23 de novembro de 2007

Auto da Liberdade: um picadeiro de alegres fantoches

Foto: AG Sued
O sociólogo baiano Luiz Mott tem uma tese afirmando que todos os grandes homens do planeta são gays: Jesus Cristo, Zumbi, Napoleão, Che Guevara, Mahatma Gandhi, etc. Não escapa ninguém. E claro, Virgulino Lampião não podia faltar na lista. O diretor teatral João Marcelino levou a proposição ao pé da letra e transformou o temido cangaceiro do sertão nordestino em um Lampião alegre, vestindo cor de rosa, com o gibão e o chapéu cheios de lantejoulas, durante a 9ª edição do espetáculo teatral Auto da Liberdade, em Mossoró.

O Auto da Liberdade é uma homenagem aos quatro grandes atos libertários da história de Mossoró: o movimento da abolição dos escravos, o motim das mulheres, a resistência ao bando de lampião e o pioneirismo do voto feminino. Mas, a maior parte da peça é dedicada à bravura dos resistentes mossoroenses quando peitou o bando de Lampião, uma marca registrada do diretor que esteve à frente por vários anos de outro grande auto que acontece na cidade, o “Chuva de Bala no País de Mossoró”.

Em outras edições, o evento já ostentou a participação de 2 mil atores em cena, se orgulhando de ser o maior teatro ao ar livre do mundo. Porém, a versão 2007 do espetáculo contou com o modesto número com pouco mais de 400 artistas encenando uma trajetória de resistência, conquistas e bravura. Esse ano, não somente o número de atores sofreu uma redução significativa. O corte nas verbas para a montagem da encenação foi um grande golpe para o teatrólogo João Marcelino, acostumado a grandes produções, teve que fazer milagres e apresentar um show razoável, mais preocupado com o entretenimento do que com a arte.

O palco foi montado em frente à Estação Eliseu Ventania, que perdeu a própria estação centenária como cenário em detrimento de outro palco para shows populares, causando um prejuízo visual para os espectadores. As grandes estruturas de palco com três níveis, características das montagens anteriores, também desapareceram com a falta de grana, dando lugar a um modesto picadeiro mal iluminado – terrível para os fotógrafos.

Em cena, o lado pitoresco do espetáculo foi caracterizado por um narrador que falava um “inglês de embuste”, que não seria compreendido em nenhum país falante do idioma de Shakespeare, imagine no sertão de Mossoró! O bom entrosamento em outros trabalhos no teatro entre o diretor e os atores mossoroenses criou um canal de entendimento para a boa performance da atriz Tony Silva, representando uma princesa negra pop que falava ioruba, e Lenilda Souza no papel da Rainha Dandara.

No final do espetáculo, tudo se converge num carnaval misturando os quatro atos em cena, onde o ator Boanerges Perdigão, na pele de uma rainha drag queem, comanda a festa, que não faltou leopardos, leões e outros bichos. Nesse circo colorido, o fantoche de um Lampião alegre reinou absoluto ao lado do Padre Motta e do prefeito Rodolfo Fernandes, desfilando no cortejo da liberdade dentro do mesmo carro alegórico. Tudo isso acompanhado pela trilha sonora do maestro Danilo Guanais, que tocava: “it’s raining men, aleluia...”

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