30 de junho de 2007

Fotografia e Poesia

Alexandro Gurgel
Açude
Lívio Oliveira, Natal RN

Forma caudalosa,
cercada de algarobas e sonhos.
À margem, passa a vida
do homem e da mulher
com sorte de perenidade.
Posição ao sol
faz reluzir a cena da canoa.
O menino engendra
o gesto ao longe
e aponta para água
de peixes de razante.
Os matos crescidos na geléia fria
do poço imenso,
misturam à densidade
de um tempo que flui,
sem se sentir,
a aspereza da vida barbada
do homem que observa,
sentado, frente ao infinito,
buscando o horizonte
de mil pássaros,
cortando o sol.
Dor de sangue
no sertão do Cauaçu.

(In "Telha Crua - Poesia", de Lívio Oliveira - Prêmio Luís Carlos Guimarães 2004 / Prêmio Othoniel Menezes 2004).

29 de junho de 2007

Agenda Cultural em Natal - Final de Semana

Alexandro Gurgel
Um passeio pelo pôr-do-sol no Rio Potengi
Foi pensando em revelar a beleza natural no Rio Potengi que a ToaToa passeios náuticos oferece um passeio de barco. O roteiro passa pela Pedra do Rosário, Iate Clube, Forte dos Reis Magos, Praia da Redinha, mangues, Ponte de Igapó e Base Naval com o espetáculo do sol se pondo. Durante o passeio, a trilha sonora é escolhida com canções de músicos potiguares como Valéria Oliveira, Rejane Luna e Galvão Filho. O pacote do passeio custa 25 reais para as pessoas residentes em Natal e têm direito a um drink especial e informações históricas sobre o Rio Potengi, a cidade e seus pontos turísticos. O barco conta ainda com estrutura de banheiro a bordo e bar. A capacidade máxima é de 30 passageiros, mantendo conforto e estabilidade. Saída do barco: 16h do Iate Clube e retorna às 17h30. Mais informações:
http://www.toatoapasseios.com/ ou reservas: (84) 3219-6471 e 9999-4488.
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Trem Potiguar do Forró
O Trem Potiguar do Forró, que acontece entre os dias 23 e 30 de junho, trará um trio de sanfoneiros em cada vagão, serviço de bar, animadores e seguranças. Em Extremoz haverá A Parada do Grude, com forró pé-de-serra. Em Ceará-Mirim, nova parada: haverá cachaça free, quadrilha junina, comidas e bebidas típicas no Mercado forró pé de-serra. A camisa custa R$ 30 antecipadamente e o trem parte às 17h da CBTU. Mais informações: 84-32112091 32012267 32215327. Página da web: http://www.costadoatlanticotur.com.br/
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São Pedro no Praia Shopping
As festas juninas alusivas a São Pedro vão dar a tônica neste final de semana. No Projeto Praia Shopping Musical, realizado naquele shopping, em Ponta Negra, contará hoje com a presença de Valéria Oliveira, a partir das 21h. Amanhã, será a vez de Cirleide Andrade, cantando o Nordeste de Gilberto Gil e Caetano Veloso. A entrada é gratuita.
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Festival de Quadrilhas
Hoje é o último dia da fase eliminatória do 21º Festival de Quadrilhas Juninas com apresentação de grupos tradicionais e estilizados, contabilizando ao todo 65 grupos que estão na disputa e que animam a Arena do Forró, montada na Praça Iapissara Aguiar, Zona Norte da Cidade. Após as apresentações da última quadrilha, a comissão julgadora vai anunciar a relação das 20 classificadas para a fase final do concurso (12 tradicionais e 08 estilizadas).
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D´Vibe
Som dançante, boa música e energia positiva na apresentação que a banda D'Vibe faz nessa sexta, a partir das 22h, no novo pub da cidade, "A Casa", do conhecido Juninho, do programa Batendo Perna. No show, Diogo das Virgens comanda a D'Vibe com um repertório de hits internacionais e brasileiros, além de músicas próprias. Ideal para quem está querendo curtir uma balada e tomar uns drinks conversando com amigos, num ambiente mais intimista. A Casa é o mais novo pub da cidade, e fica vizinho ao Pittsburg da av. Prudente de Moraes. Maiores informações: 8801-9719.
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São Pedro em Macaíba
Hoje e amanhã haverá o São João da Gente, em Macaíba, com estrutura montada na Avenida Mônica Dantas. Contando com 60 barracas, as atrações de hoje são Beto Barbosa e Meirinhos do Forró. Amanhã, comandará o palco o Forró Cubano, Garanhões do Forró e Cláudio Rios. A programação começa sempre a partir das 20h.
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São Pedro no Iate Clube
Tradicional festa junina promovida na cidade, o São Pedro a Bordo ocorrerá hoje, a partir das 22h, no Iate Clube do Natal. No local, além da música típica da festa, terá show de humor, quadrilha e comida de milho. As mesas custam R$ 60 (para sócios) e R$ 80 (não-sócios). Informações no 3202 4402 ou 3202 7676.
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Seu Zé no Budda
Será promovida hoje no Budda Pub a festa de lançamento do espetáculo Kassava e SeuZé in Cabaret, a partir das 23h. O ingresso custa R$ 8, vendas no local. Esse espetáculo já foi apresentado pelas bandas em 2005, e será reencenado em 21 de julho, às 19h e às 21h, na Casa da Ribeira.
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Arraiá pra lá de dez
A 6ª edição do Arraiá pra lá de dez, que acontece Pavilhão da Anorc (Parque Aristófanes Fernandes), próxima sexta, dia 29, a partir das 23h, promete muita animação. Primeiro porque Danadões do Forró, Cinzeiro de Motel, Luizinho Calixto e DJ Luiz Couto estarão lá mandando ver no forró. E depois porque a festa tem bufê free e open bar: whisky, caipirinha, chopps, churrasquinho, caldo de cana, comidas típicas e muito mais, inclusos no ingresso. O preço? R$ 60, à venda na Donna Donna e banca Cidade do Sol.
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Kassava e SeuZé de volta ao Cabaré
Devido ao sucesso do Kassava e SeuZé in Cabaret, ocorrido em 2005, as duas bandas remontam o espetáculo, a ser apresentando na Casa da Ribeira dia 21 de julho. E para antecipar os prazeres do Cabaré II, dia 29 de junho, sexta-feira, Kassava e Seu Zé lançam o espetáculo com uma grande festa no Budda Pub. Os ingressos custarão R$ 8 (somente na hora e no local). Mais informações: 8855-3916.
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Música no shopping Orla Sul
A programação musical do shopping Orla Sul hoje contará com a apresentação do cantor baiano André Lely, a partir das 18h, com o melhor do som reggae e pop. Na seqüência, a banda Mad Dogs traz um som diferente para o shopping, executará o melhor do blues, a partir das 21h. Amanhã a programação segue com chorinho no horário do almoço, a partir das 12h30. O happy hour, a partir das 18h, vai ser animado pela dupla Sirleyde e Carlos Moreno, com clássicos da MPB. A partir das 21h, a Banda Anos 60 contagiará os clientes, com as músicas que marcaram a década. Mr. Jô fará animação no domingo, no horário do almoço, com canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
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Exposição no CACC
Até amanhã, o Recanto Cultural, promovido pela Casa de Apoio à Criança com Câncer Durval Paiva, apresenta a exposição da artista plástica Gerlúzia Alves. Os trabalhos estão expostos na sede da instituição (Rua Clementino Câmara, 234, Barro vermelho).
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Frankenstein no cinema
Ocorre amanhã mais uma exibição do Cinema e Literatura, na Livraria Bortolai, na Avenida Afonso Pena, 805, no Tirol, a partir das 18h, com o filme Frankesntein, dirigido por James Whale, de 1931. A classificação etária é de 12 anos e a entrada é gratuita.
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São Pedro pelo Avesso
O 11º São Pedro da boate GLBT Avesso Clubber, em Parnamirim, acontecerá amanhã com comidas típicas, forró pé-de-serra, forró universitário e a banda Forró que é Moral, além de show especial com Marlus Noé e DJ Anjinho. As drags Antonela de Castro e a Shanaya Porynkuantto também marcarão presença. Quem não estiver afim de participar de quadrilha improvisada, poderá curtir as pick-ups que ficarão sob a responsabilidade de DJ Marcy e Irapuan. Mais informações: 3643 1533 e 8862 8832.
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Festa de Afirmação
O Absinto’s Bar, localizado no Conjunto Jardim das Flores, na Estrada da Redinha, promove amanhã a partir das 20h, a 1ªFesta do Afirmação, com presença da drag Jarita Jarita Night Day e show com Rodolfo Amaral, Donizete Lima, Isabelle, Leni Costa e Lana. A entrada custa R$ 5. Informações: 3086 0405.
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Jow-Jow no Som da Mata
O artista Juliano Ferreira, ou como é mais conhecido, Jow-Jow, será a atração do domingo, no Projeto Som da Mata, que ocorre sempre às 16h30, no Anfiteatro Pau-Brasil, no Parque das Dunas. Iniciando seus estudos aos 17 anos, Jow-Jow é bacharel em Música, com habilitação em violão e guitarra e nesse show pretende mostrar um repertório com as suas ecléticas influências musicais como Tom Jobim, Pat Metheny, Joshua Redman e Pixinguinha. O músico vai dividir o palco com Darlan Marley na bateria, Airton Guimarães no contrabaixo, Iury Dantas no saxofone e a participação especial de Ticiano D’Amore. A entrada custa R$ 1. Informações: 3201 4440.
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Dança no TAM
Hoje, amanhã e domingo, ocorrerá o 6º Encontro Infanto-juvenil de Dança de Natal, no Teatro Alberto Maranhão, promovido pela Cia do Movimento. Serão cerca de escolas convencionais e de dança e 700 participantes, com idade a partir dos quatro anos. As apresentações começam a partir das 19h30 e no domingo, às 17h. A entrada custa R$ 8 (preço único).

28 de junho de 2007

É tudo verdade!

CRÔNICA

Por Franklin Serrão

Uma vez em Mossoró, no finado Chap Chap, Alex, Plínio, Léo, Hugo, Bardim e Eu. Ali tomamos, 375 cervejas, 4 garrafas de Montilla e Alex ainda pagou um tira gosto.

Depois da bebedeira, de costurar as ruas da capital do alto oeste, fomos dividir um quarto no hotel próximo. Simples, Parecido com o hotel São Paulo da Rio Branco. Uma noite interminável para mim. Mofo, banda sinfônica de roncos, insuportante melodia desafinada. O quarto tremia como num terremoto. Alex com seu ronco rouco, Léo com um idioma estranho, mistura de nhegatu com grego, fazia o papeu do trombone. Plínio um Hércules. Bardim e Hugo foram para o Termas.

Mas o pior estava a caminho. Depois de noite insone, de pesadelos conscientes, fui alvejado pela janela aberta. Antes protagonista de uma friagem atacamica, agora emoldurava um vento quente, cáustico, derreteu minha mucosa nasal. Os genes imediatamente se agitaram. E antes de poder evoluir para uma espécie mais adaptada, uma serpente egípcia, ou um dromedário, resolvi visitar o Bardim mais cedo, pois era apenas nove horas e o café da manhã deveria estar na mesa do Termas.

Estava quente naquela manhã. Os transeuntes acendiam seus cigarros nos fios de cobre dos postes, dava para ouvir a água ferver dentro dos cocos. Foi quando passei diante a uma casa funerária.

No caixão do defunto, perto da cabeça, um pote grande de hidratante de pele. Que coisa estranha, no mínimo original. Mais um ritual autenticamente mossoroense? Pensei. Três carpideiras passavam a mão no pote e besuntavam a face e os braços do finado. Diante do sinistro, do ritual fúnebre incomum, parei para observar.

Depois de algum tempo, já fazia parte da paisagem funeral, então perguntei a uma delas: - por que vocês tão melando ele com creme? A profissional de velório que chorava, soluçava e sorria ao mesmo tempo, de voz anasalada respondeu:

- é que o sonho dele era ser cremado depois de morto.

Viajando pelo Sertão - Currais Novos RN

Alexandro Gurgel

Nos túneis da Mina Brejuí é possível observar a schellita brotando das paredes.

Outra opção de visita inesquecível na história econômica de Currais Novos é a Mina Brejuí, um complexo turístico com museu contando a história de Thomas Salustino, antigo proprietário e nome importante na história currais-novense, além do passeio pelos túneis escuros da mina onde se pode ver a scheelita aflorando nas paredes.

Depois do passeio pelo emaranhado de túneis da Mina Brejuí, o visitante é convidado para um banho de “energização” nas Dunas Minerais, formadas pelos resíduos minerais e cristais de calcita, quatzo, mica, berilo, scheelita, entre outros minerais. As dunas são os rejeitos das rochas extraídas das profundezas das centenas de túneis que percorrem as entranhas da Mina Brejuí.

27 de junho de 2007

Fotografia e Poesia

Fábio Pinheiro
O Meu Nirvana
Augusto dos Anjos, João Pessoa PB

No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarrego,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero,
Encontrei, afinal, o meu Nirvana.

Dicas de leitura

Literatura brasileira
A luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo
“Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome. Nasci sob a influência de uma estrela malígna, nasci marcado com o selo do infortúnio. Sou míope; pior do que isso, duplamente míope míope física e moralmente.”
Leia o texto na íntegra

Literatura mundial
O conto da ilha desconhecida, de José Saramago
“Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar.”
Leia o texto na íntegra

Textos de filosofia
Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam
“Embora os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto o meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais. A prova incontestável do que afirmo está em que não sei que súbita e desusada alegria brilhou no rosto de todos ao aparecer eu diante deste numerosíssimo auditório.”
Leia o texto na íntegra

Poesia
Noturno, de Ariano Suassuna
“Têm para mim Chamados de outro mundoas Noites perigosas e queimadas,quando a Lua aparece mais vermelhaSão turvos sonhos, Mágoas proibidas,são Ouropéis antigos e fantasmasque, nesse Mundo vivo e mais ardenteconsumam tudo o que desejo Aqui.”
Leia o poema na íntegra

Ficção
Os Fantasmas de Goya, de Jean-Claude Carriére e Milos Forman
“Nesta trama os caminhos dos protagonistas se cruzam e se entrelaçam aos novos rumos tomados pela Inquisição. Francisco de Goya Y Lucientes acompanha o desenrolar da história não só como testemunha principal, mas como participante ativo, retratando os principais fatos desta época em sua obra majestosa, que atravessa os séculos.”
Leia a resenha na íntegra

Não ficção
História das mulheres no Brasil, de Mary Del Priore (org)
“Dados coletados no recenseamento de habitantes apontavam, na época, um número superior de homens na região. Após 100 anos esse quadro muda. Esse fator está ligado à chegada do ensino superior, promovido por D. Pedro, à busca de melhores condições de vida rumo as cidades grandes e aos altos índices de mortalidade infantil causada pelo chamado mal de sete dias.”
Leia a resenha na íntegra

Literatura infanto-juvenil
Lis no peito: um livro que pede perdão, de Jorge Miguel Marinho
“São textos dentro do novo texto, um hipertexto que toma posse, impetuosa e carinhosamente, do que ama, re-escritura sensível que ajuda o leitor a se sentir igual a alguém que, escrevendo, confessava que se sentia carente e desarmada. Forte, sofrido, denso: Liz no peito é um romance com as mesmas qualidades dos jovens aos 17 anos.”
Leia a resenha na íntegra

Viajando pelo Sertão - Currais Novos RN

Alexandro Gurgel
Currais Novos está localizado a 180 km de distância de Natal, seguindo pela BR 226. O município começou a se desenvolver a partir de 1940, quando foram descobertas grandes reservas de schellita, minério valioso, produzindo uma exploração em larga escala e iniciando o processo de imigração de garimpeiros e comerciantes.
Encravada no sertão do Seridó, Currais Novos é uma cidade com um potencial turístico ainda para ser lapidado, recheado de histórias e bravura entre índios e colonizadores. O município faz parte do chamado “Roteiro Seridó”, oferecendo várias opções de encantamento para o visitante.
Figuras rupestres, minas de schellita, trilhas ecológicas, festa de Sant’Ana, queijo de coalho, entre outros atrativos, fazem de Currais Novos o lugar ideal para aqueles que querem sentir a presença constante das mais legítimas tradições sertanejas.
Há um roteiro ao Sítio Arqueológico Totoró que é imperdível. Na Pedra Rasgada e na Pedra do Letreiro podem ser observadas figuras rupestres datadas, aproximadamente, de 12 a 18 mil anos, em representações de seres humanos, marcas de mãos e figuras geométricas. No sítio, há trilhas pela caatinga para conhecer a Lagoa do Santo, onde poderá visitar a Pedra do Caju, a Pedra do Sino, a Pedra do Navio e o Pico do Totoró.

A origem do nome da Cidade, de acordo com Câmara Cascudo
(in Nomes da Terra. 2º edição. Sebo Vermelho Editora. Natal RN, 2002)

“O coronel Cipriano Lopes Galvão mandou construir os currais novos numa elevação entre os Rios Maxinaré e Totoró, légua e meia da sua casa-grande. Homem de certo gosto, requintou nos currais troncos de arueira, bem aparados, que adquiriram vasta nomeada, a ponto de virem gentes de longe só para ver os ‘Currais Novos’ do Capitão-Mor. Currais Novos ficou denominada a fazenda, depois a capela, o povoado, a vila, o município, a comarca e a cidade, consagrando-se, de público, a homenagem a uns currais bem acabados, como símbolo do desenvolvimento pastoril daquela região”.

26 de junho de 2007

Informes Literários do Grande Ponto

O Casulo, um jornal de Literatura Contemporânea
Poesias, poemas, ensaios e contos da Literatura Contemporânea, além de entrevistas, recheiam as páginas ilustradas do jornal O Casulo, distribuído gratuitamente em São Paulo para estudantes, escritores, produtores culturais, artistas e editores. O periódico não só publica o que se produz hoje em poesia contemporânea como aproxima o público da oralidade da poesia à medida que também promove saraus e recitais. O projeto integra agora o Eixo 3 (Publicações impressas e outras mídias dedicadas à valorização do livro e da leitura) do PNLL e pretende até o ano que vem aumentar seu número de páginas, atualmente oito, melhorar a distribuição e aumentar sua tiragem de 3 mil para 100 mil exemplares.

Alfabetização é prioridade no Rio Grande do Norte
Dos 167 municípios do Rio Grande do Norte, 98 apresentam taxas de analfabetismo de jovens e adultos superiores a 35%. O estado é prioridade na pauta do Ministério da Educação (MEC). Para anunciar mudanças no programa Brasil Alfabetizado direcionadas a esses municípios com altos níveis de analfabetismo, o MEC promoveu duas oficinas em 22 e 25 de junho nas cidades de São Paulo do Potengi e Açu, respectivamente. Segundo o site do MEC, além de dobrar o repasse de recursos federais para a alfabetização, três ações foram postas em discussão: a criação de um Plano Plurianual de Alfabetização, estratégias de mobilização de alfabetizandos e alfabetizadores e formas de garantir a continuidade dos estudos de jovens e adultos recém-alfabetizados.

Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação
O Ministério da Educação (MEC) lançou na última semana o edital do segundo Concurso Literatura para Todos, um estímulo à produção literária de autores que escrevem para jovens e adultos em processo de alfabetização. Nove escritores serão contemplados com um prêmio no valor de R$ 10.000 cada um. Os candidatos podem competir em quatro categorias: prosa (conto, novela ou crônica), poesia, biografia e texto de tradição oral (em prosa ou em verso). Para cada uma delas, serão premiados dois autores. As obras devem ser enviadas à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC) entre os dias 21 de junho e 21 de novembro. A divulgação dos resultados e a premiação serão realizadas em março de 2008. No ano passado, 2.095 obras concorreram à primeira edição do concurso.

Conexões Literárias
Nos dias 27, 28 e 29 de junho acontece no SESC Tijuca (Rio de Janeiro) uma roda de leitura com o poeta Ferreira Gullar e a cantora Adriana Calcanhoto, além de exibição de filmes sobre o poeta e contação de histórias. Essa é uma das ações que fazem parte do projeto Conexões Literárias, que integra o Eixo 2 (Projetos Sociais de Leitura) do PNLL. O projeto tem por objetivo ampliar o interesse pela obra dos autores em foco e pela leitura, e também pesquisar as possibilidades de interação de linguagens. Para isso, promove rodas de leitura, exibição de filmes e apresentações artísticas a partir das obras de um escritor.

Premiados pelo mundo
O escritor Martin Mosebach é o contemplado do Georg Büchner Prize 2007, o mais prestigiado prêmio de literatura alemã da German Academy for Language and Literature. Nos EUA, Chinua Achebe venceu o The Man Booker International Prize. Com o romance Half of a Yellow Sun, Chimamanda Ngozi Adichie foi a vencedora do Orange Broadband, um dos mais conceituados do Reino Unido. E na Irlanda foi anunciado que o norueguês Per Petterson receberá, por Out stealing, 100 mil libras esterlinas, valor do International IMPAC Dublin Literary Award.

6ª edição da Bienal do Mercosul
A 6ª edição da Bienal do Mercosul acontecerá de 1º de setembro a 18 de novembro, em Porto Alegre (RS). Cerca de 250 obras já estão confirmadas para a mostra que terá entrada gratuita. Obras de 67 artistas de 23 países vão ser expostas em três espaços. Nos armazéns do Cais do Porto estarão obras pertencentes às mostras Zona Franca, Conversas e Três Fronteiras. O Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS) vai abrigar as mostras Monográficas dos artistas Francisco Matto e Öyvind Fahlström. E o Santander Cultural é o local da Exposição Monográfica do artista Jorge Macchi.

Inscrições abertas para Concurso Literário na 2ª Bienal de Santa Catarina
A partir de 20 de junho abrem-se vagas para o 7º Concurso Literário da Câmara Catarinense do Livro. As inscrições devem ser feitas no local da 2ª Bienal de Santa Catarina, que ocorre de 20 a 24 de junho, no Centro de Eventos Centroserra, ao lado do Ginásio Jonas Minosso, em Lages (SC). O concurso tem três categorias: “Mini-conto” para alunos do 5º ano (ou 4ª série), “Poesia” para o 9º ano (ou 8ª série) e “Crônica”, para o 3º ano do ensino médio. O tema é livre para as categorias “Mini-conto” e “Poesia”. Para a categoria “Crônica”, o aluno deve utilizar a temática de um ou mais livros do Vestibular UFSC 2008. Os interessados devem solicitar um formulário de inscrição e o regulamento e-mail comunica@cclivro.org.br. Informações pelos telefones (48) 3224 5135 e (48) 9961 7579.

O "Dragão" potiguar padece diante do Fluminense

Foto e texto: Alexandro Gurgel

O América perdeu sua 4ª partida consecutiva dentro de casa. Dos sete jogos disputados, perdeu cinco, empatou uma e ganhou outra. A única vitória do time natalense foi contra o Santos, dentro da Vila Belmiro e o empate aconteceu contra o Sporte de Recife, na ilha do Retiro.

O Fluminence entrou em campo indo pra cima do América, mostrando sua força de atual campeão da Copa do Brasil. Logo no primeiro minuto do primeiro tempo, numa bobeada do defensor Muçamba, o atacante tricolor Magrão aproveitou a bola rebatida e chutou no canto, sem chances para o arqueiro Renê, fazendo o único gol do jogo.

O Tricolor carioca esteve longe do brilhantismo. Mas teve boas chances em contra-ataques e volta para o Rio de Janeiro com três importantes pontos na bagagem. Invicto desde a final na Copa do Brasil, o Fluminense tem 12 pontos na tabela e sobe para a 5ª colocação no Brasileiro.

Antes de a partida começar, a torcida do América exibiu uma faixa reclamando das arbitragens contra o time potiguar no Campeonato Brasileiro: “Sr. Juiz, por favor, roube com moderação”, estampava a faixa. Mas o gol do Fluminense, logo no primeiro ataque, nada teve a ver com favorecimento do árbitro mineiro Cléver Assunção.

No final do jogo, a torcida gritava revoltada: “ei, Lori pede pra sair” e também “oh oh oh queremos treinador”. Mas, tudo indica que o treinador Lori Sandri permanecerá no comando do time, pedindo paciência à torcida. “Estamos com um time que não tem entrosamento. Vamos trabalhar forte nos treinos para se recuperar no campeonato”, declarou Lori Sandri em entrevista à imprensa.

Com a derrota, o América continua segurando a lanterna, no 20º lugar no Campeonato Brasileiro. No próximo sábado, o América joga contra o Goiás, no Machadão.

25 de junho de 2007

Dando vivas à cultura potiguar - Revista Papangu

“Olha O Papangu, meu amor, veja como ele está lindo...”

É em clima de festa que a revista Papangu, charmosa como sempre, começa a circular em todo o Rio Grande do Norte. E, para mostrar que nos preocupamos muito com a beleza, perguntamos na chamada de capa: “Quem é o gostosão daqui?”. Mas essa pergunta quem deve estar fazendo mesmo é o nosso deputado-garanhão Fábio Faria. O menino que já passeou nas páginas da Papangu como “Filhinho de papai”, cresceu e se transformou em um dos maiores namoradores da atual safra de parlamentares do Congresso Nacional. A bonitona da vez é, nada mais nada menos, do que a nossa apresentadora de TV-atriz-modelo Adriane Galisteu. Tem mais é que cantar alto “quem é o gostosão daqui?...” Né não?

Com fotos de Carlos José, Túlio Ratto entrevista o diretor de teatro João Marcelino, falando dos seus sonhos, metas e, como não poderia ser diferente, sobre sua grande paixão, o teatro - ele que encerra um ciclo de cinco anos dirigindo o espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”.

Antonio Amâncio continua impagável, na seção Pei-bufo, com suas charges. Temos ainda a estréia do desenhista Jucelino Neco, que passa a colaborar com a nossa publicação a partir deste mês, com seu traço 'underground', retratando o nosso cotidiano. São duas páginas para a alegria dos amantes dos quadrinhos.

Para o nosso “Talento Potiguar”, Alexandro Gurgel subiu os morros doTirol, em Natal, para encontrar o jornalista Chrystian de Saboya. o Conto do mês "Os lenços" é da escritora potiguar Eme Gomes. No Especial, Maria Lúcia Barbosa Alves, doutoranda em literatura comparada pela UFRN, destaca “Ana Cristina Cesar, Cenas de uma vida”. Assina o Artigo deste número o professor Charles Bronson, que escreve sobre "Cangaço e Mossoró: 80 anos da resistência e muitos anos de apropriação da História".

Nossos papangunistas Alexandro Gurgel, Antonio Capistrano, Raildon Lucena, Yasmine Lemos, Louro Dedé, Marco Túlio Cícero, Cefas Carvalho, David Leite, Túlio Ratto e Antonio Alvino continuam afinadíssimos expondo suas idéias e opiniões.

É muito conteúdo de uma lapada só, não acham? Por isso é que a família da revista mais lida do Estado, em tempos de festas juninas bradam:
- Viva o Papangu!
-
Bancas onde encontrar a Papangu em Natal

Banca do Tôta (próximo ao CCAB Norte)
Banca Tio Patinhas (Avenida Rio Branco, centro)
Livraria Siciliano (Midway Mall e Natal Shopping)
Livraria AS Livros (Avenida Salgado Filho)
Banca do Nordestão (Avenida Salgado Filho, em frente a Faculdade de Odontologia)
Banca do Nordestão (Avenida Engenheiro Roberto Freire)

Lei Câmara Cascudo deverá sofrer mudanças para contemplar manifestações culturais em todo o RN

Por Alexandro Gurgel
Fotos: AG Sued


A última quarta-feira, o presidente da Comissão da Lei Câmara Cascudo e diretor geral da Fundação José Augusto, Crispiniano Neto (foto ao lado), se reuniu com a classe artística para discutir sobre a eleição da nova comissão de gerenciamento da Lei. Entretanto, a discussão seguiu outros rumos e o processo eleitoral para o Conselho Estadual de Cultura está suspenso.

Esse imbróglio na renovação da Comissão de Cultural do Estado tem se arrastado desde outubro de 2006. O conselho atual deveria ter deixado a comissão em outubro, como ficou acordado na eleição de setembro de 2004.

Contudo, tanto Isaura Rosado quanto Crispiniano Neto, presidentes da Fundação José Augusto e ex-membros do conselho, perceberam a necessidade da revisão da Lei. E decidiram normatizar a mesma como faculta a seção VII, artigo 27. Solicitando assim a permanência da comissão com tal intuito.

Com participação de mais de 50 pessoas representando os mais diversos segmentos artísticos, foi decidido que haverá uma comissão que irá organizar sugestões de mudanças significativas na lei, com a presença de representantes do interior do Estado, para poder encaminhar essas sugestões à Fundação José Augusto.

A comissão será formada pelos produtores culturais: Francisco Alves, Ana Lira, Marcilei Maciel, J. Marcos, Ana Patrícia, pelos cineastas, Augusto Luís e Paulo Laguardia, e pelos escritores, Lívio Oliveira e Geraldo Maia. A comissão provisória tem um prazo de 60 dias para apresentar as sugestões à Lei Câmara Cascudo.
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Divisão de recursos gera divergências

Durante a reunião entre a classe artística e a FJA houve sérias divergências em relação à divisão dos recursos entre todas as regiões do Estado, uma vez que a maior parte dos projetos está centralizada em Natal.

"Na realidade é notório que a lei é inócua e apresenta-se desvirtuada. Sua essência deveria ser estimular a produção artística no Estado e não privilegiar uma minoria de empresas e produtores", declarou o poeta Plínio Sanderson (foto ao lado), membro da Comissão da Lei Câmara Cascudo.

Dos R$ 4 milhões destinados para projetos culturais, mais de R$ 2,9 milhões são para projetos da capital; outros R$ 1,1 milhão vão para projetos natalenses que se estendem ao interior; há ainda R$ 700 mil para projetos de produtores de Natal que se estendem a Mossoró e apenas R$ 124 mil para três projetos oriundos de Mossoró. As outras cidades do interior não são contempladas com os recursos.

Na prática, no universo de 22 mil empresas contribuintes, apenas seis (Cosern, Petrobras, Sat, Telemar, Embratel e Tim Nordeste) participam efetivamente e detém a possibilidade de financiar todo o valor destinado para a renúncia fiscal anual (R$ 4 milhões). "O pior é que há uma dúzia de produtores culturais que se revezam em projetos, formando uma verdadeira casta de oligoprodutores, dominando o mercado de forma predatória", ressaltou Plínio.

Conforme Plínio Sanderson, há projetos no valor de R$ 500 mil/ano que se perpetuam, tornando-se cativos na lei. "São eventos efêmeros, às vezes de um único dia, e ainda cobram entradas ou camisetas. Constituindo-se uma espécie de alienação: o cidadão, que em última instância, banca a realização, mas não pode consumir o produto cultural. É uma volta ao mecenato clássico, viabilizada pelo erário estadual", declara.

Durante a reunião com a FJA, Plínio Sanderson sugeriu que convocassem todos os setores culturais do Estado para uma grande discussão, vislumbrando o aperfeiçoamento da lei, na tentativa de democratizar a Lei Câmara Cascudo e aperfeiçoá-la. O que foi aprovado apenas com um voto contrário, portanto quase por unanimidade.

Foi criada uma comissão para catalisar as sugestões de modificação na lei, no prazo de 60 dias para ser encaminhado aos órgãos competentes (Executivo e Legislativo). Segundo Plínio, é urgente fazer uma mudança na lei que possibilite a implementação de uma prática que venha tornar-se instrumento eficaz de fomento à produção cultural para todo o RN. "Outro ponto crucial é a instituição do Fundo Estadual de Cultura para contemplar as artes não-comerciais ou experimentais", ressaltou.

24 de junho de 2007

E viva São João!

Alexandro Gurgel
Ontem, postei uma foto captada durante o Festival de Quadrilha "Tradicional", que ocorre em Mossoró, em meio ao Cidade Junina. Chuveu e-mail na minha caixa eletrônica apontando as mudanças nas nossas tradições juninas. Veja essa outra e diga, caro leitor, isso é uma quadrilha junina ou um baile de carnaval?
Entre tantas tradições juninas que vem se perdendo no tempo, estão as festas juninas nos bairros. Não faz muito tempo quando o São João Natalense era animado pelo Arraiá da Véia Chica, em Lagoa Seca e o Arraiá da Esmeralda, em Potilândia. Agora, a apresentação de quadrilhas é observada em meio a um grande evento global, perdendo parte do seu caráter popular.
Veja um e-mail recebido da escritora e dramaturga Clotilde Tavares:

"Bem, isso nunca foi quadrilha junina nem aqui nem na China.
Quando vivia em Natal, escrevi alguns artigos sobre isso. Mas de nada adianta. Isso é uma coisa fabricada pela todo-poderosa rede globo, e 'globoliza' o São João em todo o Nordeste.
Quando a gente vai falar, as pessoas dizem: 'Mas é tão bonito! Tão colorido!'
E a gente fica com fama de uma pessoa mal humorada, que reclama das coisas 'coloridas' da vida.
Aqui na Paraíba é do mesmo jeito. Nao fui a Campina Grande porque nao gosto do frio, nem das multidões do Parque do Povo, nem das bandas tipo Calipso que agora se apresenta por lá. Antes era proibido, mas agora não é mais.
O São João aqui em João Pessoa, no Centro Histórico, é cheio dessas 'intervenções', um horror.
Ontem a televisao mostrou (ou melhor, quis mostrar) um grupo de ciranda de raiz, que ia se apresentar à noite. A cãmera focou dois segundos nos cirandeiros, aqueles homens rusticos, verdadeiros, com aquela sonoridade linda, e imediatamente focalizou os 'quadrilheiros', vestidos de verde-limão e rosa-shocking, coloridos e dançando com passos que pareciam estar no Texas.
Tive vontade de chorar. Por isso que fico em casa, absolutamente sem vontade de presenciar os crimes que se cometem contra a cultura popular".
Clotilde

23 de junho de 2007

São João ou carnaval?

Alexandro Gurgel
A imagem acima foi captada durante o festival de quadrilha em Mossoró, dentro dos festejos do “Cidade Junina”, onde a prefeitura da cidade busca “resgatar as tradições” juninas. Além da noiva, o noivo, o delegado, o padre, os padrinhos e convidados, as quadrilhas “estilizadas” ainda trazem ciganos, reis, rainhas, odaliscas, piratas, entre outros personagens tipicamente carnavalescos.

A indumentária dos brincantes nem de longe lembra a camisa xadrez costurada ou um vestidinho de chita. Agora, a meninada só usa vestidos brilhantes e redondos, parecendo ter saídos da ala das baianas de uma escola de samba.

As inocentes e divertidas quadrilhas improvisadas deram lugar ao fenômeno junino das quadrilhas estilizadas, onde há coreografia bem montada longe do velho “anarreé ou alavantú”. Efeitos especiais com fogos e luzes dão o tom colorido dos grandes bailes. A fogueira e o milho verdes assando são detalhes esquecidos.

Entre uma quadrilha e outra, é possível escutar as canções de Luiz Gonzaga e Elino Julião. Mas, a maioria esmagadora das quadrilhas é embaladas pelo “oxente music”, um forró eletrônico de origem cearense. O trio de forró já foi descartado, dando lugar ao novo DJ Caboclo

E tudo indica que as tradições juninas continuarão a sofrer interferência por longos anos para fortalecer a indústria “cultural de eventos”.

E viva São João!

Fotografia e Poesia

AG Sued
Fálicos
Maria José, Currais Novos RN

Quero escrever
com meus dedos
a língua que falo.

Que falo!
Falo, pois toca
a língua

dos meus dedos.

Quero dar-te
um beijo de língua
com a ponta

dos meus dedos fálicos.

22 de junho de 2007

Viajando pelo Sertão - Santa Cruz RN

Alexandro Gurgel
A foto mostra uma visão que o turista tem quando sobe o Monte Carmelo

Nossa viagem começa por Santa Cruz, parada obrigatória para quem quer visitar o Seridó e uma alternativa cheia de encantos, história e aventura.

A região era habitada pelos índios Tapuios, que foram expulsos pelos colonizadores no século XVIII quando se instalaram na ribeira do Rio Traíri e fundaram a povoação de Santa Rita da Cachoeira com uma capela em louvor a santa.

De acordo com o historiador Luis da Câmara Cascudo, há uma lenda que justifica a origem da vinculação Cruz aos nomes dados ao lugar, contada em diversas versões pelos habitantes do município.

Dizem que um missionário, ouvindo falar que os habitantes sofriam as amarguras das secas, ataque de animais ferozes e que entre eles havia lutas e rivalidades, resolveu visitar o povoado. Chegando lá, mandou fazer uma grande cruz com os ramos de uma árvore chamada inharé e fincou em cima do Monte Carmelo.

Depois que o missionário ergueu a cruz de Inharé, os malefícios cessaram, as fontes jorraram água e os animais tornaram-se mansos. A terra ficou, desde então, conhecida com o nome de Santa Cruz do Inharé.

Situada às margens da BR 226, Santa Cruz é passagem obrigatória para quem viaja ao Seridó norte-riograndense. Encravada aos pés da serra chamada Monte Carmelo, a cidade está localizada na Região do Traíri, a 120 quilômetros de Natal. Com um clima semi-árido na maior parte do ano, a cidade oferece uma alternativa turística dentro do roteiro que leva ao Seridó.

Agenda Cultural em Natal - Final de Semana

Festival de Cinema de Natal Homenageará Dorian Gray
O FestNatal 2007, por meio do Grupo dos Amigos do Festival de Cinema de Natal, que se reúne mensalmente no Restaurante Chapéu de Palha, homenageará o artista plástico Dorian Gray com o troféu Estrela do Mar. A entrega será feita pelo conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, o escritor Valério Mesquita. O homenageado foi o criador do troféu há 20 anos. O diretor geral do Festival de Cinema de Natal, o jornalista, escritor e crítico de cinema, Valério Andrade, confirmou que está confirmada para o próximo mês de novembro a realização da Mostra Competitiva do Festival de Cinema de Natal, evento que integra o calendário Turístico e Cultural da cidade do Natal.
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Vídeo
Dentro da programação do FestNatal 2007, também ocorrerá o Festival de Vídeo Potiguar, cuja as inscrições se encerrarão no dia 06 de julho. Os interessados podem inscrever os seus trabalhos através do site do Festival (http://www.festnatal.com/) ou na Fundação Hélio Galvão, localizada na Avenida Campos Sales, 930 (por trás do Clube América). "De acordo com o regulamento da edição 2007, somente poderão participar do Festival de Vídeo Potiguar trabalhos produzidos no Rio Grande do Norte. Este ano haverá uma pré-seleção das produções apresentadas e não poderão concorrer nas categorias "documentário" e "ficção" - já premiados em festivais anteriores", informou Valério Andrade. Joana D`Arc Tomaz, produtora do evento, também lembra que vídeos exibidos anteriormente não poderão voltar a concorrer, nem serão aceitas versões com mais de 30 minutos.
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Khrystal no Sesc
A cantora Khrystal lançará hoje, a partir das 19h, o CD Coisa de Preto, no projeto Terraço do Relógio, no Sesc Centro. A entrada é gratuita. Informações: 3211-5577.
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São João em Pipa
O grupo D’Vibe e o músico Diogo das Virgens se apresentam hoje e amanhã, a partir das 23h, no Farol Bar (Avenida Baía dos Golfinhos), em Pipa. No repertório, hits internacionais e o melhor da música brasileira, em versões dançantes e com levada própria.
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Roxy Gente & Música
O novo bar da Praia do Meio, o Roxy Gente & Música, oferece diariamente música ao vivo. Todas as sextas e sábados a banda Boca de Sino se apresenta no local. Aos domingos tem o brega da banda Belina Mamão. Os shows começam sempre às 22h. O couvert custa R$ 4.
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São João no Praia Shopping
Os festejos juninos continuam na programação musical do Praia Shopping. Hoje tem o São João de Nara Costa, às 22h. Amanhã Zeca Brasil canta João do Vale, às 21h. No domingo, Marcos Ribeiro e Carlos Moreno fazem show instrumental homenageando o São João, às 22h.
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Festa Junina em Porto Mirim
Na praia de Porto Mirim, no Litoral Norte, terá o Arraiá do Chamuska, promovido por Flávio Góis e Dickson Meméia, amanhã a partir das 18h. É obrigatório o traje matuto. O ingresso custa R$ 20 (adulto) e R$ 10 (criança), a mesa fica por R$ 80. Informações no telefones 3211-1363, 3211 1888 ou 9986 1081.
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Gaya Dança Contemporânea
O espetáculo Fragmentos da Hora Absurda, da companhia Gaya Dança Contemporânea, será apresentado hoje e amanhã, às 20h, no Teatro Laboratório Jesiel Figueiredo, localizado no Departamento de Artes da UFRN, o espetáculo de dança. A entrada custa R$ 10 (inteira).
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Fest em Cena
O Fest em Cena continua neste final de semana, quando será apresenta hoje, às 20h, o espetáculo O tempo da Chuva, do grupo Beira de Teatro, na Casa da Ribeira. Amanhã (às 21h), também na Casa e dentro do Fest em Cena, será apresentada a peça O casamento, do Grupo Clowns de Shakespeare. E no domingo, ainda na Casa, terá o espetáculo Procura-se actriz para montagem, da Cia Urbana de Teatro, às 20h. os ingressos custam R$ 3.
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O Casamento
Os Clowns de Shakespeare apresentam amanhã, na Casa da Ribeira, O Casamento, uma livre adaptação do texto “O Casamento do Pequeno-burguês”. A apresentação faz parte do Fest em Cena, Festival de Teatro que acontece na cidade até 15 de julho, e traz espetáculos com ingressos a R$ 3. A peça será exibida dentro do festival mais uma vez dia 13 de julho.
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Som da Mata
O Projeto Ribeirinha de Pau & Corda é a atração do próximo domingo do projeto Som da Mata, promovido no anfiteatro Pau-Brasil. A entrada custa R$ 1. Informações: 3201 4440.
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Domingo no cinema
O Cineclube Natal exibirá o filme Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, no próximo domingo, no Teatro de Cultura Popular (anexo à Fundação José Augusto), a partir das 17h. Na ocasião também será exibido o curta Lei seca. Seca para quem?, integrante do Circuito Cineclubista de Estréias e dirigido por Rita Fagundes e Diangela Menegazzi.

21 de junho de 2007

Coisas do Grande Ponto

Peça nacionalmente premiada chega à Natal
Poesia, filosofia, loucura, sexualidade, amor, ódio e dor. Essas são algumas das fortes cores que sobem ao palco com a nacionalmente aclamada peça Nu Nery. Escrito por Carlos Correia Santos, um dos dramaturgos brasileiros mais premiados da nova geração, o espetáculo traz para a cena, a conturbada e polêmica relação afetiva e intelectual travada por três grandes ícones da cultura nacional: o pintor e poeta Ismael Nery, sua esposa Adalgisa Nery (jornalista e escritora carioca que se tornou lenda nos meios culturais modernistas) e o poeta mineiro Murilo Mendes. A produção fica em cartaz na capital potiguar de 21 a 23 de junho, no Teatro de Cultura Popular. Além das sessões com a peça, o público poderá participar de mini-cursos de Dramaturgia Investigativa, Maquiagem e Cenografia com Materiais Alternativos e Elaboração de Projetos para a Área Cultural. As oficinas serão ofertadas gratuitamente e os ingressos para as apresentações da peça têm preços variados. Maiores informações no teatro.
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Sarau da Aliança Francesa reúne poetas e artistas plásticos nesta quinta-feira
Com uma programação variada o IV Sarau da Aliança Francesa terá sua parte poética baseada nas obras de Ana Cristina Tinoco, Jania Souza e Uraquitan Lopes de Souza, nesta quinta-feira, às 19h, por meio da interpretação teatral do ator Rodrigo Bico, que desde a primeira edição desse projeto cultural vem interpretando as obras de poetas do Rio Grande do Norte. Na mesma noite o consagrado artista plástico Ítalo Trindade inaugura uma exposição dos seus últimos trabalhos, inclusive com peças que foram apresentadas durante a Feira de Arquitetura e Design Casa Mix, na semana passada. O artista, que já expôs em várias cidades brasileiras e no exterior, tem uma vasta experiência e um trabalho construído através de várias camadas de tintas com densidades diferentes e superpostas. “Recrio e desvendo formas, cores, tons e linhas. Nada é previsível ou preconcebido, acontece, é necessário” afirmou. O artista plástico Adriano Albuquerque dos Santos, de Parnamirim, ilustrador de cordéis e livros e que trabalha com xilogravura, desenho e pintura também irá apresentar algumas obras durante o sarau.
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Centro de Convenções
Até agora o governo do Estado não tomou nenhuma providência para licitar a administração do Centro de Convenções de Natal, que continua sob o comando da Cooperativa para o Desenvolvimento da Atividade Hoteleira (Coohotur), que vem realizando um trabalho extraordinário que envolve manutenção, modernização do equipamento e captação de grandes eventos de porte nacional. Para que se tenha uma idéia do crescimento das atividades do equipamento, toda a agenda para 2007 já está preenchida.
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São João pelo Avesso
A Boate Avesso Clubber realiza, neste sábado, uma de suas festas anuais mais tradicionais, o 11º Arraiá Pelo Avesso irá transformar a boate numa verdadeira festa de São João. Forró pé-de-serra e universitário com a banda Forró Que É Moral!, comidas típicas, forró eletrônico com o DJ Anjinho (lançando o CD Nordeste nas pistas), gaydrilha, sapadrilha e muito mais. E mais os DJ´s Marcy e Irapuan fazem o som pra quem não estiver a fim de dançar agarradinho. Lembrando que quem chegar à caráter até 00hs não paga a entrada! mais informações... Avesso Clubber 3643-1533 / 88628-832

Palhaços, sim, mas em determinadas e precisas circunstâncias

Foto: Hugo Macedo
Nesse artigo, Eduardo Alexandre responde ao presidente da FJA depois de uma entrevista concedida por Crispiniano Neto ao periódico Tribuna do Norte.

Por Eduardo Alexandre
Jornalista, poeta, artista plástico e criador da Galeria do Povo

O diretor geral da Fundação José Augusto e presidente do Conselho Estadual da Cultura é assim mesmo: desdenhoso, característica inerente aos despóticos, aos prepotentes. Como presidente do Conselho, convocou os artistas para reuniões nas quais se discutiriam os problemas da Lei Câmara Cascudo, de renúncia fiscal (leia-se 4 milhões de reais destinados à cultura); envia representantes da Fundação para dirigirem os trabalhos de mesa e; se sai com essa: "Estava havendo uma discussão" (como se nada houvesse com ele) "e decidiram (como se a FJA não estivesse representada) escolher um grupo que representasse a classe por seis meses. Mas não combinaram conosco."

O modesto conosco do presidente do Conselho de Cultura e diretor geral da FJA é, a bem da verdade, com ele, uma vez que a FJA estava presente às reuniões através de representantes por ele indicados. A sugestão de um mandato tampão (linguajar deles, os oficiais, mandato provisório para os artistas) de representantes da categoria dos artistas no Conselho de Cultura, partiu da própria Fundação, não dos maiores interessados, os artistas.

Foram três exaustivas reuniões onde o foco principal, "quem vota", não foi resolvido. Atas destas reuniões, que poderiam ter ido a conhecimento público através de Internet (A FJA tem página própria e assessoria de imprensa com farta lista de endereços eletrônicos, os e-mails), mas não foram. E chegou-se ao cúmulo de ter ata de reunião que não houve por falta de quórum, ocasionada pela má divulgação da mesma, como aliás, tem sido sempre (às vésperas).

Agora, vem o presidente diretor geral e desqualifica a todos, inclusive aos seus, a quem delegou poderes, para dizer que de nada serviram os debates e resoluções e que ele, sim, tem respostas e soluções para tudo: chama a uma reunião (ou assembléia de artistas?) sem pauta, onde tudo já está decidido, reunião para ele dizer: vai ser assim e ponto final, pronto!

Eu sempre achei que os palhaços fossem artistas, verdadeiros artistas do riso, da alegria e também da tristeza. Nunca imaginei que um diretor de instituição cultural, do porte da que está em foco, fizesse artistas passarem por palhaços. Sim, porque até os representantes da Fundação José Augusto que estiveram representando a instituição nos debates eram artistas, e artistas respeitados, com mais de 30 anos de serviços prestados às artes do RN, como Mirabô e Babal, nomes que não merecem pecha de palhaços em quaisquer circunstâncias, muito menos quando representam uma instituição oficial de cultura.

Soa, a declaração do diretor geral, presidente, como se o próprio Estado do Rio Grande do Norte, através dos seus dirigentes, estivesse impondo, a todos nós artistas, a pecha de palhaço. Que até somos, mas em determinadas e precisas circunstâncias.

20 de junho de 2007

Viajando pelos Sertões

Alexandro Gurgel
No Lajedo do Soledade, o guia Cláudio mostra os detalhes das figuras rupestres, uma verdadeira aula de arqueológia.

Aqueles que acompanham o Grande Ponto devem ter percebido a falta de postagem diária. Este blogueiro está trabalhando num projeto de uma revista chamada “Turismo RN” e, desde a última quinta-feira, está viajando pelos sertões do Rio Grande do Norte captando imagens e colhendo informações sobre nossas potencialidades. Até o início de julho, quando a revista será publicada, postarei minhas impressões dos lugares visitados e tudo aquilo que os as lentes da câmera for olhando, além de continuar informando o que está acontecendo na nossa cultura e no meio cultural.

* A viagem teve início em Santa Cruz do Inharé, terra abençoada por Santa Rita da Cachoeira, localizada aos pés do Monte Carmelho. No mesmo dia, a equipe da revista seguiu para Currais Novos para visitar a Mina Brejuí, o canyon Os Apertados, o sítio arqueológico do Totoró, a Pedra do Navio (cruzeiro da cidade), Igreja de Sant’ana, as casas históricas e todo o potencial dessa cidade serioense.

* Voltamos à Natal para um breve repouso na sexta-feira. No sábado, viajei sozinho para fazer a cobertura do Mossoró Cidade Junina e o espetáculo Chuva de Bala no País de Lampião. Em Mossoró, fiquei dois dias e segui viagem para a Chapada do Apodi, lugar deslumbrante pela sua rica história e pontos turísticos de grande potencial. Em Apodi fui muito bem recebido pelas pessoas que preservam as tradições e sentem orgulho de cantar a terra apodiense.

* Fiquei particularmente impressionado com o trabalho realizado no Lajedo do Soledade, um lugar onde são encontradas escrituras rupestres datadas de cinco mil anos e muito bem preservadas. Um museu arqueológico e um centro de artezanato são mantidos pela comunidade do Soledade com apoio da Petrobrás. Em Apodi, ainda visitei o centro histórico, a Barragem de Santa Cruz, a Lagoa do Apodi, o Zoológico de Pedras, o Casarão do Sítio Ameno e a bela igreja de São João Batista.

* Nas próximas postagens, contarei com mais detalhes dos caminhos percorridos pelos sertões potiguares.

18 de junho de 2007

Festival de Vídeo Potiguar

Já estão abertas as inscrições para o Festival de Vídeo Potiguar, evento que integra a programação oficial do Festival de Cinema de Natal. Os interessados podem inscrever os seus trabalhos, até o próximo dia 06 de julho - não haverá prorrogação de prazo -, através do site do Festival (www.festnatal.com) ou na Fundação Hélio Galvão, localizada na Avenida Campos Sales, 930 (por trás do Clube América).
De acordo com o regulamento da edição 2007, somente poderão participar do Festival de Vídeo Potiguar trabalhos produzidos no Rio Grande do Norte. Este ano haverá uma pré-seleção das produções apresentadas e não poderão concorrer os vídeos nas categorias Documentário e Ficção já premiados nos festivais anteriores.
As regras do evento, que é coordenador pela produtora Joana D´arc Tomaz e tem como diretor-geral o jornalista e crítico de cinema Valério Andrade, observa ainda que os vídeos exibidos anteriormente não poderão voltar a concorrer, nem serão aceitas versões com mais de 30 minutos.

Sobre o FestNatal 2007
Está confirmada para o próximo mês de novembro a realização da Mostra Competitiva do Festival de Cinerma de Natal, evento que integra o calendário Turístico e Cultural da cidade do Natal. Promovido pela Prefeitura do Natal, o FestNatal tem como Presidente de Honra o prefeito Carlos Eduardo Alves e é executado pelo crítico de cinema e jornalista, Valério Andrade, através do Círculo de Arte do Nordeste, entidade sem fins lucrativos e de utilidade pública, credenciada junto ao Ministério da Cultura, Riofilme e demais órgãos cinematográficos e produtoras independentes.

O evento, que é o mais antigo do gênero do Nordeste e o quarto mais antigo do Brasil, conta com o apoio e patrocínio de várias instituições públicas e privadas, como o Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Petrobras, Telemar, SESC, entre outras.

16 de junho de 2007

O que falta na Bienal?

AG Sued
ARTIGO

Por Lívio Oliveira*

A Bienal do Livro de Natal já se constitui em importante evento do calendário cultural do Rio Grande do Norte, frisando-se, desde logo, que a sua iniciativa é louvável por si só, vez que oferece ao público de nosso Estado mais uma alternativa de entretenimento e cultura, ainda que de forma efêmera e pouco profunda. No entanto, por essa falta mesma de profundidade, efetiva-se em meio a alguns equívocos – uns menos, outros mais graves – em sua realização e que se fazem perceber a partir de uma análise superficial mesma, frente à explicitude com que se têm demonstrado em suas primeiras edições nesta terra de Cascudo.

Tem sido assim aos olhos do mais atento observador especializado como também à vista daqueles que, buscando um diferencial no que respeita ao seu rol de diversões ou escolhas culturais, terminam por sofrer decepções no meio do caminho (neste ano, mais longo e molhado, até o distante Centro de Convenções).

Nessa última edição, recentemente concluída, algumas falhas gritantes se repetiram, outras foram tristemente inauguradas.

Dentre aquelas mais freqüentes está a já batida desvalorização dos escritores da terra. Aparentemente lembrados, houve apenas um parcial, incompleto, imperfeito chamamento de alguns a participarem de mesas-redondas, debates e lançamentos, obviamente sempre à margem de alguns expoentes nacionais (muitos não tão convincentes). Não se tem uma lógica de homenagens sérias, de estudos profundos ou de exposição consistente da Literatura Potiguar, nem mesmo da nacional. Nem os mais privilegiados autores da terra, nem mesmo os escritores (raros) convidados a fazer parte direta do evento tiveram repercussão importante e tratamento digno de suas obras e personalidades. Tudo é muito superficial e vazio e, deve-se salientar, não serão cafezinhos e brindes baratos em uma sala VIP improvisada que farão a revolução ou o resgate da Literatura Potiguar ou do Brasil.

Lançamentos e muitos re-re-re-lançamentos (desculpem-nos a falha redacional) foram tratados, também, de maneira rápida e rasteiríssima, não permitindo aos leitores a deglutição (de lembrar, ainda, a fraquinha praça de alimentação) da programação e a compreensão da seqüência lógica dos acontecimentos.

Até mesmo uma iniciativa importante como foi a da premiação de autores mirins em um concurso de contos sofreu com a pouca e rápida divulgação das regras e dos resultados e com os prêmios financeiros de reduzido valor (será que faltou dinheiro também para outros aspectos do evento?).

Num momento em que se começa a trabalhar junto à Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte – a partir de uma iniciativa da União Brasileira de Escritores neste Estado – uma Lei que visa proteger e garantir condições para a formação de um mercado digno para o livro e para o autor potiguar, a Bienal não se propõe a incluir na sua lista de debates nenhum tema (e o da Lei seria imprescindível!) que aprofunde a verdadeira discussão acerca de quem somos, onde estamos e o que produzimos dentro da história literária deste pobre Estado do Rio Grande do Norte e do próprio país. Lembre-se que o povo do Rio Grande do Norte, através de seu governo generoso, destinou somas astronômicas à realização da efeméride, nas palavras da própria governadora do Estado, que, tristemente, levou uma grande vaia por ocasião da palestra do escritor e cartunista Ziraldo. Por quê? Respostas para os organizadores do evento.

Outras mudanças – sempre postas a lume e jamais tratadas a contento – podem ser exemplificadas a partir da banalização das atrações de mercado trazidas ao ambiente da “Feira”. Fácil foi ouvir, com freqüência, que a maior parte dos estandes exibia produtos de má qualidade, para venda fácil (e retorno cultural nem tão evidente), buscando desovar estoques e mais estoques de papel encadernado que, se não fosse um evento como o aqui ora tratado, ficariam anos envelhecendo longe dos consumidores mais incautos (muitos destes que terminam participando – da forma mais angelical – da farsa cultural que se lhes impõem, ocasionalmente).
Importante que os empresários (acreditamos que estão de boa-vontade e boa-fé) que cuidam do evento se sensibilizem e passem a se cercar de pessoas verdadeiramente envolvidas com o universo do livro, da literatura e da cultura neste Estado, constituindo em torno de si um círculo de consultores qualificados que possam demonstrar os aspectos histórico-culturais referentes à atividade da escrita e da leitura, num processo em que se deixe no Rio Grande do Norte, após a chamada Bienal, muito mais do que resquícios de papelaria e livros e autores em miniatura.

Ou, então, uma sugestão mais séria: Que os tais empresários peçam ajuda e orientação a Gabriel, o Pensador.
* O autor é presidente da união brasileira de escritores do Rio Grande do Norte- UBE-RN.

15 de junho de 2007

Cláudia Magalhães: Nasce uma estrela no teatro potiguar

TALENTO POTIGUAR

Texto: Alexandro Gurgel
Foto: AG Sued

Natal é o berço do dramaturgo, ator e diretor teatral Jesiel Figueiredo, que revolucionou a forma de se fazer teatro na cidade, além de dedicar sua vida à luta pela formação de platéias e engrandecimento da arte. Jesiel Figueiredo tem que ser reverenciado pela importante contribuição ao teatro potiguar, mas o show deve continuar. Seguindo a tradição teatral na terra dos Reis Magos, Cláudia Magalhães vem se despontando em cena como um novo talento nos palcos potiguares.

Atriz, bailarina, cantora, escritora e produtora, Cláudia Magalhães é uma mulher atuante na cena teatral norte-riograndense. Nos últimos anos, ela tem se envolvido em grandes espetáculos ao ar-livre como os autos “Terra de Sant’Ana”, em Caicó e “Um Presente de Natal”, na capital, além de longas temporadas na Casa da Ribeira interpretando e cantando. O deslumbramento pelos aplausos começou ainda adolescente, no grupo de teatro do Colégio Salesiano São José, quando Cláudia Magalhães interpretou uma onça que se apaixonou por um macaco no seu primeiro papel teatral. “O pessoal viu que eu era muito comunicativa e me convidou para entrar nesse grupo”, ressaltou.

As cortinas do verdadeiro palco começaram a se abrir quando a jovem Cláudia conheceu o diretor teatral carioca, César Amorim, que viu a peça, gostou da “onça” e a convidou para montar duas peças: “O Mito do Andrógino”, que reunia uma coleção de textos nacionais; e depois, a peça “De Baco a Beth”, uma comédia que contava a história do teatro. Ambas com sucessos inesperados. Nessa mesma época, Cláudia conheceu o diretor de teatro João Marcelino, que a convidou para fazer o espetáculo “O moço que casou com a mulher braba”, que tinha ainda no elenco Clotilde Tavares e Marcos Bulhões. “Nesse momento eu não aceitei o convite porque era muito jovem e fazia teatro por brincadeira”, afirmou.

“Eu abandonei toda essa brincadeira para casar, mexer panelas e cuidar de menino”, conta Cláudia, lembrando da época que ficou afastada dos palcos para viver seu papel de esposa e dona de casa. No final dos anos 90, voltou a reencontrar César Amorim no antigo barzinho Black Out, na Ribeira, que fez uma proposta para ela voltar a fazer teatro com um novo conceito. “Dessa vez, o teatro preencheu meu coração de uma forma diferente”, lembra.

Desde então, Cláudia começou a trabalhar com afinco, reunindo alguns bons atores para montar o espetáculo “As fúrias”, na Casa da Ribeira, tendo um grande sucesso desde a estréia. Numa das apresentações, ela disse que teve a honra do ator global Raul Cortez ter assistido à peça. “Eu me tremia todinha só de pensar que Raul Cortez estava na platéia. Depois da peça, ele veio falar comigo e disse que gostou muito do meu trabalho”. De acordo com Cláudia Magalhães, sua visão sobre o teatro mudou através de João Marcelino quando começou a encenar Macbeth, uma tragédia escrita por William Shakespeare, dirigida por Marcelino e produzida por Henrique Fontes. O espetáculo foi chamado “O Caminho das Folhas de Outono”, atraindo um grande público à Casa da Ribeira.

Cláudia confessa que é autodidata nas artes cênicas. Ela faz teatro por puro prazer e resume: “sou feliz quando estou representando”. Seu grande sucesso como atriz é a personagem “Tathiene Tábata Neurótica”, cujo espetáculo rendeu meses de casa cheia no final do ano passado, na mesma Casa da Ribeira, com a direção de João Marcelino. “Eu me apaixonei pelo trabalho de Marcelino e ele pelo meu. Uma química perfeita”, completou. Conforme a atriz, Tathiane quer aquilo que todo mundo deseja: uma mulher feliz procurando o grande amor. No palco, sozinha, Cláudia interpreta Tathiene e outros personagens. “É um monólogo muito divertido e eu empresto algumas das minhas histórias pessoais de neuroses à Tathiene”.

Atualmente, Cláudia está trabalhando com um projeto para retornar com a peça “Tathiene Tábata Neurótica”, por causa da grande procura pelo espetáculo, sobretudo em Mossoró, Caicó e Currais Novos, onde ela deverá se apresentar no segundo semestre. “Vamos ao interior com a peça e depois, voltaremos para mais uma temporada em Natal”, confirmou. Dos 10 anos de apresentação no espetáculo natalino “Um Presente de Natal”, Cláudia participou de quatro temporadas como atriz. Em 2005, ela escreveu o texto, fez parte da peça interpretando Nossa Senhora, uma das narradoras da história e ainda trabalhou na produção executiva.

Desde o ano passado em Caicó, é apresentado o espetáculo “Terra de Sant’Ana”, escrito por Cláudia, que também interpreta a padroeira. Segundo ela, além de contar a história de Sant’Ana, o auto também revela questões sociais para reflexão que afetam a humanidade como a miséria, a falta de solidariedade, a ganância, a violência, entre outros temas. “A gente precisa celebrar, mas a gente precisa falar no que está acontecendo e aproveito esses espetáculos para questionar”, disse.

Como cantora, sua carreira começou quando trabalhou com a voz em musicais como “Bye, Bye Natal”, interpretando a lendária cafetina Maria Boa, “As Aventuras de Pedro Malasartes” e “A farça do poder”, todos escritos por Racine Santos. Sua performance chamou a atenção do cantor Isaque Galvão que a convidou para apresentar um show no Avesso Clube, como back-vocal. A partir desse encontro, Cláudia acompanhou Isaque em eventos como São João, no Pólo Multicultura do Carnaval em Ponta Negra, em cima do trio elétrico no Carnatal, entre outros shows.

Com a cabeça cheia de projetos, Cláudia Magalhães está escrevendo o espetáculo “Esquina do Mundo” (nome provisório) que revela histórias com os personagens do Grande Ponto e do Beco da Lama, redutos de boemias e tertúlias literárias. “Quis homenagear grandes figuras que habitavam o lugar como Lambretinha, Newton Navarro, Djalma Maranhão, Cascudo, Nazir. Também é uma grande homenagem ao Beco da Lama”, ressaltou. Danilo Guanais se apaixonou pelo texto e vai fazer as canções da peça. A direção será de João Marcelino. Não há data definida para estrear “Esquina do Mundo”, mas Cláudia garante que até o fim do ano o espetáculo entra em cartaz.

Trazendo uma nova luz para o teatro potiguar, o talento de Cláudia desponta nos palcos e encanta as pessoas que assistem, como se fosse uma cartase de extrema intensidade, trazendo à tona os sentimentos de terror e piedade dos espectadores, proporcionando-lhes o alívio, ou purgação, desses sentimentos. Como pensava Jesiel Figueiredo, não basta apenas encantar a platéia, a missão de Cláudia Magalhães é reconstruir um conceito da nova dramaturgia e fazer história no teatro potiguar.

13 de junho de 2007

Boomsday in Natal

Nessa quinta-feira, 14 de junho, será comemorado o "Bloomsday" 2007, na UFRN de Natal. A coordenação do evento é do professor Francisco Ivan da Silva e tem o apoio do PPgel - Programa de pós graduação em estudos da linguagem.

PROGRAMAÇÃO

Conferência: James Joyce e o Romance na Literatura
Prof. Dr. Francisco Ivan da Silva

Leitura Dramática de Exilados
Diretor: Francisco Magno de Araújo

Local: Biblioteca Central Zila Mamede
Horário: 19h

Aniversário de Bloom:
Mostra de vídeo
Recital com poemas dedicados a James Joyce:
Jaklini Medeiros Costa
Samuel Anderson de Oliveira Lima
Maria Guadalupe Segunda

Exibição do filme Ulisses
Data: 15 de junho de 2007
Horário: 9h
Local: Auditório A - Azulão - Anexo do CCHLA

Organizadores do Bloomsday 2007:
Prof. Dr. Francisco Ivan da Silva

Alunos do PPgEL:
Francisco Israel de Carvalho
Leila Maria Tabosa
Lisbeth Lima de Oliveira
Maria Guadalupe Segunda
Rejane de Souza
Samuel Anderson de Oliveira Lima

Alunos da Graduação em Letras/ UFRN:
Francisco Magno de Araújo
Jaklini Medeiros Costa
José Maria Holanda Dias
Lívia Maíra Barbosa Felipe
Raquel Souza de Brito

Plínio Sanderson, um Poeta Ensandecido

Por Alexandro Gurgel

Plínio Sanderson Saldanha Monte é antropólogo, geógrafo, professor, poeta, animador cultural, assistente parlamentar da Assembléia Legislativa do RN e membro eleito do Conselho Estadual de Cultura (comissão da Lei Câmara Cascudo). Nascido em Caicó, no ano da graça de 63, mora em Natal desde as primeiras letras no Colégio Salesiano São José.

Começou na carreira literária publicando seus poemas em coletâneas nos livros “Ainda Estamos Vivos”, em 1981 e “Cio Poético”, em 1982. Em 1983, publica seu primeiro livro individual “Atresia” (1983), uma edição mimeografada pelo próprio poeta. E o segundo “Afetart”, em 1985.

Plínio Sanderson foi um dos articuladores do movimento “14 de Março”, quando se comemora o Dia Nacional da Poesia em Natal. Depois de dirigir a peça teatral “Auto de Lusitânia”, de Gil Vicente e ter coordenado vários festivais de artes. O poeta Plínio foi laureado duas vezes, em 1986, conquistou o primeiro lugar no 3º Festival de Poesia da UFRN (ganhando também o prêmio de melhor performance) e grande vencedor do prêmio Othoniel Menezes de poesia, promovida pela Fundação Capitania das Artes, em 2003, como o livro inédito “Inspiral – um estudo da poética”.

O encontro para essa entrevista foi em pleno Beco da Lama, reduto cultural natalense, numa bela tarde de um sábado azul.

Em que momento na sua vida juvenil você despertou para as Letras? E qual é a sua formação poética?
A busca pela palavra surge com a esquerdofrênia juvenil. Espécie de escárnio e revolta de todo jovem. Filho do silêncio, parido em plena ditadura militar, nasci em 63. Ainda quando fazia o ensino secundário, estudava em colégios de padres e freiras e sentia na carne a necessidade de me indignar contra todo o contexto social vigente e a primeira manifestação da poesia, para mim, desabrochou nessa catarse poético-existencial.

Quem mais o influenciou na Literatura Universal?
Quando comecei a escrever, imbuído por essa necessidade premente de exprimir uma indignação doída, não tinha nenhuma informação poética, não havia lido poetas de quaisquer vertentes. Tinha uma informação limitada e percebi que deveria buscar entender a literatura universal, brasileira, regional e potiguar. E isso foi uma perda imensa. A partir do momento que comecei a tomar consciência do mundo literário, lendo, pesquisando, comecei concomitantemente a tolher minha criatividade - o medo do vexame vem à tona. Me sentia mais poeta quando não possuía informação nenhuma e as coisas saiam naturalmente, sem preocupações estéticas. Uma auto censura me assolava: isso é Maiakóvisk? Isso é Rimbaud? seria Oswald de Andrade? Ao se interar sobre a produção da literatura universal, terminamos tendo uma preocupação de fugir dos arquétipos impressos. Pra ter um estilo, é primordial algo que o particularize, e assim, iniciei uma busca desenfreada por uma forma peculiar de escreviver. A posse de informações me levou a romper com a palavra escrita linearmente. A busca pela modernidade na poesia. Percebi que era fundamental o exercício das três dimensões da palavra: verbal-sonora-visual. A partir daí comunguei com a idéia de que a poesia era uma coisa muito mais complexa de que apenas um estado de espírito, um momento de revolta. A palavra se concretiza a cada letra, cada sêmia com um peso, uma história. Os teóricos da semiótica apregoam que todo o sistema repousa sobre o princípio arbitrário do signo - e esse signo em última instância é a letra. Tudo se resume a isso. Passei pelos Campos Concretos (das Galáxias aos Noigrandes) e suas traduções, Ezra Pound, Mallarmè, Rimbaud, Mário Faustino (Poesia Experiência), Mário de Andrade, Jorge Mautner, Drummond, Baudelaire, Bandeira, Augusto dos Anjos. Quem me consubstanciou nessa aglutinação de (in)formações literárias foi o videomaker Augusto Luís, que tem uma biblioteca interessantíssima. Isso fez com que vislumbrasse as veredas e encruzilhadas da literatura tentando descobrir uma vertente de poesia original.

Quem eram as pessoas de sua convivência, no início da sua produção poética em 79? Nessa época, quais eram os alumbramentos para se produzir versos?
Interessante é o que definia a nossa poesia. Éramos rotulados de poetas marginais. O desbunde da chamada “Geração Alternativa”. Não era aquela idéia glauberiana de uma idéia na cabeça e uma câmera na mão, mas a possibilidade de botar na rua a palavra registrada e lavrada. Em Natal, esse Movimento se constituiu num fazer poético arrebatador. Um Movimento urbano (a cidade perdia o ar bucólico, acabrunhado e se inseria na nova urbanização litorânea do nordeste brasileiro) de poesia, tinha Cleudo Freire, Venâncio Pinheiro e grupo Aluá, os livros alternativos de uma trupe imensa/intensa como: Harrison Gurgel, Sofia Gosson, Vicente Vitoriano, João da Rua, Antônio Ronaldo, Novenil, Aluízio Mathias. Havia a concreta possibilidade de fazer arte com nossas próprias mãos e meios de produção. Era uma postura gostosamente “romântica”. Tínhamos que batalhar uma resma de papel aqui, um estêncil acolá; Essa rapaziada nos despertou a pragmatização da arte via nossa própria iniciativa, sem depender das instituições. O jornalista Moura Neto, o músico Marcerlus Bruce (um dos criadores da banda que fez muito sucesso na cidade - Fluídos), as poetas Kátia Leonila e Isabela Garcia, o Tronxo, éramos uma plêiade de jovens ingenuamente utópicos. Caímos na labuta e fomos à luta. O primeiro livro tem um nome muito sugestivo “Ainda Estamos Vivos”, era a explosão de um grito calado, oprimido. Esse foi meu primeiro livro, uma coletânea, que era à tônica em voga naquela época da produção mimeógrafo/marginal. O segundo livro um ano depois, novamente uma coletânea, com as mesmas personas anteriores, e entrando no circuito o dândi-advogado Wellington Dantas, que veio agregar com uma poesia non-sense. Eclodimos um segundo livro “Cio Poético”. O primeiro individual foi “Atresia”, em 83 e em 85 lanço “Afetart”, um livro de artista ou conceitual, páginas com buracos de fogo. Começo irremediavelmente exercitar além da palavra, a fragmentação, a clivagem, introduzindo elementos/objetos no próprio livro (vide o Dadaísmo). O livro causou um grande impacto no meio e até hoje repercute. Recentemente, na coluna Geléia da Becolândia (no blog Grande Ponto) o colaborador Maurício Grounge, cita-o.

Essa sua forma de fazer poesia não linear, sem sonetos, sem essa preocupação purista, é uma marca poética sua?
De 1986 até 2002, deixei de escrever poesias lineares, onde as palavras significam o que elas dizem. Pra mim, a poesia é importante quando há o exercício do logos, do raciocínio, da razão. Quando a palavra existe podendo ou não significar o que ela traduz. Busco esse exercício. Pra mim, esse exercício da palavra, enquanto jogo lúdico é essencial. “Vai leitor / procurar na esquina / a rima”! A poética torna-se uma interação, o resultado depende da cognição do interlocutor, esse é meu desafio. A minha poesia é para iniciados. Você vê, lê e questiona: isso é poesia? Que danado é isso? Em 1986, ganhei o 3º Festival de Poesia da UFRN, foi o prêmio mais alto pago na arte do Rio Grande do Norte, ganhei 13 mil dinheiros da época, ganhei dez mil pela melhor poesia e três mil como melhor performance - tive o auxílio luxuoso do Pedro Peralta Pereira, grande e performático irmão. A poesia “Vislumbrâncias pó tiguares” é interessante. Nele as palavras não vão significar o que elas dizem. É um poema que ninguém entendeu, mas todo mundo curtiu pela sonoridade metálica das palavras. Foi insofismavelmente a poesia vencedora. Na hora da premiação, continuei fazendo “performance”: 5º lugar Fulano, 4º lugar Beltrano etc., e no 1º lugar: à plenos pulmões gritei que eram cartas marcadas, que não podia ganhar esse prêmio, pois quem estava apresentando o evento era o jornalista Ciro Pedroza, que me boicotou no Festival de Artes de 85, quando realizaria a performance “Sete Aureolas Para Nossa Ociocidade Natal Letal”, de 01 hora e meia, investi todo meu 13º salário e simplesmente não deixaram me apresentar, desligaram o microfone, censura braba. Foi um frenesi, joguei ovo no público, arremessei tinta, invertendo o processo de repúdio. Em vez de o público ir contra o artista, o artista enfureceu-se contra o público e o escambau. Entrou polícia, acabou com a noite do Festival de Arte. Enfim, o cara que me boicotou um ano antes, teve que me dar o prêmio de campeão da Poesia e de melhor performance. Denunciei-o ensandecidamente em público. A jornalista Rejane Cardoso escreveu um artigo no Jornal Dois Pontos narrando o fato hilário.

Você falou agora a pouco da geração marginal, da geração do mimeógrafo. Dessa geração, você traz alguma coisa pra poesia de hoje?
Tudo! A irreverência contra o tal lirismo comedido que se referia Manuel Bandeira, esse não comprometimento com nenhuma regra, o escárnio pela métrica, pela rima, tudo isso. A experimentação que sugeria o título do movimento se consolidava, Alternativa e Marginal. Meus últimos poemas minimalistas ainda são reminiscências disso. Entre a poesia de Leminski e os comprimidos poéticos do Oswald de Andrade, exemplifico: “Freudiet: o poeta passou da fase anal/ na agora num repente oral/ vomita poemas para um boquiaberto público”. Fazer blague. A poesia como exercício, como jogo prazeroso. Como dor de cotovelo, sentimentalismos e estágios da alma, não!

Se ganha dinheiro com poesia ou é só diletantismo?
Sou do tempo em que a poesia era pura necessidade de expressão. Ainda me sinto ligado a essa produção “romântica”. Porém, faturei alguma grana com poesia. Esse prêmio de 13 mil da UFRN/ FIERN. Ganhei Othoniel Menezes (2003). Recebi alguns cachês para organizar Festivais de Artes do Natal. Não acredito que a poesia seja construída pela perspectiva do dinheiro ou mesmo do reconhecimento. Acho que hoje é possível. A partir da radicalização dos meios informacionais contemporâneos nessa sociedade técnica-científica-informacional, com a famigerada mídia tão onipresente dá para ganhar dinheiro. Há possibilidade real de produzir um livro com pouco dinheiro no empreendimento, podendo, inclusive, ser feito em casa e obter lucro. Claro, se nós poetas fossemos mais pragmáticos. Ao contrário do que o senso comum defende, o poeta não é o sonhador, o poeta, etimologicamente, é aquele que faz, realiza. A poesia, como dizia o Mário Faustino, tem a função de comover, deleitar e transformar. Exercito a poesia como instrumento de transformação. Utilizo arte, essa ação que permeia todas as entranhas da vida social do cidadão, como instrumento de fazer revolução. A “Revolução Amarela” que se referia o cineasta Augusto Ribeiro Jr. (cineasta de Boi de Prata). O próprio Mauro Faustino afirmava categoricamente: o poeta é aquele que sente na pele a necessidade de experimentar; para mim a poesia é isso, l-i-t-e-r-a-l-m-e-n-t-e.

Em 1988, durante a 2ª Feira de Sebos de Natal, você fez uma performance algemado na praça com o titulo de “Artista em Cativeiro”. Como se deu essa performance? E qual o objetivo?
Em Natal, naquela época, engatinhava um movimento idealizado pelo jornalista e produtor cultural Dorian Lima, chamado “Poetas de Plantão”. Em contrapartida, eu defendia os “Poetas de Platão”, mas ficou mesmo “Poetas de Plantão”. A idéia era ocupar os espaços. Durante a Feira de Sebos percebemos que Natal estava passando por um processo de estagnação, sonambulismo cultural. Os órgãos públicos estavam inertes. Não acontecia nada, uma vacância na política pública cultural, triste realidade que infelizmente ainda impera no nosso Estado e Município. Numa postura anárquica, me algemei por dez horas na praça André de Albuquerque, dizendo que era poesia, era arte. Quem me algemou foi um cara de fraque (poeta soteropolitano Alberon Soares), representando o “dono” da TV Globo, responsável pela falta de criatividade, pela falta de informação coletiva, e em cativeiro, ficava gritando à população transeunte: o senhor é contra a arte? Contra a poesia? Então me solte. Solte a arte, solte a poesia. Só não fomos presos, porque já estávamos presos. A Polícia Federal esteve lá. Vendemos mais de 150 autógrafos. Algemado e vendendo autógrafos num saco de pipoca onde a assinatura era a digital. É esse tipo de arte que interessa e me seduz. Uma manifestação que faz as pessoas pensarem, refletirem. A arte só importa quando faz despertar consciência, questiona, critica. Esse evento foi interessante, cheguei a perder o emprego no Colégio Ferro Cardoso, que era em frente ao evento. O chefe vaticinou: preciso de um professor de artes, não de um artista professor. No Diário de Natal, um jornalista publicou que tal atitude valia mais que todas as atividades desenvolvidas pela Fundação José Augusto durante um ano inteiro.

Essa sua característica de misturar performance com poesia é uma coisa sua? Fale sobre alguns momentos marcantes onde esses desempenhos poéticos encantaram?
Essa junção de várias artes: poesia, teatro, plástica, música, foi introduzida pelo Jota Medeiros, exemplo que “os artistas são as antenas da raça”. Já pintamos a Ponta do Morcego, com tintas laváveis e efêmeras, que seria esmaecida com o tempo pelo ir e vir incessante das marés. Uma manifestação plástica, mas também poética. O Rimbaud defendia que cada letra tem um peso cromático. Noutra, convocamos os poetas da cidade, um dia anterior ao 14 de março no bar do jornalista Miranda Sá, o memorável “Mintchura”, epicentro da intelectualidade de Natal nos anos 80 e realizamos o projeto “Oferendas Poéticas”. Foram mais de 600 garrafas (de uma cerveja Kaiser, on way), jogadas ao mar. Cada uma continha uma poesia, celebrava o Dia Nacional da Poesia e avisava para entrar em contato. Essa performance realizei outras vezes no âmbito escolar. Levei meus alunos para vivenciarem esse happening que deu primeira página da Tribuna do Norte com foto colorida imensa. Pensamos o 1º pic-nic dos artistas, na Praia dos Artistas, mas não deu nada certo. Naquela época, o governo assumia o poder no 15 de março. Ia assumir Geraldo Melo, haviam cinco palcos, nosso som foi armado num palco que não era o certo. Caiu uma tremenda tromba d’água em Natal, não foi possível realizar o 1º pic-nic dos artistas na Praia dos Artistas e nós levamos toda a farofada lá pra casa e fizemos uma festa que durou três dias: Carlos de Sousa, Moura Neto, Jota Medeiros, Pedro Pereira, Augusto Luis, enfim, uma gama de Poetas e convivas. A performance do “Bode Cultural” foi uma performance também enigmática. Eu tinha escrito o chamamento do “O 1º Pic-nic dos Artistas na Praia dos Artistas” enviado para os jornais, o jornalista, Woden Madruga escreveu: “olha, não consigo entender non-nada, vou mandar na integra. E botou embaixo um PS “Será que esses poetas já leram Fernando Pessoa”? Fiquei irado. Mandei como resposta uma “Ode ao Woden”, que nunca foi editado. Por causa da “Ode”, passei 4 anos proscrito das páginas da Tribuna do Norte. Mesmo com amigos na editoria, não passaram de jeito nenhum os meus textos, no único espaço livre para publicar artigos. Por isso, sugerimos para o Dia da Poesia fazer a passeata contra o bode cultural. “Sr Woden Madruga, um bode poente”. O Sr. Woden Madruga foi o cara que mais habitou a torre de marfim do poder cultural do Rio Grande do Norte: 2 anos com Garibaldi Alves (prefeito), 4 com Geraldo Melo e mais 8 de Garibaldi (governadores), são 14 anos na cultura. Ele se enclausurou inutilmente no castelo do poder da Fundação José Augusto. Isso ficou claro quando na Câmara Municipal do Natal, em homenagem ao Dia da Poesia de 2003, foi dito pelo presidente da Capitania das Artes (Rinaldo de Barros), que Madruga nunca recebe-o, assim como também não recebia o pessoal do NAC/UFRN (Ângela Almeida). Está lá, gravado na Câmara Municipal. Eu e o sebista/editor Abimael Silva, capitaneamos a arrecadação e saímos com um bode imenso nas ruas, dezenas de pessoas seguiam passeata “O Bode da Cultura”; “Desamarre o Bode, Woden”. Foi um sucesso retumbante. O bode foi posteriormente comido em pajelança poética. No início dos anos 90, mesmo cansado de lutar contra a maré e querendo passar a bola, continuei bancando a comemoração, gastando os últimos tostões que me arranhavam os bolsos. A gente enjaulou, o último poeta marginal de Natal, o Carlos Astral, tive que roubar o garajau da vizinha de minha ex-sogra. Nesse ano o Collor de Melo ia assumir o poder no dia 15 de março, eu e poeta Pedro Pereira, pintamos a ladeira da Rio Branco de branco, na madrugada, e brincando com o mote fizemos o “Dia da Poesia in Collor”, em passeata fomos até a ladeira e jogamos bombas de tinta em sacos plásticos com os carros atropelando-os e fazendo escorrer a tinta ladeira a baixo. Foi outro evento plasticamente interessante.

Você é um dos idealizadores e precursores da manifestação do 14 de março em Natal, o Dia da Poesia. Como se deu essa evocação de exaltar a poesia anualmente? Por onde começou isso?
Iniciei no movimento poético de Natal no 14 de março de 81, na passeata “pega poeta” que reuniu onze malucos. Esse movimento já vinha desde 78. O Movimento surgido como sussurro de evento vindo de Recife e também do pessoal da Poesia na Praça Castro Alves, em Salvador. Natal entrou nesse esquema. Só que aqui essa data se consolidou. Natal é a única capital do Brasil em que se comemora efetivamente a data magna. Gera o maior buxixo, um frisson na mídia. Graças à criatividade dos poetas celebrando o dia da poesia de maneiras inusitadas. Nesses dias, a poesia deixa de ser apenas coisa escrita, que cabe num livro, sendo exercida plenamente na oralidade. Os poetas recitam, deliram, blasfemam, isso fez despertar em mim os horizontes da poesia falada. Tenho um poema que diz: “Vivo a poesia de ser o que SOA”. Não o que SOU, mas, o que SOA. Descobri que é fundamental a poesia enquanto forma de mudar a maneira de pensar as coisas, inclusive da própria palavra - o exercício nato da poesia. A inquietude na busca pelo novo. O Dia da Poesia em Natal se revela como tradição, aquilo que se perpetua no imaginário. São quase 30 anos desse exercício poético. Contemporaneiguarmente, se há uma tradição cultural em Natalópoles é o Dia da Poesia. Ao contrário dessa preguiça macunaímica mítica do brasileiro, que deixa tudo para primeira segunda-feira depois do carnaval, no Rio Grande sem Sorte tem uma reca de obstinados poetas que exercitam um outro calendário, o ano só começa na primeira segunda-feira depois do dia 14 de março.

Alguns teóricos da comunicação, como Antônio Cândido e Roland Barthes, defendem que na poesia não existe tanta inspiração, existe mais a criação pensada e a inspiração fica em segundo plano. Você vê a criação poética dessa maneira? Como é seu processo de criação?
Com certeza. Quando eu falei sobre vislumbrancias pó tiguares, onde ninguém entendeu nada, mas todos acharam que deveria ganhar, pois era um poema metálico, sonoro, não significa nada, a princípio. Mas se o freguês tivesse uma maior acuidade, ele perceberia que foi construído matematicamente em laboratório: um/cinco, um/quatro, um/três, um/dois e dois/um; uma estrutura articulada onde cada palavra, cada sílaba, se imbricam num código lógico, como na comunicação do código Morse. Não faço rima, nunca gostei, acho até uma coisa chata, pobre, limitada. Gosto na palavra da sonoridade. Pra mim poesia é nada que se repete, tudo que se transforma. Cada dia que se lê uma poesia, uma nova leitura daquela mesma poesia. Com as palavras expostas de forma linear, todas as vezes que se lê, ela vai repetitivamente ser a mesma coisa. Sacal e finita.

Anchieta Fernandes cita você numa entrevista ao jornal Dois Pontos como sendo um poeta completo dentro do poeta processo. Qual a sua influencia, qual a sua relação com a poesia concreta e o poema processo?
Quando eu comecei a aglutinar, catalisar informações sobre a literatura e vi a produção poética dos irmãos Campos e do Décio Pignatari, fiquei louco, pensei: “isso é inteligente”. Levar a palavra até às últimas conseqüências. Um exercício sublime da palavra. Quando vi a poesia concreta, as traduções dos irmãos Campos dos clássicos, o James Joyce, disse: “vou ficar por aqui, isso me instiga”. E partir daí fiquei com essa preocupação de ir além, a palavra além da simplória aparência. Entretanto, é interessante citar que em 1996, o crítico e professor Tarcísio Gurgel, no livro do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Anais do Módulo Zero – Leitura: Linguagem, Sociedade e Cidadania) analisando a Poesia Marginal recobra a vocação da oralidade e afirma: “Natal, aliás tem um magnífico poeta nesse sentido é o nosso Plínio Sanderson”. Portanto, a minha poética transita desde a construção material/mental até desembocar na fluidez da palavra recitada.

Em 2003, você foi o vencedor do premio Othoniel Menezes, concedido pela Prefeitura de Natal, através da Capitania das Artes. Como foi ganhar esse reconhecimento de “poeta oficial”?
Interessante porque de 86 até 2001, eu radicalmente me negava a fazer poesia linear. Escrevia textos nos jornais sobre política cultural, textos densos, complicados, também para iniciados, nem todo mundo entendia: prolixo? hermétic? Como educador, entrei no curso de Geografia, o que me deu subsídios para ler o texto impresso nas paisagens. Comecei a ter uma recaída belletrista, nuances Ferreiraitajubanas. Descobrir a geografia do meu pedaço, o “genius loci”, a magia do lugar que habito. Passei a escrever textos épicos, sabia que com minhas poesias irrequietas, não ganharia prêmio nenhum. Ai pintou alguns poemas épicos: sobre o Beco da Lama, sobre Santa Rita, e pensei, isso dá pra ganhar, é nativista, tem raíz. Formatei um livro muito interessante, um estudo da poética. A partir da idéia Poudeiana que separa a poesia em três dimensões: a Logopéia: A dança do intelecto entre as palavras. O emprego das palavras não apenas em seu significado direto, porém, levando em conta os hábitos, seus concomitantes habituais, seu jogo irônico; a Fanopéia: Imaginismo: não apenas a imagem parada, mas também a imagem tal como se apresenta ao “olho mental” em movimento. O poema é antes de tudo algo que se faz, não apenas algo que se diz; e a Melopéia: épica é a poesia que contém história. Cantares de sua terra. Esse exercício foi mais transpiração do que inspiração e ganhei o 33º prêmio Othoniel, no dia do meu aniversário de 40 anos estava estampada nos jornais a notícia do prêmio. Agora, poeta oficial é quando se é aceito pelo establisment, e acredito que um artista não deve jamais se submeter a qualquer podre poder.

Numa entrevista à revista Papangu, o poeta Moacyr Cirne declarou que só aceitaria um convite da Academia Norte-riograndense de Letras se todos os acadêmicos fossem nus a sua posse. Qual sua opinião sobre a ANL e se você recebesse um convite para pertencer aos quadros da Academia você aceitaria?
Detesto até mesmo recitar poesia quando só há poetas, prefiro, pois é poesia, pois é poesia nas ruas, desmistificando-a, levando-a ao populacho sedento. Acho o fardão uma bobagem que minha vaidade não quer, ignora. O grande poeta Nei Leandro de Castro foi vítima dessa casa fune-literária.

Em sua opinião, o que há de melhor sendo produzido em solo potiguar, incluindo novas e velhas gerações?
Vejo Natal, hoje, meio que uma Babel. Nós temos uma possibilidade de lançar livros rápidos, baratos, temos Abimael Silva, temos as instituições que estão se abrindo. Agora, a produção não tem uma organização palpável. Temos a Associação de Poetas Vivos e Afins, que aglutina, arrebanha uma galera, mas não significa dizer que se constitui num movimento poético efetivo na cidade. Está faltando um azimute. Cabe ao estado começar a nortear uma gestão que apresente a produção literária do estado. Temos “Os Brutos” do poeta José Bezerra Gomes, lá de Currais Novos, que é um livro fantástico. Todos conhecem a exuberância do recôncavo baiano via literatura de Jorge Amado; mas nós temos José Bezerra Gomes, num livro belíssimo, que denota o ciclo do algodão seridoense. Temos uns poetas nativistas fantásticos, os poetas da invenção que foram além da palavra, como A. de Araújo, Venâncio Pinheiro, Falves Silva, Moacyr Cirne, J. Medeiros, acho que está faltando um movimento engajado como existia antigamente. Hoje em dia, não existe isso. Quem faz literatura hoje de boa qualidade cito: Antonio Ronaldo, Pablo Capistrano, Iracema Macedo, Carmem Vasconcelos, Zé Martins, Daniel Michone, Marise de Castro, Antoniel Campos. Na minha vertente, eu colocaria no trono o poeta A. de Araújo.

O Rio Grande do Norte é visto como um Estado que produz muitos poetas e poucos ficcionistas, temos aqui pouquíssimos ficcionistas como Nei Leandro de Castro. Na sua concepção literária, o Rio Grande do Norte produz mais poetas que ficcionistas ou está faltando à ficção no Rio Grande do Norte?
Você sabe que teve uma época em Natal, o Moacyr Cirne coloca no “A poesia e o Poema do RN”, um livro fantástico para quem quer (re)conhecer a literatura potiguar, ele que teve uma época em Natal que a grande maioria da população era poeta. Realidade ilustrada pelo dito popular: em cada esquina um poeta, em todo beco um jornal. Era a belle époque retardatária, quando mesmo com uma poesia geralmente anacrônica, se proclamava o sujeito como poeta. Acho que todos optam pela poesia por ser mais fácil, sem ter um devido cuidado com a língua – a tal “licença poética”. Com relação aos contistas, temos bons nomes, sim. Mas essa preguiça oriunda desse sol escaldante (onde ninguém sonha/ pela preguiça do pensamento em atravessar o rio sob esse sol”), deixa meio torpe e se busca pelo caminho mais fácil. Tinha um grande escritor potiguar que foi duas vezes governador, chamado Antônio de Melo de Souza, que analisando as vicissitudes provincianas no século XIX in “Vida Potiguar” ilustra: “A vida social, colaboração de todos para o bem da coletividade, que resultará o bem de cada um; espírito de solidariedade inquebrantável de todos por um e um por todos, essa vida nós não temos. Sob esse ponto de vista o potiguar é mais adiantado do que os da vanguarda deste século de egoísmo, de individualismo de cada um por si e o diabo que carregue os outros. Além da solidariedade política, não há nenhuma outra. Não há espírito de associação para fim científico ou literário, moral ou religioso, filantrópico ou de mútua beneficência. Além do tempo ao trabalho indispensável para a manutenção própria e da família, ele só dedica uma parte do resto à política”. A pior forma de poder, o imaginário barroco nos deixou de herança o poder oligárquico: NATALVESMAIA. Povo chucro, marcado, condenado à mestiçagem tropical, com sua inferioridade inata: climática-telúrica, asnal-lusitana, católica-humanita. As pessoas têm preguiça, pois para ser um grande cronista ou contista, você tem que ler, ter obrigatoriamente uma considerável bagagem de literatura, tem que ralar. Nós lemos muito pouco. E essa preguiça atrapalha o trabalho.

O jornalista Carlos de Souza escreveu, na Tribuna do Norte, que Natal é uma cidade boçal, beletrista e que produz uma literatura narcisista. Até que ponto isso é verdade?
Acho que Natal é mesmo pedante, besta e equivocada. Faz-se um discurso de cidade moderninha, de Londres Nordestina, mas na verdade, as oligarquias continuam nos assolando. Somos uma sociedade fadada ao estupro cultural. Tudo que vem de fora, tudo que é alienígena nos seduz. A gente não pensa em qualidade, em o que é de relevância. Tudo que vem de fora para o Rio Grande do Norte sempre encheu os olhos da gente. Então essa pseudo-idéia de moderninha é equivocada. Nós não somos bairristas. Infelizmente, pelo contrário. Outrora, Othoniel Menezes, vaticinou à “Jerimulândia” o carma do “pecado original de haver nascido na Esquina do continente”.

O Salão dos Excluídos é uma resposta à ditadura cultural implantada na Capitania das Artes para promover meia dúzia de artistas?
O salão dos excluídos foi uma releitura histórica do “Salão dos Recusados”, Paris (1863), e que desembocou no impressionismo e nas efervescências das vanguardas. O inconformismo abre as portas para emancipação. Em Natal 2006, o “barrados no salão” celebra o oito de maio - “dia do artista plástico”. Onde uma plêiade de artistas, deserdados da vida cotidiana em entrelaçamento de influências e confluências pessoais, num ímpeto de liberdade individual e igualdade social, proclamam contra a receita técnica, o escolhido, o distinto, o excepcional, contra o acabado, contra os cânones hierárquicos e as falsas elegâncias dos salões e vernissagens. Tira as teias esclerosadas dos teus olhos, a arte não é só fruição, mas síntese da essência cultural de um instante histórico. Sem bulas ou encíclicas, Barradas no Salão. Defendo ver a arte com os olhos livres, sem hors-concours ou excluídos! Infelizmente, a administração da FUNCART, encarou como uma jogada da “oposição”, e nos colocou no cartaz da programação oficial e logo depois, mandou retirar os cartazes da rua, imprimindo um outro, retirando o nosso evento. O cúmulo da malversação do erário municipal e do autoritarismo. Ato que se torna corriqueiro nessa malfadada administração. Lembro quando a cantilena era que não há verba, nem mesmo para um mísero aparato de som ou placo, sem cachê, sem mais nada. Agora, a PMN através da Funcarte disponibilizou fartos recursos para trazer shows de cantores nacionais a se apresentarem gratuitamente na zona sul da cidade, num claro proselitismo cultural. Quanto ganha um astro nacional e quanto recebe um artista local? Fazendo censura a músicos da terra vide os casos de Romildo Soares, que convocado por Simone, para cantar uma música de autoria do compositor foi (também) barrado à beira do palco. Ou mesmo a polêmica com Pedrinho Mendes, boicotado dos eventos. É o cúmulo, um absurdo.

O que seria necessário fazer para uma consolidação nacional da literatura potiguar?
Desde 82, atividade turística ainda incipiente defendíamos como zênite: “importar turista e exportar cultura”. Não ficar reféns das belezas naturais, até porque, o tempo profundo consagrou eternidades para esculpi-las e a insensatez do capital é imediatista, impiedosa, sem escrúpulo, perversa e avessa à sustentabilidade do lugar. Gritávamos a plenos pulmões a necessidade de catalogar, resgatar, revitalizar as manifestações populares. Fomentar um movimento em defesa da literatura potiguar começando com uma frente objetivando inserir na grade do ensino médio a disciplina de Literatura Potiguar. Vamos saber quem são nossos nomes. Qual a importância deles no cenário nacional. Qual o estilo de cada um. Nesse sentido há uma carência latente. Com a introdução de literatura potiguar vamos modificar o que o Rio Grande do Norte sabe sobre o próprio Rio Grande do Norte. Quem são nossos poetas? Bons ou ruins. Quem são eles? Vamos desmistificá-los. É fundamental também introduzir na grade curricular além de literatura as disciplinas de história e geografia potiguar. E, principalmente, redigir leis que cobrem em concursos públicos no nosso Estado tais conhecimentos. Nos Estados vizinhos (da Paraíba, Pernambuco, Ceará), os concursos de vestibulares e concursos públicos tem a obrigatoriedade do conhecimento na literatura, história e geografia peculiares. Se o leitor fizer uma pesquisa com os educadores do ensino médio, quase ninguém sabe nada sobre literatura potiguar. Devemos radicalizar e mudar esse quadro desolador. Só assim vamos nos libertar dessa tendência ao estupro cultural que assola nosso Estado. Mais forte são os saberes do povo.

Como professor, você leva a literatura para a sala de aula? Você trabalha a poesia com seus alunos?
A minha formação é de antropólogo, quando comecei a dar aula em 84, eu lecionava filosofia, sociologia e história da arte. A matéria principal era história da arte. Enveredamos no caminho de uma arte educação libertadora e crítica. Eu acredito na arte como forma de enriquecimento de espírito humano. Na área da humanidade, da filosofia e da sociologia vislumbramos o conhecer como totalidade, contextualização do saber. Independente da matéria que esteja lecionando, trabalho com esse intuito. Inclusive o meu exercício na educação não é só sala de aula, realizo projetos de Animação e Marketing Cultural nas escolas, aula de teatro, cine-clube, edição de jornal. A idéia é contextualizar os conteúdos de sala de aula com a nossa identidade potiguar. Conhecer nossos escritores, desvendar nossas paragens, quem cantou-os ou decantou-os em prosas & versos. Jarbas Martins disse: “sobre um céu de ferrugem e salitre nutre o Potengi a sua podre geografia”; recentemente. a partir dessa frase realizamos palestra numa feira de educação no Midway, fragmentos da História e da Geografia potiguar, tendo como fio condutor o Rio berço da terra Natal. A constatação de que quanto mais inseridos no processo de globalização mais apartados de nossa história, nos instigou a realizar uma abordagem multidisciplinar norteado pelo pertencimento e identidade com o Rio “Potengi Amado”: visões míticas, alumbramentos de poetas e escritores, sem esquecer da brutal realidade ambiental.

Nas comemorações do dia 14 de março deste ano você foi homenageado pela Fundação José Augusto. Como você recebeu este reconhecimento?
Se eu não merecesse a homenagem não aceitaria. Porém, não posso agir com falsa modéstia. Não tenho a pretensão de comentar a essencialidade da minha poesia para a literatura do Estado, isso o tempo julgará. Agora, com relação as comemorações do Dia da Poesia, sou ciente de minha contribuição histórica. Posso, inclusive, citar outros dois poetas de relevância: Dunga e Pedro Pereira. In memorian lembro o desabafo do Rei Vassalo prof. Melquíades (integrante do “Clube dos Inocentes” junto com Cascudo): quem quiser me prestar uma homenagem que seja em vida. Deixarei escrito e registrado em testamento e cartório que não poderão usar meu nome para grupo escolar, de logradouro ou rua, ficando proibido a minha alma baixar em centro espírita e/ou terreiro de umbanda! Esse ano, a comemoração foi supimpa, uma efervescência massa, como aquela visão oswaldiana: sob a cidade flutuava a bandeira do por vir. Faltou maior destaque dos quarenta anos do poema processo, um poema exportação, que foi além dos fronts invertendo o fluxo de dependência cultural, a produção de uma arte livre. Em consonância, construí alguns “ready mades”, ao estilo Duchampiano dadaísta: Bibelôs & Parangolés, metalinguagens poéticas. Entretanto, prefiro quando realizávamos as comemorações sem “palanques” oficialescos. Vesti uma kafita negra com o poema “Signo” de Dailor Varela (1967) e ensandecido desafinei no coro dos (des)contentes.

Você já foi eleito pelos artistas para os Conselhos de Cultura do Município (97/98) e do Estado (2003 à atualidade), o que você acha destes instrumentos de incentivo a produção cultural?
A primeira Lei de incentivo á produção cultural da República brasileira foi feita aqui no nosso Estado, em março de 1900, sugerido por Henrique Castriciano ao governador Alberto Maranhão, que ficou conhecido como o mecenas das artes potiguares. Em 97, numa disputa duríssima contra o produtor cultural Ayres Marques, venci a disputa para conselheiro da Lei do Profinc. É bom ressaltar que nunca a cultura potiguar fez-se tão efervescente e profícua: lançamentos de livros, CDs, peças, produtores e artistas podendo ganhar com sua labuta. Mas, a prefeita por revanchismo (alcunha de Lei Mineiro) ou pura soberba, extinguiu a mesma com ajuda do Poder Legislativo num fatídico junho de 97. No seu lugar criou a Lei Djalma Maranhão que passou cinco anos para poder dar certo. Em 2003, numa disputa menos acirrada fui eleito para o conselho da Lei Câmara Cascudo. A modernidade traz consigo o dilema do papel estatal e seu imbricamento com a Arte. Do Mecenato clássico, inspirador dos dogmas católicos, onde havia cumplicidade assistencialista/ideológica; passando no início do século XIX para o patrocínio, consolidado em meados do XX com o Marketing Cultural, que juntou interesses corporativos e mercadológicos. Recentemente, o Estado oferece benefícios fiscais instituindo o “investimento incentivado” - através das leis de incentivos. A lógica do mercado substitui a política pública. A questão é: como se dá a transferência dos recursos públicos? O Estado deve ser isentado de quais obrigações? Como fica a produção artística não convencional, experimental ou não-comercial? No lugar de artes expressivas, arremedos reprodutivos e repetitivos; ao invés de arte-criação, eventos efêmeros. Antes da experimentação, a consagração na fútil moda. Na civilidade da televisão, valores transgênicos incutidos numa pós-modernidade centrada no consumo e no lazer. O que podemos inferir é que em nosso estado as leis carecem de revisão! O mais preocupante é que o Estado deixou o mecenato e de ser patrocinador, mas continua participando da cena. Pior, está interferindo na captação de recursos. Artistas e produtores reclamam, pois, quando aprovam os projetos, não conseguem captar. Eis uma luta injusta, desigual e capciosa. Quem o diretor da Cosern, Telemar vai receber um representante com chancela de instituição oficial do governo ou o poeta Jackson Garrido do morro de Mãe Luiza? A esposa de um senador da República ou o excrachado Paulo Augusto da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins? Acredito que não devemos ter cadeiras cativas, projetos que se perpetuam anos após anos, pagos com o dinheiro do contribuinte. Eventos de um dia com custos exorbitantes, na casa dos seiscentos mil reais, a indústria dos carnavais, projetos já pagos onde são cobrados entradas e/ou camisetas caríssimas. Em minha opinião, a essência da Lei é democratizar o acesso à produção, pulverizar os recursos, não apenas contemplar os mesmo projetos indefinidamente. Cria tetos para os projetos. Minha postura foi de aprovar projetos que fossem estruturantes que tivessem pertencimento e identidade cultural. Por tal postura minha lista de desafetos aumentou consideravelmente.

Fale um pouco sobre o seu próximo trabalho que está no prelo, afinal tem mais de cinco anos que você não publica nada.
A idéia consiste em exercitar todas as nuances da palavra: verbi-voco-visual. Em quatro movimentos, Panaroma no Kaos - um extudo da poética -, funda-se com Logopéicos poemas curtos, “humor/rumor”, insights filosóficos, pseudos Hai-Kais. Na busca do biscoito fino oswaldiano, comprimidos de poesias, não para a massa, mas para iniciados. Onde o leitor, interlocutor interativo atribuirá sentido através do próprio logos, transcriando-os, mediante sua singular cognição. Num segundo instante, a experiência se dá no imbricamento “Fanopéico”. Seguindo a tradição estética potiguar, poemas visuais, repondo a processualidade concreta destas paragens, da “Rede Suspensa” do Jorge Fernandes aos processos do Dailor, Anchieta, Nei Leandro, Falves, Jota, A. de Araújo, desembocando no seio da poesia-invenção... No limiar “Melopéico”, rebuscamos a linearidade do alfabetofício. Uma leitura, uma grafia, dos espaços imagéticos da Cidade do Prazer, híbrida: musa e puta da inspiração cotidiana. O habitat revisitado como útero primogênito. Identidade com o chão, nativismo de Itajubá, Manuel Dantas, Othoniel Menezes... Concluindo, “Pauta Ulterior” converge a pseudos ensaios publicados nos jornais da Província. (Re)leituras antropológicas, denotadas em antropofágicos textos, deglutidos num sublime caso de amor (como diria Jomar Muniz de Britto): Antônio de Melo e Souza, Manuel Dantas, Ruben Alves, Niesztche, Chauí, José Martins de Souza, Eli Celso, Erza Pound, Platão, Cascudo... Contextualizações históricas e dialeticamente histéricas, angulações do simulacro polético do Estado. Abordagens ensandecidas sobre a totalidade: produção, distribuição e consumo do fazer artístico, as interfaces da cultura com: a educação, o território, a arte, o meio ambiente, a política, a economia, tecnologia turismo (e sustentabilidade do lugar)... Enfim, há vinte anos sem se lançar na aventura de um livro, o medo inaudito do ridículo relevou o tempo, eis “Panaroma no Kaos”, um bibelô poético que instiga o tênue limite entre o ser (ou não ser) poesia, concomitantemente, celebra a tal Poesia em todas as (im)possibilidades da palavra escrita, olhada, tateada, sacramentada, e nas entrelinhas: esculpida, esbravejada, sacada, lavrada, escancarada.