18 de setembro de 2008

Uma mulher diferente no Seridó do século XIX

Foto: Dorinha Melo

Romance “Memórias de Bárbara Cabarrús” conta a história de uma mulher que contraria a sociedade patriarcal do Seridó. Obra será lançado pelo selo Coleção Letras Natalenses.

Uma mulher de fibra que vai de encontro às regras da sociedade patriarcal existente no Seridó dos idos do século XIX. É com essa característica marcante que a professora Nivaldete Ferreira, autora do livro “Memórias de Bárbara Cabarrús”, compôs sua heroína principal. A obra é mais uma publicação do Selo Coleção Letras Natalenses, vinculado à Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte). “Memórias de Bárbara Cabarrús” será lançado na próxima quinta-feira (18/09), na Capitania das Artes, a partir das 19h.

Nivaldete Ferreira conta que sua fonte de inspiração para a criação de Bárbara Cabarrús, personagem principal do romance, foi, por mais inusitado que pareça, uma enciclopédia. “Em 1999 fiz uma cirurgia e, no repouso, li tudo o que tinha à mão. Até uma enciclopédia, a internet de antes. De repente, me detive num verbete sobre uma certa Teresa Cabarrús (1773-1835), filha de Francisco Cabarrús, político espanhol, mulher de grande beleza e dissipadora. Casou-se com um certo Tallien, teve amante, depois se tornou esposa de um príncipe”, explica a autora, complementando que “Bárbara Cabarrús agitava a vida social de Paris e tinha um salão onde recebia até o desajeitado Napoleão”. Foi o sobrenome dessa tão peculiar personagem da vida real que serviu à Nivaldete para a fabricação de sua heroína, Bárbara Cabarrús. “Gostei da sonoridade do nome Cabarrús, por isso resolvi criar uma descendente, mas que nada tem a ver com Tereza.”, ressalta.

Nascida no Seridó do século XIX, a personagem Bárbara Cabarrús é filha de coronel com uma mulher extremamente obediente ao marido. Indo na contramão do pensamento da maioria das mentes femininas da época, Bárbara não reproduz os valores patriarcais nem se interessa por aspectos fúteis da vida. “Ela tem relacionamentos com um criado, um primo, e ainda engravida de um cigano”, revela a autora. Nivaldete descreve sua personagem: “Ela sofre a angústia da história, tem um senso de justiça instintivo, é voluntariosa e um tanto libertária. Às vezes irônica, às vezes melancólica”. Apesar do sotaque peculiarmente regional do romance, permeado por fatos e comportamentos culturais típicos do nordeste, Nivaldete faz questão de frisar que não é uma obra regionalista.

Valendo-se de uma passagem do livro, na qual a heroína é acusada injustamente por um crime que não cometeu, a escritora aproveita para tecer críticas sobre a importância que a sociedade dá aos valores inventados por ela própria. “Eu não quis mostrar isso, mas, ao fim de tudo, percebi que vivemos à mercê do imaginário: julgamos, opinamos sobre os outros, culpamos, acreditamos demais nas nossas interpretações, idealizamos as pessoas, cobramos. Isso sem falar nos preconceitos”, julga. Para fugir dessa realidade imposta, a professora afirma que procura ler a tradição oriental, mesmo sem ser budista.

Sobre Nivaldete Ferreira

Nascida em Nova Palmeira, interior da Paraíba, Nivaldete Ferreira se encantou desde cedo pela leitura. Na infância, leu muitas histórias em quadrinhos de Monteiro Lobato, emprestadas de sua avó, que também era uma exímia contadora de histórias. Aos dezessete anos, recolhia folhetos das Edições de Ouro para depois pedir por reembolso postal autores como Nietzsche, Pascal, Descartes e Camões. Como não havia ninguém que indicasse os melhores escritores, Nivaldete escolhia-os com a ajuda da intuição. “Ainda bem, porque leitura deve ser como um namoro. Comigo foi um namoro ‘adivinhatório’ ”, explica.

Em 1972, a convite de sua prima e conterrânea Zila Mamede, Nivaldete Ferreira chega a Natal. Trabalha inicialmente na gráfica da Fundação José Augusto, no Museu do Sobradinho e na Biblioteca Pública Câmara Cascudo. Formou-se em Letras pela UFRN, onde também fez mestrado e doutorado, com estágio na Universidade Aberta de Lisboa. Atualmente, é professora do departamento de Artes da UFRN.

Seu primeiro trabalho como escritora foi em 1979, data em que publicou o livro de poemas “Sertania”. É autora também de “Trapézio e outros Movimentos” (1994), da peça teatral “Entre o Carrossel e a Lei”, publicado em 2007 pela EDUFRN, além de uma porção de livros infanto-juvenis , alguns deles premiados, como “Psilinha Cosme de Caramelo” (1997). “Memórias de Bárbara Cabarrús”, seu primeiro romance, que será publicado dia 18/09 pelo Selo Coleção Letras Natalenses, já foi premiado com uma menção honrosa em 2005, em um concurso oferecido pela Funcarte. Compôs ainda um CD de músicas infantis e afirma já estar trabalhando em um novo romance.

Uma particularidade existente nas obras da autora é a presença das reticências, as quais, segundo ela, ajudam o texto a respirar. “O texto é como um ser vivo. É uma forma também de respeitar a respiração de quem lê. As reticências correspondem ao silêncio no cinema, entre uma fala e outra”, acredita. Outra peculiaridade de Nivaldete é o ritual que ela sempre segue antes de escrever. “Escrevo depois de um bom banho, de preferência usando branco e alfazema. É como se eu me limpasse do mundo real para entrar nesse outro, nas ondas alfa”, conta. Embora diga que não se sente influenciada por nenhum autor em especial, Nivaldete considera essencial ter lido ficcionistas do Rio Grande do Norte como Câmara Cascudo, Newton Navarro, Homero Homem, Nei Leandro de Castro, Tarcísio Gurgel, Carlos de Sousa e Pablo Capistrano.


Serviço:
O quê: Lançamento do livro “Memórias de Bárbara Cabarrús”, de Nivaldete Ferreira
Onde: Capitania das Artes (Av. Câmara Cascudo, 434, Cidade Alta)
Quando: 18 de setembro (quinta-feira), às 19h

Um comentário:

Nivaldete Ferreira disse...

Obrigada pela divulgação, Alexandro. Jornalistas e divulgadores voluntários são os parceiros indispensáveis dos nossos fazeres públicos.Um abraço e parabéns pelo blog.