13 de outubro de 2008

Um poema de Chagas Lourenço

Foto: AG Sued
O Vaqueiro

A noite escura
o cavalo cardão
as costas envergadas
e o velho tubarão.

o sol já estava raiando
o dia ainda não nasceu
Mané Preto tira o leite
do gado que não é seu
bota milho pro cardão
o leite pra Tubarão
o sol já apareceu

toma um café bem ligeiro
lá na beira do fogão
com bule requentando
assentado no tição
ele ajeita a espora
pois já é chegada a hora
de ir pegar o barbatão

despediu-se de Maria
deu um cheiro na danada
olhou com olhos miúdos
oito redes penduradas
"inté" seus papa-farinha
cuida bem da tua mãezinha
que vou sair na empreitada

meteu o pé no caminho
nas veredas e na estrada
com o velho Tubarão
farejando uma caçada
cumprir ordem do patrão
fazer a obrigação
a sorte estava lançada

o sol já estava bem alto
parou para descançar
debaixo de um juazeiro
ficou comendo juá
Tubarão estava deitado
e o cardão bem ao seu lado
fez as orelhas murchar

Mané levantou de um pulo
chegou perto do cardão
que olhava para o mato
com muita inquietação
Tubarão quase dormindo
levantou ficou ouvindo
o mugido do barbatão

era pouco mais de meio dia
o sol começava a descer
o touro andava ligeiro
com vontade de beber
debaixo do juazeiro
onde mané chegou primeiro
fez lista no massapê

era um bicho todo preto
que tinha a cara manchada
subiu para a ribanceira
em tremenda disparada
Mané montou de repente
cortando caminho na vertente
começou sua caçada

o cardão de orelha murcha
entrou no mato fechado
o latido de Tubarão
de longe era escutado
e Mané sem garantia
a cara no mato metia
pois era pau bem mandado

o touro muito ligeiro
com o cardão no mocotó
virava tronco de pereiro
em mofumbo dava nó
Tubarão com a língua de fora
no cardão o sangue da espora
era ensopado de suor

Mané pegou o rabo do touro
que depressa se virou
com os chifres bem afiados
pro vaqueiro ele olhou
Mané pulou do cardão
ajudado por Tubarão
que na venta abocanhou

rolaram por cima das pedras
na beira de uma trincheir
ao cardão já descançando
debaixo de um catingueira
viu o escorrego maldito
de Mané ouviu o grito
despencando na pedreira

fez-se um silêncio profundo
Tubarão dependurado
olhou para a ribanceira
e viu Mané agarrado
com os braços no pescoço
o sangue jorrava grosso
mas o touro tava pegado

Mané soltou-se do touro
e já deixou mascarado
botou-lhe um chocalho bom
e o peou bem peado
com a mão no coração
montou no seu cardão
e tangeu o desgraçado

a casa se aproximava
sentiu logo Tubarão
não latia, só rosnava
o velho amigo, cão
sua alma estava sentida
era um desespero de vida
que tinha no coração

o cardão andava a trotecar
regando seu amigo
ligeiro sem machucar
procurando um abrigo
por dentro também chorava
e o sangue se misturava
no "vazie" e no umbigo

Mané abriu o curral
pra entrar o barbatão
os meninos no terreiro
esperavam o campeão
e o touro amedrontado
já todo amofinado
não era mais valentão

Mané ferido na sela
ainda olhou pra Maria
que com oito filhos em casa
sem nenhuma garantia
pois sua única herança
era a grande esperança
de serem vaqueiros um dia

Maria deu logo um grito
quando viu cair o marido
Tubarão lambeu seu sangue
e deu um longo gemido
a alma de Mané, tão pura
partiu numa noite escura
certa do dever cumprido.

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