30 de maio de 2006

Homenagens à Elino Julião

Gravura de Franklin Serrão
A sombra do juazeiro murchou com saudade de Elino Julião

Gilmar Leite

A sombra do juazeiro potiguar estar solitária com a partida do saudoso cantador do sertão, Elino Julião. Sua copa, que outrora nos deu sombra através da criação artística musical, numa espécie de conforto espiritual, perdeu as folhas, e o tronco ficou envergado, com os galhos em forma de braços, numa súplica cristã, dando um adeus ao poeta musical que cantou o sertão potiguar com a mesma naturalidade que tem os pequenos córregos que deslizam no coração da mata. Elino que rima com menino, era a pureza humana de um coração infantil no corpo de um adulto. O riso estampado entre as curvas enrugadas do seu rosto, expressava uma felicidade tão eterna, como os eternos beijos das ondas na beira do mar. Acredito que a tristeza e o pranto, que tanto assola os seres humanos, não encontraram moradia na alma do cantador potiguar. Como o próprio juazeiro que oferece sua copa frondosa pra o sertanejo se abrigar, fugindo do sol escaldante do meio dia, Elino oferecia constantemente a sua imensa copa de afetos para quem se aproximava dele.

O seu espírito bondoso se projetava através da criação artística, fazendo com que a sua música expressasse sempre o lado bom da vida. Elino não foi o poeta/cantador da negatividade, da falta de esperança e do descontentamento. Tudo pra ele era feito de alegria e felicidade. Mesmo com a idade avançada, onde o crepúsculo da velhice cria sombras pra existência humana, Elino em cima do palco ou fora dele era uma aurora de vigor, de vitalidade e de desempenho. Quem teve a oportunidade de assistir o cantor do sertão, viu que ele não parava um instante sequer.

O grande legado do poeta/cantador foi o compromisso de cantar a sua terra. Através da simplicidade poética musical, Elino exaltou o sertão potiguar com a mesma verdade que Elomar usa ao cantar as barrancas do Rio do Gavião. Acredito que o Rio Seridó deve está vertendo prantos com saudade do seu filho ilustre. Elino abraçou a sua terra com os olhos da observação contemplativa, e fez do seu lugar um mundo encantado de esperança, fé e fraternidade. Na sua música encontra-se a fé cristã do homem sertanejo; nos seu canto, a paisagem da caatinga é expressa com imagens poéticas líricas da relação homem natureza; dentro do seu canto, o romantismo sertanejo é exaltado com pureza e autenticidade; a poesia da saudade da terra é constante pra quem como ele viveu distante do seu lugar, percorrendo os palcos de várias cidades do Brasil; o sentimento ecológico é a grande marca da sua preocupação com os animais do sertão, principalmente o jumento, um dos grandes símbolos da identidade sertaneja.

Elino foi durante o século passado, um dos pioneiros e desbravadores que levou o estandarte cultural da arte nordestina para o Brasil, junto com Luiz Gonzaga, Zé Marcolino, Zé Dantas, Humberto Teixeira, Jackson do pandeiro, Antônio Barros, Rosil Cavalcante, João do Vale e outros compositores menos conhecidos. O cantador de Timbaúba foi percussionista durante alguns anos do ritmista Jackson do pandeiro e teve várias músicas gravadas na voz de Luiz Gonzaga. Na história da musica produzida no Nordeste, Elino tem a mesma importância que têm todos os compositores acima citados. Ele não fez só discos (mais de 40); ele usou a música pra mostrar pro Brasil a sua terra, e fez da vida e da arte musical o compromisso de ser porta voz de um povo simples, que habita uma região repleta de manifestações humanas, complexa e cheia de adversidades. Por isso Elino foi e é imprescindível como forma de patrimônio cultural. O cantador resistiu as banalidades que o forró e outros estilos passam hoje em dia com a deturpação das chamadas bandas de forró. O poeta de Timbaúba universalizou a sua terra com simplicidade, capacidade e responsabilidade. Por isso é autentico e imortal.

Acredito que nesse instante o sertão chora sua partida. Na prosopopéia da imaginação literária, os galhos do velho juazeiro estão suplicando pra que Deus envie de volta quem o cantou tão bem; as folhas da árvore que sempre estão verdes, murcharam de tristeza por não puder mais oferecer a sua sombra ao vate do Seridó; o jumento baixou a cabeça e não relincha mais ao meio dia, e o seu rabo estar assustado com medo de outros “Nascimentos”, que paradoxalmente ameaçam a vida do animal símbolo do sertão. Todas as coisas humanas ou não, que foram cantadas por Elino choram de saudade, sabendo que o cantador menino viajou pra região celestial, e só voltará em forma de música e poesia, se seu trabalho musical continuar tocando em rádios, televisões e demais espaços destinados à cultura nordestina.

Mas nesse momento, acredito que existe um lugar transbordando de alegria com relação a Elino Julião. Esse lugar é o paraíso celestial da música. Pode ter certeza que debaixo dum Juazeiro, lá no céu, Elino está nesse momento cantando sua musica bela pra Zé Marcolino, Zé Dantas, Luiz Gonzaga, Rosil Cavalcante, João do Vale, Humberto Teixeira, Antonio Barros e outros, numa confraternização universal, oferecida com simplicidade e amor através das coisas belas que alimentam o espírito humano.


TRIBUTO A UM ÍDOLO, AMIGO E PARCEIRO - Cantinho do Zé Povo

Bob Motta

Elino Julião da Silva é o nome do meu saudoso ídolo, amigo e parceiro. Nos conhecemos nos idos de 1968, numa fria noite de um sábado do mês de junho, no auditório da Rádio Borborema de Campina Grande-PB, durante o Programa Forró de Zé Lagoa. O saudoso Rosil Cavalcante era o apresentador e a cidade de Campina Grande, ainda não tinha “o maior São João do Mundo”. A coisa era mais simples, mais poesia, mais amor, mais sertão...Um sertão onde a droga não passava nem perto ( pra se falar em maconha, era por debaixo de “sete capas”...); não tinha discoteca e os forrós eram puxados a fole de oito baixos (Pé de Bode); não existia zabumba, era o melê (uma espécie de tambor feito com uma ancoreta sem tampa e o local onde o melezêro batia, não era de couro, era de borracha de câmara de ar); e complementado com o triângulo e o pandeiro, que só faltava falar na mão de um bom pandeirista.

E ali, no Forró de Zé Lagoa, tinha todos esses apetrechos. Foi nesse ambiente que conheci meu saudoso e querido amigo Elino. Nos sábados à noite, quando eu estava por lá pela fazenda Pocinhos ou Malhada de Roça, meu pai mandava Rivaldo Motorista na velha e saudosa veraneio, que vinha cheia para o Forró de Zé Lagoa. Lá, conheci Elino, Marinês, Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda em início de carreira e muitos outros ícones da música popular nordestina. Depois do forró do auditório, ia-se para o forró propriamente dito, nas Buninas, Quartel do Quarenta, Bodocongó, Santo Antonio, Zé Pinheiro, e principalmente no Canarinho, o famoso primeiro andar da Rua Quebra Quilos, esquina com o Mercado Central. E sempre nesses lugares, além dos freqüentadores e freqüentadoras costumeiras, “abrejava” de cantores da época.

Minha convivência com Elino foi muito curta, mas intensamente vivida. Nossos laços de amizade estreitaram-se, quando o encontrei por acaso, na casa de Nascimento, seu cunhado, casado com sua irmã Mariquinha, lá na Cidade da Esperança. Aí a gente passou a ser ver mais vezes, sempre que tinha um “pé de cachaça” no quintal da casa de Nascimento, lá estávamos, e Elino, quando estava em Natal, dificilmente faltava a esses encontros...Chico Brasileirinho ao violão e Zezinho do Cavaquinho ao dito cujo, acompanhavam tudo que se propunha a cantar nesses agradabilíssimos encontros.

Em 2000, compartilhamos o palco pela primeira vez, na esquina da Miguel Castro com Jaguararí, no Tributo a Luiz Gonzaga, organizado pelos nossos queridos amigos Mano Targino, do então Bar e Restaurante O Beradeiro, e pelo Marcos Lopes, hoje com o Forró da Lua. Depois, participamos juntos, de vários eventos, onde estava havendo qualquer coisa sobre cultura popular, lá estávamos, às vezes sem termos nem combinado, mas estávamos juntos, nessa parceria informal e voluntária, em defesa das nossas raízes culturais.

A última vez que estivemos juntos, foi na entrega do Título de Cidadão Natalense ao Dominguinhos. Na semana passada, pouco antes de “sua passagem”, nos falamos por telefone, combinando sua participação no meu segundo CD; entraríamos em estúdio dentro de uns vinte dias. Ele iria participar cantando uma marcha de minha autoria, intitulada Entre a Praia e o Cariri, onde falo de todos esses lugares que palmilhamos juntos. Mas não deu tempo. Faz mal não, querido Elino; fica para a próxima encarnação!...Deus te tenha!...


Elino, sempre!

Eduardo Alexandre

Levar Elino Julião ao Beco da Lama foi minha maior alegria enquanto diretor executivo da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências. Maior ainda por representar um desafio, aos olhos de muitos, intransponível: levar público ao centro de Natal durante uma passagem de ano.

Para mim, aquele evento seria, se alcançado sucesso, a porta aberta para a realização do I Carnaval do Centro Histórico.

Quando, durante a segunda etapa do Pratodomundo, o Festival Gastronômico do Beco da Lama, o secretário de turismo da cidade, Fernando Bezerril, trouxe-nos a notícia de que podíamos anunciar a realização do ‘Réveillon do Beco’, não tive outra reação: dessa vez trazemos o maior forrozeiro vivo do Nordeste para uma apresentação aqui.

Elino era a única garantia de sucesso, se pensássemos em atrações com artistas norte-riograndenses. Era o nosso maior nome. O que representava o que de melhor tínhamos em nossa música. Não podia ser outro.

Porque Elino era, e continua sendo em sua música, pura alegria. Um menino que trouxe no sangue o vírus da música de sua terra. Uma caixa de fósforos bastava como acompanhamento. Ou só as palmas das mãos. Bate aqui, bate ali, abria a voz e a música fluía fácil de sua alma. E vinha o puladinho que o acompanhava em todas as apresentações. Puladinho que puxava o ritmo, que trazia a coreografia que caracterizava o seu forró mais genuíno de pé-de-serra: sanfona, pandeiro, zabumba e triângulo.

Da combinação destes instrumentos com a voz de Elino, estava servida a melhor receita do som do nordeste. E como Elino contagiava! Como, além de alegre, era bem humorado em sua música! E como cantava com amor a sua terra, seja o Seridó, seja Natal ou o próprio RN, o Nordeste, o Brasil!

Sim, porque Elino representava e representa o que de melhor temos de Brasil e de música brasileira. Até na picardia. Na pulha nordestina.

Os temas de Elino podiam ser o São João ou próprio forró, como o rela-bucho de tanto sucesso interiores afora. Podia ser a cidade e seus logradouros, como no Forró da Coréia.

Quando anunciei a programação que propúnhamos para o Réveillon, chamaram-me de doido: Forró em plena passagem de ano?

Forró, sim. Forró de Elino Julião.

Tomei coragem e telefonei para ele.

Como dizem os daqui: pense numa conversa gostosa! O homem era pura simpatia. Que energia transmitia em cada palavra!

Ah, Elino! Sei ser fácil em palavras e gestos como você, não. Deixo aqui, entre os que ficaram, mais que uma palavra de saudade e homenagem. Deixo uma palavra de agradecimento por você ter-nos feito felizes em tantos momentos, e por toda essa vasta obra que continuará para sempre, com grande alegria, invadindo os sertões nordestinos e brasileiros. Sei que você merecia muito mais do que teve em vida. Mas também sei que você partiu feliz por ter deixado tudo o que deixou. Especialmente o ritmo alegre e o jeito feliz que foi você e todas as suas composições, até nas debochadas, todas, sempre, cheirando a povo.

Povo do Nordeste do Brasil.Obrigado, esse menino de Timbaúba.

Valeu!

Um comentário:

Dalinha Catunda disse...

Alexandro Gurgel.
Encontrei seu blog fazendo uma perquisa sobre a árvore timbaúba.Esteticamente seu blog lembra o meu.Curiosa, Li a postagem sobre Elino Julião. simplesmente maravilhosa!!!!! e mais, é minha praia, moro no Rio de Janeiro, mas adoro o Nordeste e tudo que gira em torno dele.Parabéns pelo blog e pelo seu apreço a cultura nordestina.
Dalinha Catunda
Meu blog:www.cantinhodadalinha.blogspot.com