19 de junho de 2010

Morre a romanceira Dona Militana

AG Sued
Dona Militana morre aos 85 anos no Sítio Oiteiro, em São Gonçalo do Amarante.

O último baluarte vivo da cultura potiguar fechou seus olhos na tarde desse sábado, véspera do jogo Brasil x Costa do Marfim, pela Copa do Mundo na África do Sul. Considerada a maior romanceira do Brasil, Dona Militana Salustino do Nascimento faleceu em sua residência, no Sítio Oiteiro, em São Gonçalo do Amarante

Na semana passada, Dona Militana foi internada após passar mal. Teve alta médica, mas desde então ela estava se alimentando através de uma sonda e sem falar. Apesar de debilitada, a morte da romanceira pegou a família de surpresa. A prefeitura municipal decretou luto oficial por três dias.

Atendendo a um pedido da família, o corpo da romanceira vai ser velado em casa, durante a madrugada e parte da manhã desse domingo, e a partir das 9h será transportado para o Teatro Municipal onde acontecerá o velório público. O sepultamento será às 14 horas no Cemitério Público Municipal de São Gonçalo.

Histórico
Ela nasceu Militana Salustino do Nascimento, mas hoje é conhecida como Dona Militana, a maior Romanceira do Brasil. Militana nasceu no sítio Oiteiros, na comunidade de Santo Antônio dos Barreiros, em 19 de março de 1925. O dom do canto ela herdou do pai, Atanásio Salustino do Nascimento, uma figura folclórica de São Gonçalo, mestre dos Fandangos. Dona Militana gravou na memória os cantos executados pelo pai. São romances originários de uma cultura medieval e ibérica, que narram os feitos de bravos guerreiros e contam histórias de reis, princesas, duques e duquesas. Além de romances, Militana canta modinhas, coco, xácaras, moirão, toadas de boi, aboios e fandangos.

Reconhecimento
Ao descobrir a preciosidade dos cantos de Dona Militana, na década de 90, o folclorista Deífilo Gurgel deu uma grande contribuição à cultura brasileira e permitiu que o país inteiro conhecesse o talento da filha da cidade de São Gonçalo do Amarante. A romanceira chegou a gravar um CD triplo intitulado “Cantares”, lançado em São Paulo e Rio de Janeiro. Críticos e jornalistas de grandes jornais brasileiros se renderam aos encantos e a peculiaridade da voz de Dona Militana. Em setembro de 2005 aconteceu o momento mágico quando ela recebeu das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Comenda Máxima da Cultura Popular, em Brasília. Mas o reconhecimento financeiro para esta festejada romanceira só veio em 2009 com o Projeto de Lei Complementar encaminhado pelo prefeito de São Gonçalo, Jaime Calado, e aprovado pela Câmara Municipal do município que concedeu uma pensão vitalícia.

2 comentários:

thyrone disse...

Saramago em Portugal, Dona Militana pelas bandas de cá. Luto em todos os lugares da nossa cultura!

Flávio Matias disse...

D. Militana deixa a cultura popular brasileira em luto, mas também deixa um legado e muita expectativa.
Até onde chegaremos com a desvalorização das nossas fontes culturais e até onde podemos enxergar um futuro consolidado.
Ainda temos um caminho longo e árduo a seguir. Interesses excusos mancham a nossa trajetória e nos obriga a conviver com a falta de incentivos e compromissos com aquilo que há de melhor em nosso meio cultural.