15 de setembro de 2006

As horas sertanejas

Foto: Hugo Macedo
Por Vicente Serejo
Quando olho esse sol espalhando calor por sobre os morros é como se dele renascessem as horas do sertão. Não essas nossas de hoje, marcadas pelos turnos comuns da manhã, tarde e noite. Nem tão pouco as horas dos expedientes, comuns e sem graça. Falo das horas ancestrais. As horas cósmicas, nascidas no grande sertão do nunca mais que a vida moderna engoliu numa voragem sem fim. As velhíssimas horas sertanejas hoje mortas, guardadas no silêncio rupestre das serras distantes.
Câmara Cascudo fala das horas abertas, das horas de assombração, da vida vivida e dividida entre a noite e o dia. Para ele, o saber do tempo acreditava em horas propícias e maléficas, marcadas pelo bem e o mal, e com os deuses e os demônios do amanhecer e do anoitecer. O sertanejo na sua cosmogonia velha como o medo, acreditava que a morte visitava os viventes nas horas indefinidas, entre a claridade e as trevas. Como se vigiasse as encruzilhadas dos caminhos espreitando os vivos.
Explica Cascudo, no verbete do seu Dicionário do Folclore Brasileiro: 'Meio-dia, meia noite e pelas Trindades, são horas misteriosas para o povo'. E completa, ouvindo o saber popular: 'Horas em que os anjos estão cantando hosanas a Deus, e se uma praga ou esconjuro coincidir com os améns ditos pelos anjos no céu, tudo sucederá como foi dito'. Ensina a tradição que as Trindades do anoitecer, quando os sinos repicam nas torres humildes das igrejas, espalham a grande voz de Deus.
As horas sertanejas eram assim, anotou Cascudo: 'Primeiro cantar do galo: uma hora da manhã; segundo cantar do galo: duas horas da manhã; madrugada alta no frio da noite: três horas da manhã. A madrugadinha vinha com o amiudar do galo, às quatro horas, até o quebrar da barra com a 'manhecença' às cinco horas. O sol de fora vinha à seis, com a claridade do mundo; às sete horas o chão tem uma braça de sol, até o sol alto que segundo Cascudo assim ficava às oito horas da manhã.
O almoço, no sertão antigo, era às 9 horas, mas, se tardava, era servido às dez. O meio-dia tinha dois instantes: perto, às 11 horas; e o pino do meio-dia, às 12, hora aberta no clamor das hosanas. O pender do sol começava às 13h; a tarde cedo era às 15h. Com as primeiras sombras, começava a tardinha, e, às 17h, anunciava-se 'a roda do sol se por' que só acabava às 18h, quando o sol desaparecia. Noitinha às 19h, boca da noite às 20h, a noite escura e grande vinha depois das 21h.
Completa, ainda, Cascudo: a hora das visagens que tinham a função exclusiva de assombrar, sempre depois das 22h. Meia-noite era hora aberta, própria para as assombrações. Das mulas sem cabeça, dos negrinhos infernais, sempre nas encruzilhadas dos caminhos. Como detalha Cascudo, 'silvos e apitos, rumores sem explicação'. Era assim o sertão de ontem, sertão de nunca mais, hoje perdido nas lembranças. O dia e a noite na pastoral das horas antigas e seus rebanhos adormecidos.

Um comentário:

ana paula bilé disse...

Sou fã do Vicente, seassim o posso chamar. vejo sempre sua coluna no Jornal de hoje.