18 de outubro de 2009

Forró de gosto duvidoso

ARTIGO

José Teles
jornalista

"Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!". A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça.

Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste pernambucano (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém o culpado desta "desculhambação" não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina "forró estilizado" continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem "rapariga na platéia", alguma coisa está fora de ordem.

Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é "E vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!", alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

2 comentários:

Pedro Augusto www.seridopintadocompalavras.blogspot.com disse...

Músicas descartáveis e de mal gosto, sempre existiram e existirão. Não gosto quando leio ou ouço críticas ou comentários que sustentam que esse problema se trata de um fenômeno atual.

Só exemplificando, um grande e respeitado trio de forró, que muito gosto, admiro e sempre escuto, que é o Trio Nordestino, compôs "A vendinha da feira" que consistia no seu refrão principal "...tem mala, malinha e maleta, tem bolsa, bolsinha e...". Ou seja, apelação sempre houve e sempre vai haver. Algumas pérolas de hoje em dia, tipo "chupa que é de uva" são baixarias comparadas a "ela deu o rádio" de Genival Lacerda; "...eu te dava o Maranhão..."; "só capim canela..."; "...quebrei a cabaça dela..."; "...isso não é hora de pedir papa em bar..."; "...num fure Quinho, não..."; "..deixe o meu pé quieto..." e muitas outros refrões pornográficos do forró do passado.

Acho que o despojo excessivo que eventualmente aparece nas letras de forró deve ser recebidas com um certo humor, peculiar ao forró, mas sem se criar um caso tão grande. As músicas fúteis são rapidamente esquecidas. Quanto mais são afrontadas com um moralismo excessivo, mais elas rendem. Acho que a maneira mais aconselhável te tratar a cultura fútil é o desprezo.

Pode até parecer que sou um apreciador do forró de mau gosto, mas não é isso. Não suporto a maneira vulgar que se trata a mulher ou a ênfase que se dá á cachaça e chifre. A questão é que simplesmente não enxergo isso como um problema atual.

A perecibilidade dessas "obras" é muito grande. Assim como se transformaram em sucesso, cairão no ostracismo. A única possibilidade de continuarem em evidência é caso recebam uma atenção que não merecem.

Nivaldete disse...

Antes, eram casos isolados, como o exemplo citado ("tem mala..."), bem mais criativo e sem tanta apelação, pois deixa que o ouvinte 'complete' o refrão. Mas a coisa virou epidemia. A crítica é necessária, pois o silêncio -mesmo como desprezo- pode parecer aceitação. E essas 'jóias' vendem milhões... Por muito menos, L. Fernando Veríssimo escreveu um texto contundente, tratando a 'música de Goiás' como droga (v. video no youtube -"Vida de Drogado". Um abraço.