8 de fevereiro de 2010

A tirânica estética ensandensida

Feita em plena seguda carnavalesca de 2009, por vários artistas, a pintura coletiva só tem o nome de Dunga.
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CRÔNICA

Plínio Sanderson
professor, poeta e antropólogo

Há quase um ano, no gregoriano atual plena segunda de cavarnal, amigo Mersons me liga na matina, logo cedo, e diz: Plínio Santos, tô chegando com um presente. Chegou as nove e alguns frames. Numa camioneta, e motorista descarregando uma tela imensa, caixotes de tintas acrílicas, espátulas, pincéis, cavalete, munição completa para uma produção iconográfica coletiva.

Nosso marchant havia virado à noite, depois de encenar personagem próprio na Banda da Ribeira. Chegando a conclusão de quê? “Plínio-Plínio (Emerson nunca conseguiu dizer Plínio, apenas uma vez), ainda consigo seduzir alguém”. Numa gagueira típica de bobeira ou de uma ânsia inerente ao filosofar, emitir juízos de valor - logo ele, que todos dizem de uma ausência total juízo.

Pois bem, os convivas vão chegando sem pressa. Mesa armada como manda o figurino familiar, em babetiana simbiose de manjares (sempre achei antropologicamente que todo caicoense é um italiano do Seridó) e BALBURDIAESCULHAMBAÇÃO, no mínimo cinco falando (aos berros) ao mesmo tempo na ágora praiana sob Távora quadrática.

Cavalete armado, tela montada, algazarras plásticas de iconoclastas lombráticos em transe. Alguns arriscam pinceladas, ensaiam ícones, simulam desenhos, Fernandão Kalon de Maracajau, Carlinhos Bem, um representante do movimento cigano das Minas Gerais, Leozito, Serrote, Euzim, transeuntes em geral, e claro, Mersons, nosso (é) terno herói, que pintou freneticamente, inclusive a si mesmo, primeiro, levantou a camisa, espalhou tinta vermelha perscrutando o coração bobo; sentou em cima de tinta derramada propositalmente criando matiz glute gutural. Deixou vestígios até hoje impressos do teto ao chão, das paredes as iluminarias, em luminuras visuais. Dunga, grog com siempre, levanta-se impávido e tasca sua assinatura: dunga/09. Não contribuiu com um traço, uma cor, um palpite. Assina a obra comemorativa aos 46 anos da aparição de P.S. - desde daquele sábado de Zé Pereira, lá pelas veredas do arcaico Caicó.

Mersons, paladino dos pincéis, protesta irado. Pô Dunga, você não fez nada e ainda que ser dono da obra? Motivado pelo ato sovina dunguiano outros assinaram (ou assassinaram) a tela: Serrão e até um tal de Eu. Mersons ainda enlouquecido, incorporou persona beat vândalo, o vídeo feito como mimo, pelo cineasta Carlos Tourinho teve como título o áspero: “Sábado Violento”. Dublê de artista deformático, Mersons estrelou a película divertida.

Quadro concluído. Conforme anexo. Percebo que havia uma particularidade ou unidade estética (na minha visão, claro, desembocando no limiar do Merlou-Ponty, donde “arte é tudo que gera emoção poética”) na área pintada por Mersons e alguns carimbos com a paleta meus. Olhei com os olhos livres e vaticinei: vou cortar, passar a serra. As pessoas discordavam, deixe de ser idiota, vai quebrar a história? Matar o momento mágico? A celebração instantânea?

Oremos, cortar o quadro não é também fazer história? E essencialmente, paz com minha bel estética? Se reie as convenções. Tudo pela arte, inclusive o sublime ato de serrar. Lembro das histórias pregressas de um certo marchant potiguar que ampliavam a mais valia serrando a obra, multiplicando o vil capital.

Cortei sem trauma, matemático, cirúrgico, emoldurei e como encanta Zeca Baleiro em “Bienal”, “um resultado estético bacana”, massa mesmo, para deleite Plínio, digo, Pleno. Detalhes curiosos no ato de tamanho (e tacanho) vandalismo sentimentalóide: depois do serrote permaneceu a assinatura de Serrão, sem o mesmo ter participado da parte perpetuada. Ele desenhou o poeta de perfil fidelíssimo, com um cocar de pajé tapuya. O artista plástico criador da Galeria do Povo, militante excitante Eduardo Alexandre, nunca, jamé assinou um quadro como: DUNGA! Guardarei a exceção para a prosperidade, como trunfo para quando a sociedade entender e aceitar a obra do Eduardo Alexandre - e venerar, por tabela, o saudoso Chulepa.

O tal resultado estético bacana está à disposição do excelentíssimo público em santa Rita dos Bebeus - bem ali na Ponta do Giz, onde o continente faz a curva, numa vírgula dunar nas águas atlânticas.

Um comentário:

Bєzєяяɑ Guimɑŗãeร disse...

Meu querido professor está constante nas atualizações do Grande Ponto, meu caro Plínio Sanderson... Mais conhecido como " O contador de histórias".
Este ano ainda a honra não tive de uma aula dele presenciar, isso é uma intervenção do destino para que todos nós do 2ºb sintamos ainda mais sua falta - tenha certeza não é hipérbole minha.
Alex, muito obrigada por postar um texto do meu professor.
Eu só queria poder de perto apreciar a obra de arte.

Adorei o título!


Beijos,
Ry.