29 de julho de 2006

20 Anos de Encantamento de Câmara Cascudo

Neste domingo, dia 30 de julho, uma missa na Igreja Bom Jesus das Dores, a partir das 10 horas, marca o vigésimo aniversário de morte de Luís da Câmara Cascudo. A missa será celebrada pelo padre José Mário, com participação especial do Madrigal da UFRN.

Canto a Dom Luis
João da Mata
Canta o homem o povo
O povo canta o homem
Luis da Câmara Cascudo
Colecionador de crepúsculos
De cristas do galo da igreja
Reza em noites-lobisomem
Há um homem no sobrado
Que balança a rede e saia pescar na rua das virgens
Assombrados ficamos nós“vem cá homem”- não vou
Um provinciano incurável
Vinte anos é muito tempo
Tempo de encantamento
E como se avoluma e agiganta
esse homem que foge das linhas
e dos rótulos dos sábios.
Dom Luis do Sobradinho
gesticula
balança
e encanta a cidade Natal
Do canto de muro ensina
Plural e universalmente.
A religião do povo
Chama pela viúva Porcina
Pede socorro à Donzela Teodora
Conta mais uma Bibi
Salve Dom Luis Cascudo
Toujours Louis Toujours


Um adeus ao sobradinho
(Dedicada aos vinte anos do último adeus ao Príncipe do Tirol)

José Correia Torres Neto

A tarde caiu de maneira diferente. Apanhei os livros que estavam sobre a mesa e saí. Andei até a parada de ônibus e percebi que não era apenas a tarde que estava tão diferente. O sol perdia o seu brilho e as caras dentro do ônibus buscavam algo mais além do vidro de suas janelas. O percurso até o colégio foi cansativo, meio indigesto. Sentei-me no meio do ônibus e percebi que também procurava algo além daquelas vidraças.
As ruas meio desertas não eram as ruas que eu estava acostumado a acompanhar com os meus olhos. As casas estavam tristes, quietas e algumas com portas entreabertas. Parecia que os pensamentos não tinham mais direção. Tudo estava diferente.
Fechei os olhos e lamentei as horas que passaria sentado a ouvir os professores e seus discursos. Naquele ano as aulas começavam ao fim da tarde e se estendiam até às vinte e duas horas. Aos solavancos o ônibus cruzava a cidade e também aos solavancos os meus pensamentos diluíam-se um a um.
Após meia hora de percurso desci na frente do colégio. Os seus portões largos pareciam me abraçar, procurando um refúgio por um medo sem motivo. Sua branca cor não mais acreditava que poderia passar uma paz aos que lhe cruzavam. As paredes amarelas da antiga construção pareciam muito mais nostálgicas e escondiam de mim, além do tempo e das horas em um mesmo bisaco, mais algum segredo. Alguns colegas, sentados na escadaria principal, silenciavam cabisbaixos. Seus olhos pareciam que se amedrontavam com a imagem das sepulturas que se abriam sob os seus pés.
Alguns professores conversavam em pequenos grupos de dois ou três. Troquei meia dúzia de palavras com alguns deles. As salas de aula ainda permaneciam fechadas. O sol já não tinha mais forças e o seu brilho perdia-se a cada instante.
As portas e janelas da biblioteca estavam abertas em um esquecimento profundo. Nada de sorrisos e nem olhares. O dia acabara mais cedo. Fiz o caminho inverso. Deixei as pálidas paredes amarelas. Desfiz o abraço do velho portão branco e parei na calçada em frente a alta torre da igreja de São Pedro. Ao pé do muro uma flor branca e miúda, arrebanhada entre cinco ou seis folhas, resistia à fumaça dos carros e ao pisotear distraído daquele que passavam. Era uma Xanana que pendia ao sabor de uma brisa sem rumo.
Voltei pra casa embutindo uma tristeza sem limites. Uma estranha sensação de ter perdido a oportunidade de capitular uma história quase sem fim. Silenciei-me como reverência a uma falta comum.
Entendi as imagens que acompanhei durante todo o caminho. Compartilhei os sentimentos jogados nas calçadas, nas fachadas e em alguns semblantes sem saber o motivo.
No dia seguinte não consegui continuar calado. Busquei-me diante das construções de minhas imagens e segredei os meus sentimentos em apenas uma frase: Morrera Cascudo.

Um comentário:

Daliana Cascudo disse...

Prezados João da Mata e José Correia:

A cidade de Natal ficou sem cor, sem brilho e sem graça depois que Cascudo morreu... Mas precisamos, cantar a "Dom Luís", hoje e sempre, para que ele, assim como a cidade que ele tanto amou, nunca seja esquecido.
Muito obrigada pela linda homenagem.
Um grande abraço
Daliana Cascudo