comentários dissipados e de todo teor.
Afinam-se pelo diapasão grosseiro, falando da vida alheia, muitas risadas, embora não briguento, beberrões fumadores mantendo-se às custas dessa falação menosprezante, achincalhante, que não raro desce ao baixo calão, para depois retornar ao ponto de onde partiu, isto é, à amabilidade fingida.
Arrebanham pilhérias que não fazem jus ao centro da cidade natalense, comercial de antiga tradição como é de nosso conhecimento. É época de carnaval e é quando as coisas pioram mais ainda: frevo, dança carnavalesca, gritaria...
Alguns juntam diplomas universitários como de História, Geografia, Matemática e até odontologia, mas esses nada fazem para melhorar o ambiente, compactuando com a bancada turbulenta, quando era de supor que fizessem congressos familiares dentro de suas respectivas cadeiras de professores.
Antigos uns, novatos outros. Os últimos, suponhamos, vêm a fim de tentar o teste que noutros lugares fizeram debalde e já que seria “descobrir um santo para cobrir outro”, dá na mesma. Os presentes, os desfalques que lá aprenderam que os deslustra afastam-se para outros países, a fim de limpar a consciência já poluída. Nunca mais retornam aqui. A turma, entretanto não se desfaz e tudo continua na mesma de sempre, sem descanso.
Os passantes não se demoram nem para olhar, salvo alguns mais curiosos, mas sempre passam de largo. De largo não, pois o ambiente é estreito, como estreito é o ponto que se situa. Felizes infelizes: desquitados, endividados e turrões.
Crianças? Lá alguma vez aparece uma. Também para que? Aprenderem o que veria desviar do bom caminho? Isso não.
Calejado ponto de reunião não há como erradicar esse calo. Ao lado está Ojuara, que chamam presidente dos cornos de Ceará Mirim, que raro aparece. Faz esculturas de ferro.
O cigano vez em quanto dá as caras, mas falam mal do Cigano, não se sabe com que fundamento. Carlança, glutão, sofrível, tocador de violão.
J. Helmut, artista pintor, a fazer versos e vende-los a preços insignificantes; recentemente, publicou um livro com sucesso de mercado.
No mais aqui, a critica desse local natalense que rogo lhe lance na internet e publique no jornal.

J. Helmut

Um poema de Antoniel Campos

PÊLOS

Macia selva que o teu corpo tapeteia.
Fina ramagem onde o toque se aveluda.
Vaivém de vento que penteia e despenteia.
Sensível manta que te cobre e te desnuda.

Pouso de face — a tua face — em minha face,
passando, aos poucos, a carinhos circulares.
Corta o silêncio abafadiço roçar: dá-se
a sinfonia dos murmúrios capilares.

Miro a penugem que recobre a tua orelha,
e os meus ouvidos, feito dedos, passam leves.
Cílio teus cílios, sobrancelho a sobrancelha,
e um humm e um ai e um ai e um humm sussurram breves.

Plumagens raras — tua nuca envolta em rama.
O meu pescoço quer o teu e tu mo encostas.
Tu te declinas à maneira de quem chama.
Nas mãos reversas sei da relva em tuas costas.

O que me é tátil à minha boca ora transfiro,
visto que assim, se sei do toque, sei do gosto.
E mais eu sei se pela boca te respiro,
pois menos sei qual do teu pêlo me é posto.

Pêlos que eu gosto: os que cercam teus mamilos,
onde em percursos labiais circunavego.
Tal o prazer tê-los assim, assim senti-los,
que a minha boca no teu seio às vezes nego.

Pêlos que eu amo: os da barriga, feito seta,
que a boca assanha indo e vindo ao teu umbigo.
Como uma onda, o teu quadril se me projeta,
surfo teu ventre e nos teus pêlos eu prossigo.

Pêlos que eu quero: os teus pêlos inguinais,
onde, bem sei, se me demoro, tu te adias.
Desses eu passo a outros pêlos, capitais,
e em tais arranho a minha barba de dois dias.

Antoniel Campos

22 de fevereiro de 2006

DOIS poemas de Licurgo Carvalho

Mar Potiguar

Mar potiguar,
onde marolas recheadas de poesias
saúdam um dia de sol,
espraiando espumas multicor,
banhando a alma e lambendo a areia.

Mar mamediano,
por onde o poeta navega sôfrego
numa jangada metafórica,
ao sabor do vento costeiro,
fazendo versos na bruma,
recriando canções de amar.

Mar de imigração,
de cantigas de marujos,
onde o braço de um rio ligeiro
busca as águas salobras
para o deleite do encontro enamorado.

Mar singrando entre sombras de coqueirais
e a teimosia das dunas
que insiste em mudar seu curso.
O rio sempre desembocará no mar
como se buscasse sua derradeira morada.

Dunas móveis são filhas do litoral,
trazendo o zumbido constante do vento
que mais parecem um deserto encantado.
A mistura de características comuns
e a vida eclodindo na beira do mar.

Sertão e litoral espalham
belezas rústicas acentuadas.
As falésias gigantes são escaladas
por cactos, xique-xiques e juremas.
É como se o sertão chegasse ao mar.

Flores praieiras, mata costeira
resquícios de uma floresta atlântica
são cenários constantes
nas brincadeiras lúdicas
dos meninos de praia.

Beira de rio ou canto de mangue
são lugares mágicos
para um galego traquino
pegar siri e caranguejo na maré baixa.
Mergulhos alegres de menino.

______________
Licurgo Carvalho
Currais Novos
Outubro de 2004


Versos circunstanciais para Geraldim

No dia onze de abril
Jesus Cristo disse a mim
Que ia tirar eu do inferno
Do canto que tinha espim
Pra eu fazer minha roça
Nas terras de Geraldim

Eu disse nosso senhor
Não quero mais trabalhar
Na nossa terra não chove
E o que se planta não dá
E o mundo está um tormento
O senhor pode acreditar

Ele disse assim:
“Licurgo você cuide em trabalhar
Porque daqui para o dia quinze
A terra vai abrejar
E ainda pode haver fartura
No Riacho do Ingá”

Com o senhor está dizendo
Eu ainda vou continuar
Vou plantar no seco
E esperar a chuva chegar
E vou preparar um verso
Pra acabar de interar

Quando foi no mês de agosto
Eu estava plantando com alegria
Com muito feijão e batata
Também um pouco de melancia
E fiquei acreditando
No que Jesus me dizia

______________
Licurgo Carvalho
Currais Novos RN
Novembro de 2004

13 de fevereiro de 2006

Falsa flatulência

Por Leonardo Sodré

Semana passada o sociólogo e fotógrafo Karl Alho Leite viajou para o sertão seridoense com o objetivo de realizar algumas fotos para a Fundação José Augusto. Depois de visitar várias cidades, terminou chegando em Acari. Mas, tinha que tirar fotos de umas obras do escultor Dimas Ferreira e deslocou-se para as margens do Gargalheiras, onde no caminho encontrou o confrade Hugo Macedo, de férias desde o Natal de 2004, que placidamente caminhava ao longo da estrada fotografando umas formigas, gaviões e cobras. No meio de um sol de rachar, o papo começou:

-E aí mister Karl, que fazes por aqui?

-Vim fazer uns trabalhos para a fundação. E você, continua fiscalizando a natureza?

-Hugo pensava, enquanto respondia: “vige, quer dizer que finalmente ele está dando duro...” Pois é né?... Alguém tem que fazer isso. Vamos almoçar lá em Dudé? Mandei ele fazer uma galinha á cabidela, com muito sangue, daquele jeito que Dunga gosta em dia de aniversário. Vamos?

-Só se for agora! Tomara que ele tenha uma cervejinha gelada...

Instalados na providencial sombra do restaurante, já ouvindo umas serestas matutinas cantadas pelo artista Tatá e defronte a umas cervejas geladas, o papo reiniciou, enquanto degustavam a gordurosa galinha:

-Hugo, – provocou Karl – naquele sábado da sua cagada involuntária, que lamento por ser tratar de uma tragédia pessoal, não pude ir ao Beco da Lama. Mas você terminou se saindo bem, não foi?

Como Karl fala meio alto, alguns presentes começaram a prestar a atenção na história. Hugo olhava para o espelho formado pelo Açude Gargalheiras, triste, quando respondeu:

-Foi constrangedor! O prejuízo material foi apenas da cueca que tive que jogar fora – falava e limpava a gordura da galinha que se acumulava na sua barba – porque ficou imprestável. Tão imprestável que dona Nazaré mandou cimenta-la lá na construção do supermercado. Karl, meu caro, foi foda! Eu pensei que era apenas um peidinho. Arrumei-me na cadeira, e mirei para o lado de Seu Milton, que não escuta muito bem, e pumba! Quando dei por mim, estava como agora, todo cagado! Adeus!

Karl estava com os olhos arregalados e com o nariz vermelho de fedentina. Nem conseguia ver Hugo, que desaparecia no meio da estrada, num rastro de poeira. Alias, dois rastros porque outro ele deixou ao longo do piso do bar, bem marronzinho.

12 de fevereiro de 2006

Dois poemas de Helmut Cãndido

Pegadas

A história se repete
Fazendo seus fatos voltarem
Em cadência constante
Num revolver sem parar
Para depois descansar
Por tempo que vai do breve
Ao longo
Deixando no seu rastro
Pegadas
Inapagáveis
Mas sempre
Prováveis

José Helmut Cândido
Natal RN, fevereiro de 2006


Lavrador

Causa pena a precariedade
Do pobre lavrador
Que de enxada na mão
Não conhece a cidade
Suando como o machado
Seu suor
A pingar
Bátegas quentes
Esperando a chuva chegar
Enfim, vivendo tortuosamente
A semear semente

José Helmut Cândido
Natal RN, fevereiro de 2006

5 de fevereiro de 2006

NOTAS - Voz do Grande Ponto

Leonardo Sodré, candidato a vice-presidência da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba)


Sempre Leozito
Jornalista, cartunista, artista plástico, cronista, contador de histórias, assessor parlamentar e boêmio, Leonardo Sodré (foto) é candidato da chapa Sempre Samba, ao lado direito deste blogueiro, para a próxima gestão da Samba (Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências). Durante os últimos anos, o intrépido Leozito tem dado uma contribuição imensurável ao Beco da Lama com seus textos, matérias e reportagens sobre personagens e fatos deste último reduto boêmio/cultural. Com seus traços inconfundíveis, Léo Sodré desenha caricaturas dos freqüentadores dos bares do Beco da Lama, fazendo arte, eternizando cenas que podem parecer comuns, passando despercebidas por olhos desatentos, mas são registradas nos seus traços mágicos. Preocupada com a valorização do Centro Histórico natalense e a revitalização da Cidade Alta, a chapa Sempre Samba está atenta e pretende conquistar os votos dos becodalamenses que gostam do clima boêmio do lugar. Quem é do Beco, Sempre Samba.

Fraqueirão
Deu na Coluna de Ailton Medeiros, no JH Primeira Edição, que o novo campo do ABC, estádio Maria Lamas Farache, o Frasqueirão, deveria se chamar “Cunhão”, em homenagem ao jogador alecrinense Da Cunha, que fez o gol inaugural.

Livro Escolar
“Não vendemos livro escolar, só livro para quem não estuda” avisa a faixa na frente do Sebo Vermelho, na Avenida Rio Branco, centro de Natal, para as pessoas que procuram, com suas listas em mãos, livros didáticos adotado nas escolas natalense. Enquanto Abimael Silva evitar colocar livro escolar nas suas prateleiras, na galeria Eldorado Center, entre a Rua Vigário Batolomeu e o Beco da Lama, formou-se uma verdadeira feira de sebos com a instalação de dezenas salas para vender livros didáticos usados e semi-novos. Alguns deles proibidos a venda ao público, adotado pelo Governo Federal para programas educacionais e outros que os professores recebem como cortesia das editoras e vendem aos sebos.

Rio Jundiaí Agoniza
A natureza reclama a morte do Rio Jundiaí como se fosse uma crônica anunciada há pelos menos dez anos e ninguém faz nada! O mais impressionante é que os parlamentares “ecológicos”, pertencentes ao Partido Verde (PV), ficam omissos ao problema quando deveriam ser os primeiros a se manifestar. Os carcinocultores do município de Macaíba denunciam os elevados índices de poluição no Rio Jundiaí e o descaso do poder público para o problema. Os índices de nitrato de amônia são insuportávis no local. Os focos polulidores já são conhecidos, mas nada é feito para impedir ou amenisar a agonia do rio. Tubulações de esgotos, originadas do Distrito Industrial de Macaíba despejam incessantemente produtos químicos nocivos aos manguem e a vida ao longo do estuário. Os pescadores reclamam da escassez de peixes e os carcinicultores, que usam a água do rio nos viveiros, reclamam da queda na produção do camarão. A população ribeirinha que precisa da água também está desesperada e clama por ajuda dos órgãos ambientais. Enquanto isso, os “verdes” estão mais preocupados com as próximas eleições e que cargo ocuparão para defender a natureza, principal bandeira do PV.

Dança e Teatro
A Petrobrás, em parceria com a Funarte, irá deswtinar cerca de R$ 13 milhões para projetos de produção e pesquisa em Teatro e Dança. Serão selecionados, ao todo, 350 projetos em diversas regiões do País. No Nordeste, serão escolhidos 36 projetos na área de Teatro e 14 na área de Dança. As inscrições podem ser feitas até o dia 09 de março, no site da Funarte (http://www.funarte.gov.br/)

Compra de votos
Quem andou por Diogo Lopes ou Barreiras, distritos de Macau, antes das últimas eleições no município, notou que milheiros de tijolos se amontoavam no pátio de casa simples, na mais antiga forma de barganha pelos votos dos pescadores. Agora, uma nova denúncia é divulgada pela imprensa natalense. Trata-se de uma nova fórmula para que eleitores comprados provarem o voto na urna. Cada eleitor que vendeu seu voto recebeu um aparelho de celular moderno, com câmera fotográfica, para após confirmar o voto, tirar uma foto da urna comprovando o acordo com o candidato para poder receber a grana.

Ontem eu comi um tal de "Dunga"

Por Leonardo Sodré

Na sexta-feira estive no bar de Nazaré, com direito a esticada ao Bardallos, como de praxe. No sábado, ontem, mesmo sem condições de "jogo", me obriguei a voltar, instado por um mpromisso firmado com Júnior da Gráfica Off-Set e Cefas Carvalho, do Potiguar Notícias. Nenhum dos dois apareceu.
O bar estava lotado. Lotadíssimo. E, com apenas Tázia para atender, estava difícil de beber e quase impossível de comer. Lá dentro, a chapa do professor Bira (adversário) discutia há mais de três horas o nome de sua candidatura. O resultado premia uma grande empresa de telefonia. Nem vou dizer.
Na calçada, sentado numa mesa com Plínio Sanderson e Hugo Macedo (na esperança vã da egada de Júnior e Cefas), resolvíamos os problemas mundiais. E, antes que Hugo oferecesse à atmosfera um sonoro pum e tivesse que jogar sua cueca no lixo do banheiro de Nazaré e tomar um banho vestido com a bermuda, tive fome. Como a cozinha do bar estava muito lenta, optei pela lanchonete de Bruce, na esquina.
Solenemente instalado, vi que o cardápio homenageava as figuras do Beco. Sanduiche de asa de arribaçã, por exemplo, chama-se Marcelus Bob, de peito de perú, Franklin Serrão (talvez em referência as fotos que faz nú da cintura para cima) e de filé de frango em homenagem a Dunga. Optei por esse e terminei o sábado comendo "Dunga".

1 de fevereiro de 2006

DOIS poemas de Licurgo Carvalho

Anjo Drummondiano

(Intertexto poético dos versos “Poemas de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade).

Quando eu nasci, um anjo sertanejo,
desses que não têm nada para fazer,
chegou cansado de mala e cuia,
sussurrando: vai plantar feijão no pó,
lá na beira do rio Seridó.

Vai ser um cangaceiro sem glórias,
embrenhado num munfumbal espinhado
anunciando as horas mortas da tarde,
quando a Ave Maria traz um recado,
sem acalanto n`alma dessa gente.

A seca castiga o sertão sem piedade.
O riacho Sem Nome não corre água,
as cacimbas são buracos de salvação
onde a vida reclama pacientemente
na voz rouca de um Severino qualquer.

Ai meu Deus quanta sofreguidão!
É doloroso ver os bichos morrendo,
o roçado mofando e os barreiros secando.
Sertão devastado, vasto mundo,
mais vasta é a fé desse povo.

Os paus-de-arara passam empilhados,
rostos curiosos contemplam a cidade deserta
como se aquelas casas casadinhas de Tarcila
fosse encantando a calçada colorida
por onde a donzela desfila faceira.

Triste sina desse anjo sertanejo,
vendo os retirantes maltrapilhos
se arrastarem sem pressa, a esmo,
deixando o sertão do nunca mais
em busca de uma utopia vã.

Meu Deus, por que tanto sofrimento?
E esse anjo que não pára de beber cachaça,
declamando versos na igreja de Sant`Ana.
Ó vida besta, ó vida desigual!
Se eu fosse um anjo, dava na mesma.

______________
Licurgo Carvalho
Currais Novos – RN
Dezembro de 2005


Soneto para Maria

Musa galega! Um gesto de dor ou de afeição
Rogo para nunca a feiúra chegue a esse cândido semblante
Diante de Poti, conserva a rudeza pura do sertão
Do Potengi, suplicai a ausência do inferno pálido de Dante.

Em teu olhar não quero a tristeza; não quero
Em tua boca, o suave e idílico veneno da paixão
Contenta-te com o vultoso guerreiro de Homero
Extraindo prazeres de um parnasiano coração.

Deixai-me com memórias do teu corpo, imagem atrativa
O amor, cujo som, de uma harmonia pulsa incessante
Que cante aos ouvidos d’alma, uma poesia limpa e viva.

Versos que acalentem as lembranças no canto do Curió
No leito de Vênus, onde amamos intensamente,
Deixasse impressões nesse epitalâmico chão do Seridó.

______________
Licurgo Carvalho
Currais Novos RN
Agosto de 2005