17 de setembro de 2007

O envelope amarelo


ARTIGO

por Cefas Carvalho

Estava em casa assistindo televisão e bebendo café com leite quando ouviu o som da campainha. Pensou que era um dos filhos, sempre esquecem a chave!, ou o vizinho querendo emprestado alguma ferramenta, sempre o fazia! Pelo olho mágico não viu ninguém, e intrigado, abriu a porta. Percebeu em cima do tapete da entrada um envelope grande, amarelo. Pegou-o e entrou em casa. Que diabos será isso?, pensou, imaginando uma cobrança ou um engano. Nada estava escrito no envelope. E estava aberto. Com a mão, retirou de dentro uma série de folhas de papel grampeadas. Sentou-se para ler. Logo na primeira página, ficou intrigado. Viu o nome de Marcos Alexandre, seu amigo de infância, e em seguida, uma série de informações sobre ele: nome completo, identidade, CPF, data de nascimento, signo, ascendente, onde morava, nome dos filhos etc.

Na página seguinte, outra surpresa, esta maior: uma série de informações sobre a vida de seu amigo. Leu um pequeno trecho: “Apesar de casado com Iracema, Marcos mantém um relacionamento extraconjugal com Celeste, professora da rede pública de ensino e que mora no bairro das Quintas, há pelo menos cinco anos. Seus amigos sabem disso. Seus filhos também”. Ficou preocupado com o que leu. Seria uma brincadeira de mau gosto? Passou a página. Lá estava o nome de Carlos Buarque, companheiro de trabalho e de peladas no fim se semana. Na primeira página, a mesma coisa: informações básicas, número do RG, endereço, e-mail, número de contas de banco. Na página seguinte, informações mais bizarras: “Carlos, embora um pai de família considerado exemplar, assediou sexualmente a sobrinha de 15 anos, e há alguns anos, manteve um caso com uma garota de 14”. Respirou fundo. Aquilo estava muito estranho...

Continuou a passar as páginas. Leu então o nome de Raimundo Santarém. Tratava-se de um antigo desafeto com quem chegara a trocar desaforos havia alguns anos. Era um homem ranzinza e meticuloso, que gostava de esfregar sua verdade na cara dos outros. Com atenção, leu as informações básicas do inimigo, na verdade já as conhecia. Passando a página, deparou-se com mais uma surpresa: descobriu que o homem esnobe e orgulhoso de sua retidão, não apenas estava do SPC e Serasa, como ainda devia uma fortuna para bancos. Seu carro do ano, da qual se gabava, não passava de uma compra por leasing e estava prestes a ser tomado por um outro banco. Passava cheques sem fundo. Por três vezes, recorrera a agiotas. Era um fracassado, em termos financeiros.

Mais páginas. Descobriu o nome da secretária do escritório onde trabalhava, Clarissa Maciel, evangélica ferrenha, que tentava convencê-lo a aceitar a palavra de Deus, mas na igreja que ela frequentava, claro. Lendo, descobriu que ela fizera – já convertida - dois abortos de um homem casado com quem mantinha um envolvimento secreto. Também batia na mãe setuagenária, a quem mantinha em uma espécie de cárcere privado. Chegou à página de seu chefe, Patrício Guimarães, homem espirituoso e alegre, orgulhoso da vida que levava. Contudo, segundo o relatório detalhado, tentara o suicídio havia um ano, quando a mulher – que costumeiramente o traía, revelação que o surpreendera – o abandonara e aos filhos para viver com outro homem. Após ela ser rejeitada pelo amante, voltara para Patrício.

Meu Deus, de onde veio isso? - Indagou-se, já com um estranho contentamento. Pensou no que poderia fazer com tantas informações. Tinha consciência que saber das coisas era um trunfo em quaisquer circunstâncias. Percebeu que tinha a vida de muita gente – que gostava ou que odiava – em suas mãos. Não dizem que informação é tudo? - Divertiu-se. Continuou a ler. Descobriu coisas ocultas e estranhas sobre a vida dos vizinhos, da atendente da farmácia, do dono da padaria do bairro. Sentiu-se um deus. Parou de ler, encheu um copo de uísque e acendeu um cigarro. Não cabia em si de tanta euforia. O que posso fazer com tantas informações? - Pensou. Como tirar vantagem deste presente que o destino colocou em minhas mãos?

Alegre, percebeu que faltavam poucas páginas para terminar o relatório. Continuou a ler, esperançoso em saber mais informações sobre desafetos, amigos e conhecidos. Teve uma surpresa ao ler o nome de Eduardo Pinheiro. Era seu filho. Pulou a primeira página, com todas as informações de praxe, todas detalhadas e absolutamente corretas. Na página seguinte, sofreu um baque: descobriu que o filho o odiava, que cheirava pó havia meses, que fora ele – o filho amado – quem furtara produtos em um supermercado na rua vizinha.

Abatido, continuou a leitura. Chegou então ao nome de Laura Pinheiro, sua filha adolescente. Entre mentiras e intrigas, descobrira que ela fazia assaltos regulares à sua carteira. E ele que sempre pensara que as cédulas eram subtraídas pela esposa, para seus badulaques e futilidades. Mas, o pior estava por vir: descobriu, na leitura amarga, que Laura não era sua filha. Era o produto maldito de uma rápida traição da sua esposa.

Sabia o que viria nas últimas páginas do relato, agora macabro. Leu com alguma dor o nome de sua esposa, Lucia Bertioga Pinheiro. Bebeu de um gole o uísque e armou-se para a leitura que viria. Soube então que ela já o traíra algumas vezes, como descobrira amargamente na leitura anterior, que mantivera um caso com um amigo da família e pensava seriamente em abandoná-lo. Que ainda desprezava seu comodismo profissional, comentava com as amigas o esfriamento – quase morte – de sua vida sexual com o marido.

Correu para o banheiro. Ligou o chuveiro e deixou-se ficar na água gelada por imprecisos minutos, talvez horas. Cansado e com frio, desistiu do suplício. Enxugou-se, e ainda trancado no banheiro ouviu o barulho da chave girando na maçaneta da porta e o barulho do sapato da esposa. Pensou em matá-la e depois se matar. Cogitou gritar, quebrar a sala inteira. Primeiro iria olhá-la nos olhos, fingir não saber de nada, pressiona-la contra a parede. Saiu com a decisão de confrontar a mulher falsa com quem vivera ao longo dos anos.

Na sala, encarou-a. Surpreendeu-se com o olhar de fúria impresso em seu rosto.

- Quem é Vanda? – perguntou a esposa.

- Como assim?

- Já sei de tudo.

Tudo o quê?...

- De você e Vanda. Sei que tem uma filha com ela. Cecília, não é mesmo?

Engoliu a seco. Tentou falar, a mulher não deixou.

- E o caso que teve com minha prima Janaína, foi bom? E ter transado com ela na nossa cama no reveillon do ano retrasado, foi bom, seu canalha?

Tentou se defender, mas não encontrava palavras no vazio imenso que se apossara dele. Sabia que era tudo verdade, não teria como contra-argumentar. Percebeu então na mão da mulher uma série de folhas de papel. E debaixo do seu braço esquerdo, um envelope amarelo...

(Inspirado em idéia original de Cláudia Magalhães)

Nenhum comentário: