1 de fevereiro de 2008

O conselheiro

CRÔNICA

Nei Leandro de Castro

Não tenho vocação para conselheiro. E se tivesse gostaria de exercê-la no Tribunal de Contas, ao lado de Valério Mesquita, uma das pessoas mais cordiais e solidárias do Rio Grande do Norte e adjacências. Não sou conselheiro, mas de vez em quando, em cartas ao jovem poeta Marcos Ferreira, com talento reconhecido além dos limites do país de Mossoró, eu o aconselho a aposentar as mágoas, os destemperos, os rancores, as – com licença da palavra – diatribes.

Sei que posso estar malhando em ferro frio, porque o jovem poeta é tão briguento quanto talentoso. De vez em quando, sem adversários por perto, ele troca desaforos e tabefes com a própria sombra, sob os 42 graus à sombra de sua cidade inexpugnável, e aí a briga é de juntar menino.
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Um freqüentador do Beco da Lama, entre uma meladinha e outra, poderia perguntar: “E as suas mágoas, conselheiro?” Sim, reconheço que tenho mágoas. Mas tenho procurado superá-las, reconhecendo que é difícil – por exemplo – perdoar aquele secretário do governo Garibaldi Filho que, durante longos quatro anos, me elegeu para ser Jean Valjean e vestiu a capa do policial Javert. Como o perseguidor implacável só deve ler bulas e colunas sociais, vou deixar o mistério Jean Valjean-Javert para ele decifrar.
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Enquanto o ex-secretário todo-poderoso procura, com ajuda de terceiros, desvendar esse enigma literário, eu devo confessar que tenho feito exercícios diários para perdoá-lo. Dentro dos próximos 26 anos, quem sabe, não é?
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Gostaria também de anular minhas mágoas históricas. Por exemplo: não conheço a Alemanha e não pretendo conhecê-la jamais, mesmo se tivesse como guia, com vestidinho transparente, cheia de amor pra dar, a alemãzinha Bündchen. A mágoa que tenho pela terra que acolheu e levou ao poder o psicopata Adolf Hitler vem do berço.
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Nasci duas semanas antes da invasão da França pelas tropas nazistas. Desde a pré-adolescência tomei conhecimento do genocídio praticado pelos alemães. A grande maioria dos habitantes da Alemanha, durante o terror hitleriano, foi conivente com o assassinato em massa de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, deficientes físicos e mentais.
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Todos os livros que li sobre a Segunda Guerra Mundial alimentaram a minha mágoa histórica. E mais: um certo espírito da Alemanha nazista sobrevive em grupos de canalhas de cabeças raspadas, com suásticas tatuadas pelo corpo, que saem por aí espancando e matando quem, segundo eles, não pertence à raça ariana. A sombra de Hitler, responsável pela morte de seis milhões de judeus, pode ser vista em becos, ruas e praças de cidades da Alemanha. Quero distância dessa sombra, dessas cidades.
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Como um orador desatinado, saí do foco do discurso principal, situado em Mossoró, desandei por ínvios caminhos, fui ao encontro de um ex-secretário com mania de poder (não acatava ordens do seu chefe Garibaldi Filho) e um ditador com mania de genocídio. A intenção era apenas dizer ao jovem poeta Marcos Ferreira que deixe de lado o ataque feroz aos inimigos pálidos ou rosados. Que procure ler, como exercício de ternura, “As Amargas, Não”, de Álvaro Moreyra, reeditado recentemente pela Academia Brasileira de Letras. Álvaro Moreyra nos ensina, entre outras coisas, que os caminhos da vida passam necessariamente pelas estações do amor e da paz.
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Texto publicado na Tribuna do Norte.

Um comentário:

Adailton Figueiredo disse...

Prezado Conselheiro e aconelhado,

Nessas praias de poti e de outros indios, de novos/velhos caciques, é impossivel não está na mira das flechas envenenadas daqueles que exercitam o poder com o sarcasmo dos sádicos que se enebriam com o sofrimento alheio. Assim sendo, nem ojuara que enfrentou, e venceu, o diabo seria capaz de nos defender da maldade dos coroções de lobo, sob a pele de cordeiros.Essa gente, de mente rasteira e espírito subterrâneo que vive a bajular níqueis de bolsos de idiotas hão, ainda, de banquetear, por longos anos, os pratos do luxo, mas, jamais terão a sobremesa da dignidade! Tenho dito.

Adailton Figueiredo.
adailtonfigueiredo@uol.com.br
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