19 de agosto de 2007

Fotografia e Poesia


E agora, Drummond?!
Marcos Ferreira
Escritor

Não foi ele o poeta
de um mundo caduco
nem escreveu cartas de suicídio
aos corações inflados.
Não atirou sobre
a língua fácil do povo
as muletas do ócio acadêmico.
Deixou sua pacata província
para ser gauche no mundo,
para tornar-se paixão nacional
de tantos seios e pátrias.

Trilhou sua estrada de luz
e de sombra de mãos dadas
com toda a gente.
Em instante algum remeteu
contra nós (ou contra seus piores críticos)
as pedradas que recebeu
no meio do caminho.
Foi pedra e água na consubstanciação
de si mesmo, tijolo e argamassa
na obra de nosso pensamento e sentir.
Um deus mineiro com seu
terno de vidro e um cristão
sozinho no escuro,
qual bicho-do-mato.

Foi também o poeta das
entrelinhas e das verdades mais
inevitáveis e cruas.
Cantou a virgem triste
na gaiola do caritó e o amor natural
dos homens e mulheres,
o pejo e a luxúria de nossas carnes.
Porque ninguém soube
interpretar melhor que ele
o vazio da existência,
o sentimento do mundo.

Com sua lavra de ouro,
sua doce palavra e seu instante de febre,
ele tratou de nossa pequenez moral,
de nossa inferioridade poética.
Abriu-nos sua biblioteca interior,
seu bazar de memórias e ensinamentos.

Porém de repente,
não mais do que de repente
(para citarmos um outro seu irmão celeste),
ele nos deixou, fugiu a galope
em seu cavalo preto.
Mas ficou-nos esta saudade,
este vazio sem porta nem chave,
sem parede nua pra se encostar,
sem valsa vienense ou marcha itabirana.
Porque ele não morre nunca.
- Você é duro, Drummond!

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