8 de março de 2009

Comunidade quilombola dos Negros do Riacho, em Currais Novos, vive situação de miséria

Descendente de escravos vivem na comunidade Riacho dos Negros, em Currais Novos.
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Quem passa pela BR 226, a 12 quilômetros de Currais Novos, não pode deixar de perceber uma gigantesca panela de barro às margens da rodovia, anunciando que qualquer pessoa é bem vinda à comunidade dos Negros do Riacho. Se o viajante resolve entrar para conhecer o povoado, vai se deparar com afro-descendentes que estão lutando para viver com dignidade e obter a posse da terra.

De acordo com a líder da comunidade Maria José, conhecida como Pretinha, Os Negros do Riacho são descendentes de Trajano Lopes da Silva, um ex-escravo que se “apossou” das terras do Riacho, passando a viver ali, com sua família. Atualmente são 3,6 hectares onde vivem cerca de 150 pessoas em 47 famílias, onde não há atividade econômica, apenas agricultura de subsistência.

De acordo com Pretinha, quando a antiga líder Tereza Maria da Conceição era viva, as pessoas da comunidade trabalhavam na produção de “louça” de barro, que era comercializada semanalmente na feira da sede do município. “Por falta de incentivo a gente não produz mais o nosso artesanato”, reclamou Pretinha.

Em 2005, o Governo do Estado fez uma reforma em todas as casas, transformando as residentes de taipas para alvenaria. Na ocasião, também aconteceu a inauguração do sistema de abastecimento d´água com dessalinizador, que tornou a água salobra da comunidade, antes consumida pelas pessoas ali residentes, em água potável.
A líder da comunidade Negros do Riacho, Pretinha (a porta), com sua família.
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Na época, também foi firmado um convênio entre Sebrae, Estado e Prefeitura de Currais Novos para a qualificação dos ceramistas com um “curso de designer” de cerâmica. As peças de cerâmica eram vendidas pelas mulheres na feira de Currais Novos, mas faltava comprador.

Pretinha garante que depois de tudo isso, o povoado foi esquecido pelos Poderes Públicos e os Negros do Rosário pararam de fazer as peças de barro. Atualmente, muitas mulheres da comunidade caminha os 12 km até curras novas para pedir esmolas na feira livre ou nas casas de boa família.

Sem trabalho, restava a mendicância. Por causa disso, os negros do Riacho são tidos pela população de Currais Novos como preguiçosos e violentos. “Aqui, a gente só tem esse chão seco. O nosso povo passa uma fome danada”, desse Pretinha, com seus olhos marejado de vergonha, apelando por um punhado de dignidade.
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Tornando-se uma comunidade quilombola

Aspecto do cotidiano de uma pequena aldeia quilombola no Seridó potiguar.
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Para ser considerada um grupo quilombola, os Negros do Riacho estão esperando uma certificação de comunidade quilombola que deverá ser expedida pela Fundação Palmares, do Governo Federal, responsável pela emissão do laudo, um dos principais documentos que possibilitará a regularização fundiária da comunidade e a garantia da posse da terra aos Negros do Riacho.

Historicamente, o negro africano chegou à província do Rio Grande do Norte no início do século XVII, vindo de Pernambuco, para trabalhar, como escravo, nos engenhos de cana-de açúcar de Cunhaú e Ferreiro Torto e, posteriormente, nos engenhos do Vale do Ceará Mirim, de São José de Mipibu, de Goianinha e de Canguaretama.

A ocupação do interior e o seu povoamento ocorreram a partir da metade do século XVIII, num processo marcado pelo extermínio do indígena e pelo ingresso da população negra escrava. No Rio Grande do Norte, os seus descendentes de escravos estão espalhados por todas as regiões, compondo um conjunto de dezenas de comunidades negras rurais.

Somente no Seridó, existe as comunidades dos Negros do Rosários em Parelhas, em Jardim do Seridó e Caicó. A comunidade negra de Caicó tem sua fundação datade de 1771 (bem antes da abolição) e mantém seus rituais de centenários da Festa de Nossa Senhora do Rosário, realizada pela Irmandade e pelos Negros do Rosário.

5 comentários:

Sérgio Vilar disse...

Alex, essa matéria foi publicada em algum lugar? Eu poderia publicá-la no DN de amanhã, claro, com a devida referência ao autor?

Abraço!

anninha disse...

esse poster é referente a Comunidade Quilombola de Portalegre - RN? :x

Anônimo disse...

nasci em currais novos rn
e moro em são paulo,
e é muito infeliz as pesoas que
julgam chamando-os de
preguisozos,
vamos ajudar essas pesoas?
nos podemos.

Anônimo disse...

Sou professora do ensino fundamental 1, nascida em Currais Novos moro em Estância-Se.Os governantes devem fazer alguma coisa por esta gente sofrida.

Elizabete Calafange disse...

Tive o Prazer de conhecer essa preciosidade, contudo, as condições sócioeconômicas retrata uma arbitrariedade da administração pública. Essa comunidade esta arraigada ao nosso Estado e faz parte da cultura do nosso País, mais do que é de direito o Governo deveria no mínimo se sensibilizar com um pedaço da nossa História!