30 de março de 2007

O Oswaldo que conheci e editei...

ARTIGO

Por Abmael Silva
Sebista e editor

Conheci Oswaldo Lamartine de Faria em 1997, quando Woden Madruga, então presidente da Fundação José Augusto, reeditou Vocabulário do Criatório Norte-rio-grandense. Noite do lançamento no pátio do teatro Alberto Maranhão, foi conhecer meu escritor preferido, levando todos seus livros para pegar a dedicatória. Ele me olhou dos pés a cabeça, perguntando como eu tinha conseguido tudo aquilo. Falei que era sebista. Ele assinou todos os livros, escrevendo meu nome e assinando embaixo. Confesso que fiquei com aquele gosto de quem queria outros escritos.

Alguns anos depois, o amigo Vicente Serejo fez a ponte e eu estava editando Oswaldo Lamartine de Faria, o maior escritor norte-rio-grandense, depois de Luís da Câmara Cascudo. Nos tornamos amigos e parceiros editoriais. Oswaldo sabia tudo quando o assunto era editoração de livros. Oswaldo gostava de se perder nos sebos da vida.

Quando reeditei Estudos Pernambucanos, de Alfredo de Carvalho, em 2003, me parabenizou pela excelente iniciativa, mas que estava com pena de mim, porque aquele seria meu maior prejuízo eleitoral, pois a geração atual não conhecia Alfredo de Carvalho, apesar da importância do autor. Tudo aconteceu como Oswaldo tinha previsto e até hoje tenho pacotes e mais pacotes dos Estudos Pernambucanos. É a vida de editor!

Oswaldo foi um amigo que ganhei com os livros e as tentativas editoriais. Quando estava se preparando para fazer a cirurgia que acabou com sua saúde, em 2003, visitou o Sebo Vermelho, me abraçou, dizendo que tinha chegado sua hora, que ele já tinha vivido demais, que estava ocupando o lugar dos outros...O médico vacilou e nosso Oswaldo nunca mais foi o mesmo. Passou a se alimentar pelo umbigo, via sonda.

Como homem sertanejo, a palavra estava acima de tudo. Certa vez, combinei de aparecer em sua casa no dia seguinte, as onze horas da manhã. No corre-corre da vida, esqueci e só lembrei três dias depois. Quando sua secretária abriu a porta, ele veio em minha direção com o dedo em riste, dizendo: Abimael, você é um editor sem palavra! Como é que você combina um dia e aparece uma semana depois? Olhe, meu pai morreu cego, com mais de oitenta anos, mas morre com palavra.... E foi dizendo tudo que queria. Pedi um aparte: - Seu Oswaldo, o senhor tem que entender que eu vivo do sebo, que não sou funcionário público. Eu não posso fechar o sebo todos os dias. E fique sabendo que o senhor é o único autor que eu edito e que me proíbe de colocar a coleção João Nicodemos de Lima no final de cada livro.

Depois do bate-boca, ele me encarou com aquela cara de passarinho, dizendo: - a única coisa boa da velhice é que a gente pode arengar e não acontece nada!

Nos abraçamos e a amizade só aumentou.

Publicou mais de vinte livros. Todos clássicos. Dentre esses, a raridade Uns Fesceninos, a primeira antologia da poesia fescenina do Rio Grande do Norte, em 1970, pela editora ARTENOVA, no Rio de Janeiro. Edição para bibliófilos, numerados e assinados pelo autor.

O Brasil perdeu um homem ímpar. Nunca mais teremos outros Oswaldo Lamartine de Faria.
Artigo publicado na Tribuna do Norte.

Um comentário:

Moacy disse...

Muito bom o artigo do amigo Abmael. Um abraço.