10 de fevereiro de 2009

Entrevista com Wescley J. Gama

Wescley J. Gama é seridoense de Currais Novos e faz parte da nova geração de poetas que descende de Luíz Carlos Guimarães e José Bezerra Gomes. Vencedor de dois concursos poéticos nos últimso anos, Wescley Gama integra um grupo poético chamado Grupo Casarão de Poesia, que vem espalhando versos pelas ribeiras do Seridó.
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Entrevista e fotos: Alexandro Gurgel

Como surgiu o gosto pela poesia?
Sempre gostei de ler. Quando criança mergulhava profundamente nas viagens das revistas em quadrinhos e de livros como As mil e uma noites, além de muita literatura de cordel. Essas leituras me arrebatavam para um mundo totalmente diferente, uma experiência verdadeiramente transformadora. Já na adolescência, descobri o trabalho de poetas como Ferreira Gullar, Manoel de Barros e Mário Quintana, que me deram uma visão de mundo mais ampla e lírica.

Qual o sentimento de ser considerado um poeta?
É meio estranho, porque essa condição pode trazer paradoxalmente um misto de veneração e desdém por parte da sociedade. O que sinto, na verdade, é que posso interagir com as pessoas através da poesia e provocar, quem sabe, uma reflexão sobre a natureza das coisas, ou sobre as dificuldades que enfrentamos nesse mundo pós-pós-moderno.

Quais suas influencias literárias e quais os poetas que estão marcando sua carreira? Por que?
Acredito que um bom poeta deve questionar e denunciar quando for preciso, apontar a beleza onde outros veem caos apenas, mas principalmente tem que chegar perto do coração das pessoas, transmitir uma sensação, cativar a atenção, e, quem saber, ajudar a transformar suas vidas, mesmo que seja num pequeno grau. Leio muita coisa que chega às minhas mãos, Drummond, Ferreira Gullar, Neruda, Mário Quintana, Iracema Macedo, Iara Maria Carvalho, Wally Salomão, Chacal, dentre muitos outros. Gosto muito de ler romances e contos de Gabriel Garcia Marques, Machado de Assis, Hermann Hesse, Caio Fernando Abreu, Jorge Luís Borges, Júlio Cortazar, MarcelinoFreire.

De que maneira você recebe os prêmios como vencedor de concursos de poesia?
Não deixa de ser um reconhecimento do trabalho, além de um estímulo à produção de um poeta iniciante. Fiquei muito surpreso e grato com os prêmios e espero lançar o primeiro livro em breve, Poemas encharcados de sertão.

O ato de escrever versos é mais inspiração ou mais trabalho em busca das palavras e rimas?
Quando a inspiração vem, você tem que estar preparado. Tem que ler muita literatura para tentar apreender um pouco do que o mundo oferece através do que é visível, palpável. Assim criamos nossa leitura do mundo e damos nossa contribuição de alguma forma.

Afinal, para que serve a poesia?
Ela não tem necessariamente que servir para alguma coisa. A poesia é. Observemos que ela está presente na história da humanidade desde os primórdios da escrita. Será que uma obra como Os Lusíadas não ajudou, mesmo que de forma ínfima, a consolidar a unidade da língua em Portugal, há centenas de anos? Será que Dom Quixote não fez o mesmo no Reino de Espanha? Acho que a poesia pode tirar você de uma letargia, convocar você a contribuir com um pensamento, uma iluminação, por menor que seja. A poesia me ajuda a viver melhor, me dá um sentido a mais pra viver.

Como você o atual momento da poesia potiguar?
Há uma nova geração de poetas potiguares. Mas só dá pra ter uma idéia melhor de uma geração ou de um movimento quando eles passam ou envelhecem. Então você olha de longe e vê os estragos que ela fez (risos).

A que você atribui esse crescente movimento poético em Currais Novos?
Todos já sabem que Currais Novos já tem uma trajetória nesse campo. Luís Carlos Guimarães e José Bezerra Gomes deixaram uma contribuição significativa para poesia potiguar, este a partir da década de 30 e Luís Carlos a partir da década de 60. O que posso dizer sobre o atual momento poético em Currais Novos é que um grupo de amigos vem se dedicando a utilizar a poesia como instrumento de interação com as pessoas. Um exemplo disso é o Grupo Casarão de Poesia, que teve vários de seus membros e amigos premiados nos concursos Zila Mamede e Luís Carlos Guimarães. E olhe que a lista é grande: Iara Maria Carvalho já foi 2º e 3º Lugar no Concurso Luís Carlos 2006 e 2007 e 1º lugar no Zila Mamede 2007, Luciene Danvie, menção Honrosa no Zila Mamede 2008, Adélia Danielli, 3º lugar no Zila Mamede 2008, Luciana Maria Carvalho, menção honrosa no Luís Carlos 2008, Théo G. Alves, 3º lugar no Luís Carlos 2008. Eu fiquei em 1º Lugar no Concurso Zila Mamede 2008 e Luís Carlos Guimarães 2007.

Quais os poetas potiguares de relevância que merecem destaque?
Da curta história de pouco mais de cem anos da poesia potiguar, acho que devem ser lidos Auta de Souza, Ferreira Itajubá, Othoniel Menezes, Zila Mamede, Jorge Fernandes, Nei Leandro de Castro, Moacy Cirne, Luís Carlos Guimarães, Iracema Macedo, Antônio Francisco, dentre muitos outros com os quais cometo agora o pecado de deixar de fora da lista por falha de memória.

Atualmente a chamada "literatura eletrônica" é uma realidade. Em sua opinião, que importância os blogs e os sites possuem com temas literários ou culturais?
Os sites e blogs têm sido uma ferramenta interessante na difusão de idéias. Vencer as barreiras do tempo e do espaço nos dá uma mobilidade e uma flexibilidade impressionantes para que conheçamos e troquemos figurinhas com pessoas de todas as partes do Brasil e do Mundo. Por falar no assunto, há cinco anos mantenho o blogwww.tabernaculo.blogspot.com

Como você vê o acordo ortográfico?
Alguém já disse que quem a faz a língua é o povo. Principalmente a língua falada. Mas eu vejo com bons olhos esse acordo, porque ainda assim cada país vai manter seu dialeto e suas individualidades, que mudam lentamente e ao sabor de múltiplos fatores.

O livro de poesia é um produto que tem mercado no Rio Grande do Norte?
Livros de poesia são produtos que não teem mercado em nenhum lugar do Brasil (risos). Lembro de ter visto uma entrevista de Drummond na qual ele dizia que poucos livros seus eram vendidos, comparados aos romances de outros autores nacionais. Mas o importante é que haja incentivos e iniciativas, por parte das editoras e do governo, para que os autores não tenham que ficar sempre bancados seus livros com recursos próprios. Para criar um mercado de livros primeiro é preciso criar leitores. É preciso mais incentivo à leitura nas escolas, oficinas de poesia, coisas desse tipo. Mas o mais importante não o mercado em si. É necessário estabelecer contato entre as pessoas e os autores/obras, para que, juntos, todos possam crescer.

Como a Academia Norte-riogranden de Letras poderia contribuir para o fortalecimento da poesia potiguar?
Qualquer instituição ligada diretamente ou indiretamente à educação e cultura pode contribuir realizando oficinas, eventos, feiras, concursos, palestras... são mil possibilidades, só é preciso dar vazão às idéias, através de recursos humanos e materiais.

Se você convidado para a ANL, você aceitaria ser um imortal?
É cedo pra falar nesse assunto, pois sou apenas um iniciante, poeta incipiente que não sabe se vai vingar. Flutua no ar a impressão de que todas as academias, começando pela ABL, são instituições enferrujadas e "enferrujantes", mas tudo depende de quem está lá à frente. Essas academias podem sim ter um papel interessante na formação de uma sociedade que valorize mais a literatura.

O que move um poeta?
Depende do momento. Uma indignação, uma beleza. O desejo de condensar a história do seu povo, a ânsia de pontencializar um ato importante que ninguém viu.

Que instrumentos ou assuntos podem virar objeto de um poema?
O importante é como se faz, como se escreve. Qualquer coisa pode entrar num poema, desde que tenha sua sonoridade, sua harmonia, sua sintonia e, principalmente, contribua inesperadamente para o objetivo a que se está proposto, seja qual for.

O sertão inspira a fazer versos?
Uma resposta em prosa para uma pergunta em versos: "Currais Novos amanheceu sitiada. Estamos sitiados. Uma luz de instabilidade estalou sobre as velhas cerâmicas da praça central, enquanto crianças corriam amanhecidas na neblina incomum que pairava sob a cor mulata das ruas de barro. A cada hora que passava mais crianças apareceram e se pareciam umas com as outras. A cada lampejo de olhar estupefato dos cidadãos da pequena vila perdida entre os gravetos acinzentados da caatinga ensanguentadamente vermelha, a população se renovava. Não havia tempo para sentir a situação como absurda. A prioridade era perder a conta. O essencial era absorver o canto infantil que emanava de uma multidão infante. Era assim. Nós éramos essas crianças. Depois que anoiteceu e voltou a amanhecer, a luz que amarelo queimava os casebres noticiou apenas a paisagem deserta. Das águas agridoces do açude dourado às marcas indeléveis deixadas pelas sentadas de cócoras do nossos índios tapuias, perdemos a noção de tempo e espaço. Desconquistamos a possibilidade de zoar coisas boas pelas veredas quentes que circundam nossa atmosfera sertânica e preenchida de traços culturais que talvez remontem a outras paragens além-açude, além-mar, além-imaginação. Tudo o que nos rodeia, sejam desde xique-xiques, água de pote, pedregulhos, riachos correntosos a amigos de sangue, amanheceres em sítios, sentimentos de sol, alegrias de repartição e partilha, tudo que nos envolve nos pode servir de instrumentos afinados prontos a colorir um sentimento que nos faça sentir enraizadamente homens que em meio a adversidades climáticas e econômicas prodigiosamente armadas por forças contrárias à nossa essência simples e inocentemente experienciante, possam garantir que não se desvanecerá a chama oculta acesa pelos homens e mulheres que primeiro pisaram essa terra inóspita, mas que é onde provisoriamente fizemos rancho e nos fizemos parte dessa paisagem sertaneja tão rica em detalhes e tão profunda na sua história deresistência a toda forma de baque arquitetada contra nós. Nós, sertanejos, certamente devemos continuar a nossa descoberta, pois não sabemos um sexto do que somos, de onde viemos, para onde seguimos. Não sabemos. Mas sentimos o fogo da vontade queimar em grandes labaredas que nos instigam ao movimento. Em direção aos ecos da caatinga. Em direção aos gritos noturnos que provém das mais recônditas estradas de barro e das mais pequenas moradas escondidas nos recantos desta terra seridoense. Em direção a nós mesmos. Vamos à descoberta".

Qual o conselho você daria para um jovem que quer ser poeta?
Leia muitos poetas, romancistas e contistas e as instruções de Maiakóviski. Vá escrevendo e mostrando ao mundo. O resto é seqüência.

2 comentários:

Theo G. Alves disse...

nao tenho nenhuma dúvida em afirmar que wescley é dos melhores poetas na literatura que se faz no RN e também fora dele.

o menino é mesmo muito bom.

Mulher na Janela disse...

Para mim é um grande orgulho acompanhar de perto o (re)nascimento perene da arte poética desse menino que amo e admiro. Os rumos de nossa literatura com certeza se renovaram com a poesia de Wescley.

Um forte abraço!