29 de junho de 2008

Entrevista de Xico Sá a Lívio Oliveira

O que o escritor almeja, na verdade? O romancista, o contista, o cronista, o poeta: qual é o móvel do seu desejo?
Rapaz, sou daqueles cabras do interior do Nordeste que sonhavam ser escritores e que acabaram nas redações, não tinha outro jeito para ganhar umas patacas... E assim sobreviveram, compraram casas para as mães, primeira promessa, depois publicaram uns livros... Agora o que vier é lindo, mas que venha de saia ou de vestido.
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Que dificuldades existem para os autores brasileiros publicarem seus livros?
Pelos caminhos convencionais, óbvios e sem graça existem todas as dificuldades possíveis e inimagináveis, mas que tal mandar todo mundo às favas e publicar você mesmo, inventar você mesmo o seu livro, o seu selo, a sua editora, seja somente para download na rede ou para xerox, cordéis e quetais. Por que pagar pau eternamente para as casas gutenberguianas que sugam teu sangue?
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Nesse contexto, as novas linguagens, tais como os blogs, sites e e-books e outras alternativas eletrônicas seriam soluções viáveis a serem consideradas?
Só existe uma linguagem no mundo, que são três: a coragem, a cara de pau e o sangue quente. Ai tanto faz publicar em litogravura, xilo ou e-book.
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O livro, como suporte para a palavra, será ultrapassado um dia?
Jamais, quer dizer, tomara! Mas talvez a poética oral do Nordeste domine o mundo de uma vez e acabe com o resto das coisas modernas do Universo, é o que vejo no momento na minha bola de cristal bêbada.
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No que toca ao gênero Crônica, como encontrar o caminho certo da escrita?
Rapaz, a musa é a encomenda e a prática. E alguma dor de corno também ajuda.
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Nesse contexto, a Crônica já não pode ser definida como um gênero nobre da Literatura?
Sim, é a forma mais nobre de morrer de fome.
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Há necessidade de se fazer, hoje, uma literatura engajada politicamente?
Toda escrita é engajada e política, no bom sentido, no último. Das pedras lascadas do primeiro homem lá em São Raimundo Nonato (Piauí) às pichações e grafites das ruas das cidades. Como a política convencional hoje é escrita por publicitários e ghosts em gerais, mais importantes ainda se tornam os que escrevem, picham ou borram em qualquer margem.
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Vale a pena fazer literatura no Brasil, hoje?
À maneira do século XIX, não. É babaquice! Vale a pena fazer literatura como quem dá escândalo ou faz uma merda grande. A escrita de hoje só vale a pena quase como ressaca moral.
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Quem faz a boa literatura no Brasil, na sua opinião, hoje? Você conhece bem a atual literatura do Nordeste (sua terra de origem)?
Conheço e acompanho, mas a melhor literatura continua sendo a poesia fescenina, os versos de putaria, da fuleiragem anônima.
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Xico, qual a importância do erotismo na sua obra?
Só escrevo pela vontade de comer gente. coisa de quem descobriu o erotismo pelas plantas, cactus, bananeiras e só mui tardiamente arranhou perna de moça.
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E onde fica o humor? Que espaço tem na sua escrita?
Se não for pra brincar, caio fora. E nem é por aquela coisa latina do "rindo corriges os costumes". é pela sacanagem pura mesmo. Tô dentro até os ovos das carijós lá de casa.
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Pode haver casamento entre a literatura e o jornalismo?
Até que os chefes de redações burocráticos nos separem, né mesmo? comecei nessa brincadeira acreditando nisso, mas só agora, depois de véio, posso fazer algo do gênero. Fica o recado para os burocras: deixem os meninos brincarem, mesmo que errem aqui e acolá vai ficar lindo mais adiante!

Um comentário:

Ronne disse...

Adorei essa entrevista.
Deu para sentir que fluiu um papo bem aberto, embora fosse uma conversa sobre algo bastante sério.
a literatura...