16 de julho de 2007

Chrystian de Saboya, de Moscow city para o mundo

Foto e texto: Alexandro Gurgel

Não há pesquisas que apontem com exatidão à origem da crônica social em jornais. Porém, segundo uma corrente de historiadores, o colunismo social surgiu no periódico “The New York Sun”, no final do século XIX. No Brasil, foi trazido por Jacinto de Thormes, sob o pseudônimo de Maneco Müller, figurando nas páginas do jornal carioca “Correio da Manhã”, na década de 50.

O colunismo social é um mosaico, estruturado por unidades curtíssimas de informação e opinião, caracterizando-se pela agilidade e pela abrangência. A coluna social cumpre hoje uma função que foi peculiar ao jornalismo impresso antes do aparecimento do rádio e da televisão: o furo.

O estilo jornalístico é a linguagem que transcende do plano intelectivo para conduzir a emoção e a vontade de informar. Na sua coluna diária no Diário de Natal “De Saboya”, ou no site homônimo, Chrystian de Saboya torna indispensável seu estilo alegre e inteligente, recheado de informações emocionais, como se cada palavra saísse direto do coração para encher os olhos do leitor com o que acontece no cotidiano social potiguar. “Nunca usei minha coluna para falar mal de ninguém. Só publico coisas boas”, justifica.

Para escrever o “Talento Potiguar” desse mês, a Papangu foi encontrar o jornalista Chrystian de Saboya em seu apartamento, no 7º andar do edifício Petra, nos morros do Tirol. Esculturas barrocas, quadros de artistas potiguares e outros objetos de arte, faziam o cenário da sala principal onde conversamos por mais de uma hora. Chrystian abriu as portas de sua casa e seu coração para falar sobre sua atuação no colunismo social norte-riograndense, profissão que ele mesmo considera “tudo na vida”, para usar uma de suas expressões eloqüentes.

O mundo da crônica social começou quando Chrystian morava no Rio de Janeiro na adolescência e passava as férias em Mossoró, período em que conheceu Crispiniano Neto e Gustavo Rosado, que convidaram Chrystian para escrever uma coluna num jornal de verão. “Eu pensava em estudar arquitetura, mas me apaixonei pelo jornalismo”, confessa. Chrystian passou a fazer parte de um grupo de jovens literatos cariocas e seus textos eram publicados no jornal “O Globo”, no encarte literário para o público jovem.

Quando voltou a morar em “Moscow” (nome usado constantemente na sua coluna para designar a cidade de Mossoró), Chrystian de Saboya já tinha seu reconhecimento garantido pela coluna que mantinha no jornal “A Gazeta do Oeste”, onde atuava como colaborador. Nessa época, ele foi convidado a trabalhar no centenário periódico “O Mossoroense”, quando se firmou como colunista social, refletindo seus escritos para o Estado inteiro. Algum tempo depois, o jornalista Ozair Vasconcelos o chamou para fazer parte da equipe de o “Diário de Natal”, onde atua há sete anos.

Durante algum tempo, Chrystian apresentou sua coluna num programa da TV Ponta Negra com muita sofisticação e uma produção de alto nível. Mas, ele se manteve durante pouco tempo na mídia televisiva porque sua vida particular estava ficando cada vez mais exposta e o assédio para ter espaço na sua coluna aumentou muito. “Eu adorava fazer o programa, mas eu não tinha sossego e não era feliz”, justifica o fim do programa.

Apreciador de literatura brasileira, Chrystian também escreve crônicas, artigos e poesias. Ainda esse ano, ele promete lançar seu primeiro livro “O amor que você tem pra mim”, ainda em fase de produção. Sua professora de literatura no Colégio de Belas Artes, Nila de Andrada Sanches, no Rio de Janeiro, o influenciou a ler os clássicos da literatura brasileira. “Gosto muito de escrever e quando a gente tem amor pelo que faz vai descobrindo os caminhos a seguir”, diz e afirma que é admirador da obra de Carlos Drummond, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Cora Coralina, Clarisse Lispector, entre os autores.

Perguntado sobre quem o havia influenciado nesse estilo jornalístico, Chrystian confessa que foi a “vida” sua maior fonte de inspiração. “Eu não quero nunca parecer com ninguém”, disse, enfatizando a busca pelo estilo próprio, usando seu olho clínico para as notícias e seu coração para emocionar seus leitores. Para ele, o papel do cronista social é desenhar o cotidiano de uma forma agradável e desconhece a palavra “amargura”. “Há palavras que não uso na coluna porque eu estou sempre muito bem, muito feliz”, completa.

Chrystian revela que não saberia definir seu estilo como colunista social. Mas, numa rápida observação na sua coluna, é possível perceber que ele tem estilo próprio. Ele sabe que o homem moderno tem pressa de informação, quer receber o máximo de informação no menor tempo possível e por isso usa frases curtas de efeito e títulos que chamem à nota. É a corrida da sociedade moderna, na vida das cidades. E um colunista social como Chrystian é a expressão desse novo estilo de vida.

Seu público alvo é o seu próprio coração e salienta: “Eu acho que quando toco meu coração fica mais fácil tocar os corações alheios”. Conforme Chrystian, todo dia ele recebe um e-mail ou telefone de alguém emocionado, agradecido pelo que foi escrito. “Isso é tudo na vida!”, diz sorrindo. O silêncio da noite é o momento guardado para a produção da sua coluna e dos seus escritos. “Esse horário, fico mais sossegado para criar e eu já tenho passado o olho no que está rolando na cidade”, acrescenta.

O momento de criação sempre acontece seguindo um ritual quando Chrystian chega a sua casa: toma um banho demorado, faz uma oração e vai escrever. “Adoro lavar meu corpo e enxaguar minha alma”, diz. Ele também ressalta que nunca sentou diante do computador sem notícias para sua coluna, sempre há mais notícias do que o espaço permite e relata: “Eu gostaria de ter um jornal inteiro para espalhar coisas boas”. Como sua produção extrapola os limites do impresso, Chrystiam matem um site (www.desaboya.com.br) onde publica tudo que escreve. “No jornal, eu sou mais lúdico e brinco com as palavras. Na internet, sou mais rápido e realista”, compara.

No uso das figuras de linguagem, Chrystian disse que não gosta de usar estrangeirismo na sua coluna, mas, às vezes coloca palavras em inglês para ficar mais “chique”, criar um clima de sofisticação. O que ele gosta mesmo é de usar expressões nordestinas como “fulana está aluada”, “deixe de pantim”, “aquele rapaz está com farnizin” ou ainda “eita píula!”, entre outras.

Ele também aprecia o uso de amálgamas quando chama a atenção para uma determinada “delegata” (delegada + gata). Segundo Chystian, os neologismos são poucos, mas há um que ele vem escrevendo: “bacanudo”. É comum perceber também algumas antonomásias como “a prefeita de Moscow”, no lugar de “Fafá Rosado” ou “o Senador Galego”, ao invés de “José Agripino”. Ele também costuma usar hipérbole como “fulana estava elegantérrima” ou “Khrystal fez um show bem óóóóóóótimo, pra cima, alto astral”.

Atualmente, Chrystian tem a seu favor uma equipe muito competente que o ajuda no processo de seleção dos fatos que serão abordados na coluna. Eles se reúnem periodicamente, mas a maior parte da produção para o jornal e para o site é feita através de conferencias pela internet. Hoje, ele tem dois fotógrafos e uma pessoa que comanda toda a área técnica do site. O que demorava seis horas para ser feito, o colunista diz que ele e sua equipe faz em uma hora e declara que detesta “releases”. “Hoje em dia, eu recebo mais de 300 releases por dia de tudo que se pode imaginar. Eu leio todos, retiro as principais informações e publico o essencial”, disse.
Ser cronista social não é uma tarefa fácil, nem também só prazerosa como pode parecer. É trabalho árduo, que exige abnegação e um exercício diário de paciência e jogo de cintura para administrar vaidades e correr atrás de informações que interessem ao leitor. Chrystian de Sabóia é um jornalista atento às necessidades de seu público, consciente e orgulhoso de seu papel de repórter social, escrevendo com o coração as notícias do dia-a-dia na sociedade potiguar.

Dez dedos de prosa e poesia com Chrystian de Saboya

Por Lívio Oliveira

1. O que é essencial à vida?
Keity. Sem ela perco o prumo, o rumo, a noção. Sei viver sem meu amor não...

2. Quem é, verdadeiramente, amigo?
Quem “odeia” coluna social!

3. O que dói? O que faz passar a dor?
A injustiça social, os maus tratos aos animais. Deus.

4. Natal é uma cidade cosmopolita?
Natal é uma cidade iluminada. Por dentro e por fora.

5. O que se respira em Natal?
Todos os mares. Braçadas, sol a pino, calçadão. Um mar azul, descalço, no máximo um sungão.

6. Os sonhos envelhecem?
Não. As pessoas envelhecem. E morrem, o que é pior.

7. Colunismo social é um colunismo essencial?
Essencial é ser feliz, verdadeiro, solidário.

8. Quem é invasivo?
Quem se vende. Pelo que seja. Quem é corrupto.

9. Qual é a alma da noite?
Meus amigos, Cazuza no som, uma taça de champanhe com suco de laranja.
Ou um bom livro, Debusy, meu preferido, minhas cachorrinhas ao redor.
Minha cama, cheia de amor.

10. Qual é o espírito do dia?
Incansável. Meus escritos, minha academia, o sol por testemunha.

3 comentários:

Haendel Dantas disse...

Opa Alexandro excelente blog!

Haendel Dantas
http://comunicadoresdeplantao.blogspot.com/

Espartilho de Eme disse...

Alex,
Gostei da entrevista! Aliás, você recebeu o livro O Despertar da Crisálida? O que achou do conto Os Lenços? Visita o espartilho, tá? Um grande abraço dos Currais. Maria José

Anônimo disse...

Com exceção a entrevista a esse cara(?) super artificial e falso, o seu blog é formidável. Um grande abraço.